07/08/2014

"Império" é um suave veneno. Por Jean Wyllys

 
Por Jean Wyllys para o IG
 
Afirmar que “daqui a pouco até Pernalonga vai ter beijo gay” – como fez Aguinaldo Silva, autor da nova novela das nove da Globo, “Império”, entre outras de sucesso na mesma emissora – é uma provocação. E provocar é o que Aguinaldo Silva sabe fazer bem. Jornalista esperto, ele sabe manipular bem e a seu favor as mídias que se alimentam de – e se sustentam em – declarações “polêmicas” de celebridades. Ativista político experiente, sabe quais afirmações serão virais entre reacionários e progressistas e, portanto, chamarão a atenção de ambos para sua obra. A afirmação sobre Pernalonga não passou, portanto, de uma provocação (que, de resto, só surtiu efeito mesmo entre aqueles que nunca assistiram com atenção ao desenho animado do coelho que vive brincando com a troca de gêneros e, assim, colocando-se o tempo todo na iminência de um “beijo gay”, como mostra este clipe. Quem conhece Pernalonga debochou da declaração de Aguinaldo.
 
Mas as melhores provocações de Aguinaldo Silva são mesmo suas telenovelas. Escritor criativo, Silva optou por cultivar seu talento mais na teledramaturgia que na literautura. “Império” é a prova de que, em que pese a bem-vinda e surpreendente renovação no quadro de autores da Globo, quem ainda melhor entende do riscado é um veterano. E com esta novela em especial, ele mostra que é ainda capaz de se superar ou de reinventar a si mesmo. Escrevo essas palavras depois de ter acabado, há pouco, de assistir aos primeiros capítulos da novela na internet (bendita internet que me permite fazer diletantismo nas madrugadas insones!).
 
Talvez os menos atentos não percebam, mas “Império” é um remake de “Suave veneno”, novela que Silva escreveu em 1999. Eu – que não nego nem nunca neguei a ninguém que sou noveleiro desde menino – percebi de imediato. Há mudanças aqui e ali e introdução de novas tramas, mas o argumento principal está mantido: a chegada da filha bastarda ao cotidiano do pai rico e poderoso que desconhece sua existência (a da filha bastarda) e tenta, em vão, manter de pé a família – a mulher e três filhos – dividida pela disputa de um “império” e por ressentimentos. Em “Suave veneno”, tratava-se de um “império de mármore” pertencente a Valdomiro (José Wilker) – cuja personalidade era igual à do Comendador de “Império” – e disputado por três filhas (entre as quais, destacava-se a ambiciosa e inescrupulosa Maria Regina (Letícia Spiller em interpretação memorável), à qual corresponde o personagem de Caio Balt novela atual). A esposa de família quatrocentona que abrira, ao “rei do mármore”, as portas da high society e lhe conferira glamour era vivida por Irene Ravache. Já a filha bastarda, Clarice, heroína da história, era interpretada por Patrícia França.
 
“Império” é “Suave veneno” contada de uma maneira bem melhor. E isso mostra que o ficcionista de talento não se restringe a ser criativo: sabe reconhecer quando a história que criou pode ser contada de uma forma melhor, ou seja, de modo que envolva a audiência ou lhe provoque. Não basta uma boa história: é preciso saber contá-la! Mas embora eu reconheça que “Império” seja mais envolvente que “Suave veneno” por ter a intriga adequada, eu sinto falta, em Cristina, de um pouco da ambigüidade que tinha Clarice. Leandra Leal é uma atriz de raro talento e carismática. Sua Cristina já me conquistou e ao restante da audiência. Mas imagina se existisse, nela, um pouco daquele misto de vingança e justiça que movia Clarice e que Patrícia França interpretava com maestria? E o imperador de Alexandre Nero – talvez pela combinação de seu inegável talento, sua idade e a responsabilidade de protagonizar uma novela pela primeira vez – é mais verossímel e tem nuances (inclusive humor e sex appeal) que o interpretado por Wilker não tinha.
 
“Império”cresce em relação a “Suave veneno” em outra mudança: o gay suburbano afeminado, ético e generoso, vivido por Diogo Vilela, e seu fiel escudeiro interpretado por Luís Carlos Tourinho dão lugar à travesti vivida por Ailton Graça e sua amiga manicure interpretada por Viviane Araújo. Há, nessa mudança, um desafio político: fazer com que a audiência se identifique com uma personagem que carrega, sobrepostos ou articulados, três estigmas que, na vida real, fazem,dos estigmatizados, vítimas frequente de ódio, discriminação e violência: a negritude, a homossexualidade e a transexualidade.
 
Mas a nova novela de Aguinaldo Silva cresce mesmo é no que traz de novo. Não me refiro à humorada prestação de serviços sexuais que Tuane (Nanda Costa mostrando que veio mesmo para compor a constelação de estrelas lindas, sensuais e, ao mesmo tempo, muito talentosas) faz a Reginaldo (Flávio Galvão) nem à exploração sexual de que é vítima Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa) por parte da própria família – tramas de resto interessantes por provocar a moral hipócrita de muita gente que discrimina prostitutas assumidas. Refiro-me ao embate entre os personagens de José Mayer e Paulo Betti. O primeiro, Claudio Bolgari, é um homossexual enrustido e no armário; casado com uma mulher que lhe deseja e respeita e pai de um filho que lhe tem como referência, Bolgari desfruta dos prazeres da homosexualidade no armário, numa gestão esquizofrênica e carregada de culpa da própria vida. O segundo, Téo, é um gay assumidíssimo e orgulhoso de sua homossexualidade, mas maledicente em relação à vida privada alheia. Já nos primeiros diálogos entre esses personagens, fica evidente que estaremos diante de um debate que não está resolvido nem mesmo na própria comunidade LGBT: num ambiente em que homossexuais não são só desqualificados, mas vítimas de violência dura, há lugar para um “direito ao armário”?
 
A parte da militância LGBT que implica (não sem razão) com as declarações provocativas de Aguinaldo Silva à imprensa de celebridades poderia prestar mais atenção ao que ele está dizendo em sua trama (e ainda no que ele já disse em tramas anteriores). Silva pode ter abandonado formalmente a militância tradicional, mas jamais deixou de prestar atenção nos conflitos e transformações da comunidade da qual faz parte nem de contribuir para uma mudança do olhar das maiorias sobre essa comunidade. Nesse sentido, “Império” é um suave veneno anti-monotonia. E vale a pena acompanhá-la.

Um comentário:

Fábio Hakim Lyrio disse...

Analise interessante. Mas como o autor da novela já saiu de cara c essas declaradas, creio qpossa vir surpresa por aí... conforme andar o passo da audiencia..

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