04/08/2014

Solomon é aplaudido de pé na Flip ao falar de depressão e de ser gay e pai

 
Cauê Muraro para o G1
 
Militante da causa homossexual, ele recebeu no palco o filho de 5 anos. Autor comentou luto de mães de vítimas do incêndio na boate Kiss;
 
Ao falar de depressão e de pais de filhos com condições excepcionais, o jornalista e escritor americano Andrew Solomon ganhou aplausos constantes na noite do dia 1º de agosto na 12ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ao final da mesa, o público ficou de pé para bater palmas. Durante cerca de 1h20, o ensaísta comentou sobre sua "identidade gay"; recebeu no palco seu filho George, de 5 anos; contou histórias comoventes de mulheres que tiveram filhos após serem estupradas em Ruanda; e lamentou pelas mães de vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), que deixou 242 mortos em janeiro de 2013. Uma das perguntas enviadas pela plateia informou que algumas delas estavam presentes, segundo o mediador.
 
Solomon é conhecido por best sellers sobre a depressão grave (“O demônio do meio-dia”) e sobre conflitos de paternidade ou maternidade (“Longe da árvore”). Também milita a favor da causa gay. Na Flip, dividiu cena apenas com o mediador, o jornalista Otavio Frias Filho.

No início da conversa, disse que se surpreendeu com o fato de "O demônio..." vender tanto no Brasil. Brincou que não sabia que havia tristeza por aqui.

"Para mim, todo mundo no Brasil era muito feliz. Fiquei triste de constatar que isso não era verdade, mas contente de ver que os deprimidos brasileiros estavam lendo meu livro."

Já "Longe da árvore", Solomon aborda uma dezena de condições que afetam decisivamente as relações familiares. Fala de pais de filhos surdos, anões, portadores de síndrome de down, autismo, esquizofrenia, crianças prodígio, crianças resultantes de estupro, portadores de propensão ao crime e transgêneros.

De acordo com o autor, ao escrever o livro, ele pensou em sua própria condição. "Quando era menino, achavam que ser gay era uma doença. No meu mundo de hoje, é uma identidade", afirmou. "Não é tratado como doença. É um jeito de ser. Então, o grupo ao qual eu pertenço passou de um modelo de doença para um modelo de identidade."

Para ele, o trabalho "fez pensar sobre amor e aceitação, que sempre leva um tempo para acontecer". "É um processo lento de reconhecimento, de se ver separado do seu filho e de aceitar aquela criança."
Quando o mediador lhe perguntou se acreditava na existência do "mal com M maiúsculo", Solomon respondeu afirmativamente. Para justificar, citou entrevistas com mulheres estupradas em Ruanda. Uma delas foi feita escrava sexual e, na esperança de salvar a vida dos filhos que já tinha, resolveu não se suicidar ou se rebelar. Não adiantou, e ela ainda contraiu HIV.
 
Uma segunda entrevistada, contudo, fez com que ele passasse a pensar sobre o oposto do "mal com M maiúsculo". Terminada a conversa com a jovem, o escritor quis saber se ela tinha algo para perguntar. "Essa mulher, uma mulher linda, que estava cuidando do filho resultado do estupro, quis saber: 'Você pode me dizer como posso fazer para amar mais a minha filha? Porque eu olho pra ela e lembro do que aconteceu, e isso me atrapalha'", relembrou Solomon.

"Depois daquilo, percebi o quanto de amor havia naquela pergunta. Sem dúvida, há o mal. Mas também acredito que é surpreendente como as pessoas podem ser fortes quando confrontadas com esse mal maior. A coragem daquela mulher fez com o que fosse mais fácil enfrentar esse mal com M maiúsculo."


Sobre "Demônio do meio-dia", Solomon citou que a própria depressão crônica serviu de motivação e expôs seu próprio histórico com a doença. "Falei com outras pessoas, médicos, legisladores, para abordar questões políticas em torno da depressão", listou. "Eu queria romper a ideia de depressão como sendo uma doença da classe média ocidental." No Senegal, chegou a passar por um ritual em que foi banhado em sangue de bode, um dos métodos locais para tentar curar deprimidos. "O oposto da depressão não é a alegria, é a vitalidade."

Na opinião dele, embora a depressão "não seja um fenômeno recente", a sociedade atual está "vivenciando mais depressão do que antigamente, ou seja, estamos diagnosticando mais a depressão". "Em 1892, se você tivesse depressão, azar seu, tinha de se virar. Em 2014, você encontra medicação, terapia, várias práticas espirituais."
 
 
Ainda assim, acha que o que chama de desafios da modernidade "parece gerar mais depressão". Aqui, cita influência da alimentação, mudanças climáticas, horas de sono a menos, "interação com máquinas em vez de pessoas" e o ritmo acelerado em oposição ao ritmo mais lendo do passado.

A pergunta final, enviada por alguém do público, foi justamente sobre as mães das vítimas do incêndio na boate Kiss. Neste momento, Solomon se preocupou em diferenciar luto de depressão. "Não quero que as pessoas pensem que eu não reconheço como é terrível ou que muitas pessoas com experiência terríveis não encontram sentido. "Esse tipo de perda é catastrófica, e não consigo pensar em algo pior que a ideia de perder um dos meus filhos num caso como esse", começou dizendo.

"Mas as pessoas confundem luto e depressão. Luto é algo que você sente no momento da perda e depois começa a melhorar lentamente. Depressão tende a aumentar, seis meses depois você está mais paralisado ainda. Luto pode disparar a depressão, mas não são sinônimo. É útil separar, porque luto é um dos sinais do amor que você sentia."
 
 

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