05/09/2014

"Machismo" Por RICARDO CHAPOLA

 
Por RICARDO CHAPOLA para o Estadão
Ilustração: Felipe Blanco
 
Atenção: a crônica abaixo contém alta dose de ironia

Não é machismo, é preocupação, mulheres. Por que vocês vieram com essa de abrir as asinhas? Se eu tivesse a chance de poder ficar no conforto do lar, cuidando dos afazeres domésticos, ficaria. Mas como tive o importuno genético do pênis, coube a mim e a todos os homens, tal qual um dever natural, zelar pelo provimento da caça, pelas contas pagas, pela escola dos filhos.

Nós, sozinhos, daríamos conta do recado. Mas parece que vocês não acreditaram na gente. Rebelaram-se contra o sistema, achando que aquilo tudo fosse uma espécie de submissão. Não é bem assim, minhas queridas. É que ao dividir com vocês atribuições originalmente masculinas,  a balança do ecossistema se desequilibra: teremos o dobro em geração de renda, mas quem ficará por conta do jantar? Quem passará minhas camisas? E as crianças? Ficarão a Deus dará? É como se, de uma hora para outra, as mulheres resolvessem deixar as amarelinhas de lado para se aventurar ao futebol – tanto inapropriado quanto brutal a vocês.

A gente quer protegê-las de um mundo atroz, não tolhê-las. Queremos poupá-las da selvageria do mercado de trabalho, às vezes demais até para nós mesmos. Tentamos blindá-las ao máximo dos problemas de fora, porque já bastam os que vocês já têm: roupa suja, o supermercado, a casa por limpar, levar o menino para o judô, a menina ao ballet. Nos sentiríamos mal se tivessem que engolir, por exemplo, além disso tudo, mais os desaforos de um chefe chato, é verdade, mas que só se exaltou por agir pela prudência, pois pensa exatamente como todos nós.

O problema é que vocês são teimosas. Descobriram os serviços da faxina, da babá, se deram conta da existência do drive-thru da pizzaria 24h, e foram desbravando, pouco a pouco, um território hostil – e viril. Ganham mais do que muito homem por aí, tão capaz quanto vocês, mas que foi jogado na contramão da natureza. Hoje, é ele quem cozinha, passa os vestidos da mulher, toma conta dos filhos.

Nem ligamos para o fato dos salários maiores, minhas senhoras. Ligamos pela má gestão do dinheiro que vocês fazem, torrando grande parte dos ganhos em roupas, perfumes, ou outros adereços absolutamente dispensáveis. Vejam a gente: na nossa época, o dinheiro ia todo para as contas da casa, nota por nota, com exceção dos R$ 100 do bar de quinta à noite, direito inviolável a quem cumpre, a rigor, com todas as metas estabelecidas pela gente.

Depois é chegar em casa, tomar um bom banho, ficar cheiroso para uma boa transa com a patroa, sem a, nem b. Ou quando há, recorremos por fora: a secretária mesmo, quase todo dia, está louca por uns amassos.

As objeções da mulher ao sexo passaram de exceção a regra. Dizem chegar cansadas do trabalho, alegam dor de cabeça,  preferem passar a noite estudando para o mestrado, lendo, ou bebendo vinho com as amigas. Se forem esses os motivos a gente até vai entender, embora achemos que tudo isso já foi longe demais.

Vocês saíram de casa, ganharam o mercado, algumas são chefes ricas e bem sucedidas. Chegaram à Presidência. Ficaram mais gostosas. Agora ai de vocês se essa gostosura não for exclusividade de apenas um de nós.

Não é machismo.

Só queremos mulheres com boa reputação.
 
* O ministério da Crônica adverte: o texto acima continha alta dose de ironia. Ao persistirem os sintomas citados, um especialista deverá ser consultado. E rápido.

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