27/10/2014

"Carta aberta aos heterossexuais: homofobia, poder e potência" - Por Fernando Vieira


Por Fernando Vieira

Recentemente, escrever isto tem se tornado necessário. Ao longo de minha trajetória escolar e até mesmo em minha vida adulta, como homem gay afeminado e cisgênero, enfrento algo comum a muitos como eu: a eterna suspeita de amigos heterossexuais e de suas famílias de que nós estamos "apaixonados", ou que "daremos em cima", ou ainda que "jogamos verde pra colher maduro", ou que "nos engajamos em converter heterossexuais".

Há sempre essa suspeita. Raros são os amigos com os quais jamais tive de conversar a respeito e esclarecer que não, eles não me interessam. Além da suspeita vinda do próprio "amigo" há a suspeita dos familiares e outros amigos deles, os boatos de presunção da sexualidade do outro, como se minha homossexualidade fosse contagiosa.

Os boatos, neste caso, funcionam como um mecanismo de guetificação homofóbica do homossexual. Somos privados, através de aparatos de verificação da masculinidade do outro, de criar laços e desenvolver afetos. Vivemos sob a eterna suspeita. Os "amigos", deste modo, afastam-se com receio de perder o status da própria masculinidade e heterossexualidade viril. O receio é claro: a heterossexualidade viril masculina é sim condição de poder e privilégio. Meus amigos homens heterossexuais, saibam disso: há privilégio em sua condição.

Eu os compreendo, apesar de considerar inadequada a postura de afastar-se de um amigo, dada sua sexualidade. Entretanto, serve para que reflitam: quem em sã consciência escolheria viver em um mundo homofóbico? Ninguém. Mas há aqueles, como eu, que não tem opção além de viver e trabalhar diariamente para que a homofobia deixe um dia de existir: tanto em suas formas físicas, quanto simbólicas, psicológicas e discursivas. E , acredite, existir, sofrendo com a homofobia é em si uma batalha. Existir sendo afeminado "com jeitinho", rebolado e com voz fina, é em si, uma existência subversiva. Gays afeminados não escolhem ser ou não militantes, nossa existência já é, dalguma forma, uma militância.

Quero propor a seguinte reflexão: em que se baseia esta suspeita? Certamente, ela se baseia em mitos acerca da homossexualidade. O primeiro deles é o mito da hiper-sexualização do homem gay "dá pra todo mundo, não pode ver homem, e não importa a idade, dá em cima". Ora, este discurso compõe o esteriótipo homofóbico da homossexualidade. O intuito de discursos como estes é construir uma cerca, com um grande anúncio de "perigo" em torno dos homossexuais.

Dessa forma, demonstração mínimas de afeto tornam-se "sexualizadas", o abraço entre dois homens viris é demonstração de "parceria, fraternidade", se um deles é gay assumido ( viril) ou gay afeminado então o abraço ganha outras dimensões e compõe motivo de chacota ou comentários maldosos.

Alguns de vocês, meus amigos homens heterossexuais, podem considerar que o que eu digo é absurdo. Claro que podem. Mas isso não muda o fato de que a homofobia, não é apenas o crime homofóbico em sua condição máxima, de arrancar a vida ou a integridade física do homossexual, mas a homofobia é também um regime de poder.

Como assim um regime de poder? Gostaria, aqui, de adotar o conceito de "poder" de Deleuze, como sendo a "mínima potência", para Deleuze, o poder é mal, pois ele é limitador das potências dos outros. Deste modo, por exemplo, o poder religioso ao longo limitou as potências de avanço da ciência e das artes. Então, o poder funciona sempre como um mecanismo de limitação.

E o que o poder limita? O poder limita o que o outro pode vir a ser. O poder limita que o outro torne-se tudo aquilo que ele poderia tornar-se, o poder limita, portanto, as potências do outro.

Dito isto, é preciso compreender como a homofobia, enquanto regime de poder, age no sentido de limitar as potências do homem gay. A primeira potência, que me é limitada, é a de viver. Afinal, jovens como João, Kaique, Samuel e tantos outros tiveram suas vidas interrompidas, e com elas, tudo aquilo que eles poderiam tornar-se.

Em minha trajetória escolar, lembro-me de cursos que deixei de fazer. Lugares que deixei de ir. Pessoas que deixei de conhecer, momentos em que deixei de me expressar. Penso em sonhos que deixei de realizar com medo dos risos e dos "ai bofe", "viadinho".

A homofobia é um regime de poder. Então, gostaria de pedir aos meus amigos heterossexuais que pensassem: minha condição de privilégio é também uma condição de poder, que potências eu estou limitando? E por favor: quando vocês me dizem que minha proximidade é tomada de interesses afetivos, ou quando demonstram ter vergonha de mim ( seja pela minha voz ou corpo), estão me dizendo apenas que não merecem minha amizade, e dizem a mim, enquanto militante, que precisam urgentemente pensar acerca de como usam o poder que emana do compor a norma.

*Fernando Vieira é ativista LGBT e educador

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