03/10/2014

Entrevista: Jair Bolsonaro, o língua solta

 
 
 
POR PATRICK CRUZ para a revista GQ
 
Jair Bolsonaro fala só o que quer, e quase sempre atinge gays, negros e defensores dos direitos humanos. Na entrevista a seguir, o deputado mais polêmico do Brasil mostra como é tão popular, mesmo sendo tão odiado — e vice-versa
 
Jair Bolsonaro queria mesmo era ser goleiro. Aos 18 anos, ia participar do Desafio ao Galo, um concorrido torneio de futebol amador em São Paulo criado na década de 70 pela TV Record. Talvez fosse o degrau necessário para ele um dia defender os profissionais do Palmeiras, seu time do coração. Mas o desafio coincidiu com a data de ingresso na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas, sua cidade natal. Jair queria o gol, mas seu pai queria um filho cadete. O chefe da casa não deu brecha para a discussão ir muito longe. "Meu pai decidiu minha vida em cinco minutos", conta o deputado, radicado no Rio de Janeiro. Bolsonaro deixou a vida civil e virou militar — é oficial da reserva —, deixou o gol e foi para a defesa. Nas peladas do Congresso, em Brasília, disputadas às terças-feiras com funcionários e outros deputados, Bolsonaro hoje atua como zagueiro. "Prefiro ficar de beque, diz, usando o termo algo anacrônico para se referir à posição de defensor. "Dá para dar umas caneladas e mexer a carcaça."
 
Canelada é sua especialidade também na vida pública. No Congresso, Bolsonaro talvez seja a personificação mais bem acabada de frases feitas como "bandido bom é bandido morto", "existe o dia do orgulho gay, mas não o dia do orgulho do pai do gay" ou "ter filho gay é falta de porrada" — esta, aliás, cunhada pelo próprio. Suas declarações, no plenário ou fora, já deram origem a mais de 30 processos de cassação. É odiado por integrantes dos movimentos de defesa dos homossexuais, dos negros, dos direitos humanos. Parece um contrassenso: como um deputado com tantos desafetos (parte da imprensa parece se incluir nesse grupo), sem um projeto de destaque, pode estar em seu sexto mandato?
 
GQ ouviu Bolsonaro para tentar decifrar. Na entrevista, ele mostras a verve provocadora e desbocada, mas também bem-humorada e decidida, que causa ojeriza a muitos e agrada a tantos outros: na última eleição foram 120 mil. A última pesquisa do Ibope, divulgada no dia 17 de setembro, o colocou no topo das intenções de voto para deputado federal no Rio de Janeiro, ao lado de Clarissa Garotinho (PR).
 
O que esperar de um eventual novo mandato do PT?

Novas alíquotas do Imposto de Renda, vão taxar grandes fortunas — e, para o PT, qualquer pessoa com um imóvel de mais de 1 milhão de reais tem uma grande fortuna —, vai se pressionar a questão da PEC do Trabalho Escravo para haver a expropriação de imóveis urbanos e rurais… Com essa PEC, o MST pode plantar 50 pés de maconha em uma propriedade, denunciar e isso causar a expropriação da fazenda. Não tem cabimento. Eu fui o único voto contrário à PEC das Domésticas. Votei contra nos dois turnos.
 
Por quê?

Porque quem emprega doméstica é o aposentado, é o casal que está empregado. Agora o aposentado vai ter que vender o Fusca dele para pagar encargo trabalhista quando for mandar a empregada embora. O PT se arma de legislações. Veja a Lei dos Caminhoneiros. Se o motorista dirigir por mais de quatro horas, isso vira trabalho análogo à escravidão — mas vá deixar um caminhão cheio de laptops parado na Baixada Fluminense para ver o que acontece. Eu voto em Fernandinho Beiramar mas não voto em Dilma Rousseff no segundo turno.
 
Você fala do PT, mas falemos agora do PP, seu partido. É o mesmo partido do deputado Paulo Maluf, que não pode deixar o Brasil sob risco de ser capturado pela Interpol…

Jamais eu colocaria meu filho para concorrer pelo meu partido em São Paulo. Preciso complementar ou não?
 
Você se dá bem com ele [Maluf]?

Conheci o Maluf em 1977. A referência que sempre tive dele é que era um empreendedor que fez muita coisa em São Paulo. Desviou dinheiro? Pelo que tudo indica, sim. Outro dia, na TV, até perguntaram para ele se ele votaria em mim, e ele respondeu que sim. A imprensa, para me sacanear, veio me fazer a mesma pergunta. Eu respondi: "vai que ele tomou um banho no rio Jordão e eu não estou sabendo?" [risos] Mas ele está perdendo votos. A votação do Tiririca — meu amigo, colega de pelada — também vai cair. Já a do [Marco] Feliciano sobe.
 
E a sua?

Tenho certeza que sim.
 
Por que a convicção?

Olha, eu tenho meu patrimônio — duas casas na Barra, três carros —, você tem o teu… E qual o patrimônio do pobre? É o filho que ele quer que seja igual o Neymar. Mas quando o pobre chega em casa e vê o filho dele brincando de boneca, pronto: morreu o patrimônio do pobre. E ele encarna isso em mim. Eles enxergam em mim a pessoa que está defendendo o filho deles.
 
Esse seu enfrentamento com o público gay é um dos mais frequentes do seu discurso. Você gosta de provocar, não?

Eu não tenho nada contra os gays, contra o público LGBT. A minha briga é contra o material escolar. Em uma comissão, ouvimos o secretário de alfabetização do Ministério da Educação falar "passamos três meses discutindo até onde a língua de uma menina pode entrar na língua de outra menina pra fazer um filme sobre homossexualidade." Pô, não dá para ter estômago para esse tipo de coisa. E olha essa matéria aqui [nesse momento, o deputado exibe uma edição do jornal O Globo] falando que não se pode mais comemorar o Dia das Mães — e isso foi dito em uma escola do ensino fundamental — porque a família de hoje pode não ter uma mãe, mas dois pais. Pô, falar para uma criança de seis anos que dois caras se beijando é normal…
 
Poderia explicar melhor?

Já falei isso uma vez, e repito — e se quiserem me processar, tudo bem: eu não deixaria meu filho frequentar a casa de uma criança criada por um casal gay. Ele pode ir lá, ver dois homens se beijando e daqui a pouco começar a beijar o amiguinho, achando que aquilo é certo. Uma criança de seis anos não sabe o que é certo ou errado. Quando a criança chega aos 13, 14, 15 anos, já tem mais noção e pode fazer suas escolhas. Quer ser gay? Tudo bem. Não conte com o meu apoio. O homossexualismo é muito mais comportamento do que acidente genético.
 
Tem gente que diz que tanta ênfase nesse discurso ocorre porque você é, na verdade, um gay enrustido. Qual sua resposta?

Eu nunca tive problema com gay. Eu tenho alguns processos por homofobia, mas a coisa está mais calma porque a população cansou.
 
Está mais calma, deputado?

Sim, e pelo seguinte: se morrer um gay aqui na curva, o Luiz Mott [fundador do Grupo Gay da Bahia e um dos mais conhecidos defensores dos direitos LGBT] já coloca na estatística dele que foi violência contra homossexual. Não interessa se o cara estava assaltando um banco. E tem mais: qual pai tem orgulho de ter um filho gay, cara? Você já viu uma festa de debutantes de meninos gays de 15 anos de idade? E convite de casamento? Falam de sectarismo, mas eles só convidam o pessoal do círculo de amizade gay deles. Esse pessoal da imprensa.
 
Você já viu detalhamento das estatísticas de crimes contra homossexuais para falar, como falou, que elas não são corretas?

Meu filho [Flávio Bolsonaro] é deputado estadual no Rio de Janeiro e já pediu informações à Secretaria de Segurança Pública sobre crimes contra homossexuais. O secretário [José Mariano] Beltrame disse que esse dado simplesmente não existe. E pelo seguinte: quando registra uma ocorrência, a polícia não quer saber se você é gay, heterossexual, o que for. Crime é crime.
 
Você tem amigos gays?

Duas pessoas trabalharam comigo. Uma eu mandei embora porque cantou uma pessoa que veio ser atendida no meu gabinete. Eu disse: "eu não admito que se cante ninguém, nem homem nem mulher. Afinal, este aqui é um ambiente de trabalho". Não se podia deixar a impressão de que ser atendido no gabinete passava pela troca de favor sexual.
 
E o outro funcionário?

Continuou trabalhando comigo normalmente. Depois pediu demissão, mas sem problema algum.
Há pouco você citou a imprensa. Você se dá bem com os jornalistas?

Eu converso com todo mundo. Alguns me detestam. Tem uma loura aí, a Gabi [Marília Gabriela], que me detesta. Entrevistou o Jean Wyllys [deputado defensor das causas LGBT] e ficou me esculachando.
 
Já foi convidado para ir ao programa da Gabi?

Jamais. Eu já mandei mensagem perguntando "e aí, vai me convidar quando?" Você não vai botar o dedo na minha cara sem eu deixar de perguntar as coisas também. Mas tem gente que não gosta de mim. Quando estava se falando dos 30 anos do regime militar, eu estava dando uma entrevista e uma repórter me perguntou algo usando a expressão "golpe militar". Eu disse: "não foi golpe porque o presidente João Goulart não foi deposto pelo Exército, e sim pelo Congresso, no dia 2 de abril. É só você ler". Ela ficou nessa discussão e eu falei "tá censurada". Não tomei o microfone da mão dela, não quebrei a caneta dela, nada disso. Mas bastou: eu estou respondendo processo por ter falado, nada mais.
 
Mas você parece que gosta de provocar. Estou vendo aqui no seu gabinete essas garrafas [os rótulos das aguardentes diziam 'Pinga Gay' e 'Cura Bicha'].

Eu sacaneio a gauchada aqui. É brincadeira, pô.
 
Você é muito crítico ao governo do PT, mas seu partido compõe a base aliada do governo. Não é uma contradição?

Falta oposição. O governo divide para governar. Acabaram de sancionar o hino à negritude. Se fosse o hino aos caucasianos, será que os negros cantariam na escola?
 
Por falar nisso, você uma acusação recente de racismo movida pela cantora Preta Gil. O que aconteceu nesse caso?

Eu participei de um programa e me fizeram um monte de perguntas, umas vinte. Toda a pauta era gay. Apareceu a Preta Gil e a pergunta que recebi foi: "o que o senhor faria se o seu filho tivesse um relacionamento com gay?" Respondi "olha, Preta, eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem criados. Não vou discutir porque meus filhos não viveram em um ambiente de promiscuidade, como lamentavelmente é o teu." No programa em que isso foi ao ar, apareceu a Preta Gil fazendo a pergunta sobre se meu filho se apaixonasse por uma negra. Mas a pergunta que me fizeram, e que eu respondi, foi sobre gay. Solicitamos o material bruto do programa, mas eles disseram que esse material já tinha sido apagado. O caso agora está no Supremo.
 
Foi o momento mais crítico dos seus seis mandatos?

Não. Já respondi a mais de trinta processos, a maioria por coisas que eu disse no plenário da Câmara. A maioria movida pelas mesmas pessoas que dizem que lutaram pela democracia e a liberdade de expressão. Isso sem contar o povo que entra com pedidos pela ouvidoria da Câmara. Já entraram uns dois mil pedidos de cassação. Como o assunto era o mesmo, sou notificado uma vez só.
 
O senhor gosta de ser deputado?

Gosto pra caramba — para não falar c****lho. Muita gente vem falar comigo com admiração, me chamam "ô deputado" para cumprimentar, e não com o tom de que, em vez de deputado, quer é me chamar de filho de uma égua. É a nossa fama, infelizmente. Dia desses, no Fantástico, um cara contou como se armam emendas parlamentares, generalizando. Um ex-assessor de alguém colocou todo mundo no mesmo saco.
 
Com trinta processos, como pode gostar?

Porque eu posso participar. Eu posso, por exemplo, discursar e denunciar coisas como esse cartaz [campanha pela diversidade de gênero voltada a escolas do ensino fundamental]. Vou contar um episódio: o [ministro do STF] Joaquim Barbosa me citou no relatório do mensalão. O pessoal do gabinete me deu uma canseira de duas horas sem me contar por que fui citado. E eu pensando: ‘O que é que fizeram usando meu nome para eu ter sido citado?’ E a citação foi porque fui o único deputado da base do governo que votou contra a PEC tributária e previdenciária, incluída no rolo do mensalão.
 
Por que votou contra?

Para não haver dúvida de que não rece
bi nenhum benefício. Também houve a compra de voto na PEC da reeleição, e também votei contra. Você vai na padaria pra comprar o quê? Pão. No açougue? Carne. No Congresso? Voto. Aqui, para quem quiser negociar, o produto à venda é o voto. Já teve vezes em que saí do plenário em votação para não me comprometer. É uma pressão desgraçada, lobby dos dois lados. Como eu vou falar do coração que votei a favor e não recebi nada? Você vai acreditar em mim? Não vai.
 
Mas não é possível votar sem se comprometer, deputado? Não pode denunciar?

Você não tem como denunciar. Como eu vou denunciar tendo dezenas de processos de cassação? Dependendo do processo, me dão uma suspensão de 30 dias: se te chamo de gordo, vem o pessoal da gordofobia te defender, se te chamo de flamenguista, vem o pessoal da flamengofobia… Mas, sobre a compra-não compra de votos, é por causa dessa desconfiança que não faço emenda para prefeito. Só para as Forças Armadas. Este ano foi um pouco diferente porque metade das verbas de emendas tinha necessariamente que estar vinculada ao SUS (isso deu 7,5 milhões de reais) e metade era de livre escolha. Disso, mandei 3,5 milhões para a Amazônia. E por que um deputado eleito pelo Rio de Janeiro destina recursos para a Amazônia? No Rio de Janeiro, geralmente dá problema. Ou sou mentiroso ou sou otário: mentiroso porque disse que não levei [propina] e otário porque não levei também.
 
Você segue favorável à tortura e à pena de morte, como já disse ser?

Eu estava aqui em 1992 quando o Abdiel Pinto Rabelo, irmão do deputado Jabes Rabelo, foi preso com 500 quilos de cocaína. Bastaria a ele responder de onde veio a droga e para quem ele entregaria, mas nem isso se permite. Não se pode dar tratamento VIP para esses caras. Quantas famílias esse cara destrói? E ainda tem quem fique com pena de um canalha desse? Não dá.
 
Mas como fica um caso em que a inocência do acusado é provada apenas depois da condenação?

É preciso ter provas concretas. Você tem teste de DNA em casos de estupro seguido de morte. Não é para todo caso que se aplica pena mais pesada. Tortura? Não precisa arrancar a unha do cara. Deixa ele passar fome. Dá um banho frio nele. É pedir muito? Minha discussão com a Maria do Rosário [deputada federal e ex-ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos]: falei do Champinha, daquele caso horroroso em São Paulo em que ele estuprou a menina por três dias e depois a matou com uma faca cega. Em uma entrevista, falei que isso mostra como deveríamos reduzir a maioridade penal, mas ela veio dizer que sou um torturador, um ditador. Na terceira vez que ela me chamou de estuprador, falei: "você não merece [ser estuprada]. Você é muito ruim".
 
Aumentar as punições resolve?

Olha, alguns estados dos Estados Unidos têm uma lei que proíbe dar tiro de advertência em motim de cadeia. Pergunta se tem algum motim nesses lugares. Não tem. Outra que eu gostaria de ver aprovada aqui: a lei dos três crimes. Ao chegar a três delitos, o sujeito é condenado a 25 anos de cadeia, sem progressão de pena. É muito fácil para um jurista, de sua sala carpetada, com ar-condicionado, falar que um crime é de menor potencial. Agora fala para um assalariado o que significa ter sua bicicreta — assim mesmo — roubada. É como se fosse roubar minha Ferrari. OK, eu não tenho Ferrari, mas vá lá. É a hipocrisia do bom-mocismo, de achar que a gente vai resolver tudo na conversa. Não resolve. O ser humano só respeita o que ele teme.
 
Mas isso não agravaria um problema de falta de vagas nas cadeias brasileiras, que já é gigante?
Que nada. Eu acho que o sistema prisional brasileiro é o melhor do mundo.

É?

Sim, é o melhor, porque cadeia é lugar para bandido se f**er. Bandido tem mais é que se f*der. Outro dia falei que o melhor presídio do país é o de Pedrinhas [no Maranhão, onde presos foram decapitados em uma rebelião ocorrida em janeiro]. A imprensa veio para cima de mim, mas respondi: "pergunta pra viúva ou pra filha do executado se elas acham que a vida do assassino que está preso lá tem que melhorar. Se elas disserem que sim, eu me rendo a vocês".
 
Você é muito criticado por essas opiniões, mas há pouco disse que sempre ouve manifestações de apoio por onde passa. Isso é verdade?

É geral, cara. Se você quiser testar, a gente dá uma volta por aí.
 
 

Nenhum comentário:

Marcador Em Destaques