Entrevista: Põe na Roda - "Fazemos ativismo ao contrário: pelo humor, não pela guerra"

 
Por SOFIA PATSCH para o Estadão
 
Sucesso-relâmpago leva canal gay brasileiro no YouTube a estrelar campanha da ONU: “Não queremos entrar de noiva na igreja, apenas direitos iguais”.
 
Nelson Sheep, Pedro HMC e Felipe Abe  são o trio por trás do Põe na Roda – canal de humor no YouTube que aborda o universo LGBT. “Como gay, me sentia pouco representado nesse segmento, e pensei em um canal light, para ser visto em família, sem tanta militância e ativismo”, conta Pedro, roteirista do quadro de Dani Calabresa no CQC, espécie de porta-voz do grupo e criador do programa. “Até nos comparam com o Porta dos Fundos”, emenda Nelson, dono do site Superpride, de conteúdo cultural gay. Já Felipe é fotógrafo de moda, e em seu estúdio são editados os vídeos do canal. O formato do programa chamou a atenção da ONU, que convidou os rapazes para colaborarem com a campanha Livres e Iguais– dedicada à defesa do público LGBT.
 
O sucesso repentino (são cinco meses de vida e mais de 7 milhões de views) levou os três à poltrona do Programa do Jô. “Foi o maior susto”, confessa Felipe. “Quando atendi o telefone, achei que fosse trote.” E Pedro Bial, em seu Na Moral, satirizou o vídeo Não é Porque Sou Gay (um dos hits do Põe na Roda) com Não é Porque Sou Brasileira, sobre a visão que os gringos têm de nossas mulheres.
“A produção da Fernanda Lima também entrou em contato, para participarmos do Amor e Sexo”, diz Pedro. A fase é mesmo boa. A seguir, os melhores momentos da conversa.
 
Como será a participação de vocês nessa campanha da ONU?

Pedro: Ela foi criada em 2011 e tem como embaixadores o Rick Martin e a Daniela Mercury. Antes disso, o assunto LGBT não era debatido pela entidade. Dentro dessa campanha existe um programa de inclusão social de travestis, transexuais, gays e lésbicas no mercado. Vamos produzir vídeos humorísticos para ajudar empresas, como Google, Itaú e Carrefour, entre outras, a ajudar seus funcionários a aceitar LGBTs como companheiros de trabalho.

Nelson: Gostaram do jeito descomplicado com que tratamos o assunto.
 
A ONU pediu para que vocês abordassem a questão dos transexuais também?

Pedro: Na própria ONU há uma transexual. Esse assunto, inclusive, foi o primeiro que tratamos com a entidade.

Nelson: Os transexuais não conseguem viver o dia a dia, só a noite, na prostituição. A expectativa de vida deles é de 36 anos, contra 75 do restante da população.

Felipe: Morrem assassinados.

Pedro: Sofrem preconceito até nos hospitais, os médicos não querem atender.

Felipe: A maioria acaba indo fazer programa, porque não tem lugar no mercado de trabalho. Já nós, gays, temos lugar, apesar do preconceito.
 
Estão apoiando algum candidato nesta eleição para presidente?

Pedro: A gente tenta não se aliar a nenhum nome. Mesmo porque nós três temos opiniões políticas distintas.

E sobre os direitos dos gays, casamento, adoção?

Pedro: Ninguém quer entrar de noiva na igreja. Só queremos os mesmos direitos dos outros cidadãos que pagam impostos, como nós.

E quanto à lei que criminaliza a homofobia?

Pedro: As pessoas acham que queremos vantagem, mas não é isso. A lei da criminalização da homofobia é apenas para equiparar o crime de homofobia ao de racismo.

Felipe: Você vai preso se ofender um negro, um japonês ou um idoso na rua, mas, se falar gay, é liberdade de expressão.

Nelson: Acho que as pessoas têm o direito de não gostar. O problema é quando alguém expõe e incentiva a agressão.

Felipe: A cada 28 horas, um LGBT é morto no Brasil. Isso não é dado oficial, é dado estimado, porque, como homofobia não é crime, a agressão, muitas vezes, é tachada como agressão comum.

Pedro: Dados do Grupo Gay da Bahia informam que o Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo. Qualquer que seja o presidente eleito, Dilma ou Aécio, a gente cansou de ficar pedindo, não queremos mais saber dos nossos direitos. É o seguinte: a gente não vai mais pagar imposto (risos). Estão negando o direito dos gays? Ok, a gente não vai mais existir como cidadãos, não vai ajudar a produzir, não vai ajudar vocês a ganharem dinheiro, a se maquiarem (risos).
 
O que acharam do filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho estar na lista de possíveis representantes do Brasil no Oscar?

Pedro: Achei legal, porque é uma história de amor, não de gays. É um filme incrível.

Felipe: É um filme limpo.

Nelson: É um puta filme, sobre um assunto universal. Qualquer pessoa pode ver. Acho que é o mesmo que fazemos: não falamos só sobre gays, a gente fala sobre diversidade.
 
Como vocês definem o canal Põe na Roda?

Pedro: Um canal light, para ser visto em família, sem tanta militância e ativismo. Na verdade, é um ativismo ao contrário, porque vai pelo humor, não pela guerra.

Nelson: Acho que o Põe na Roda tem potencial pra dar uma educada no mercado. Mostrar que os gays podem ser anunciados em qualquer produto.

Felipe: Esse é um desafio, porque o mercado ainda não está acostumado a anunciar para gays. E os gays são um imenso público consumidor.

Pedro: Acho que um grande diferencial do canal é o formato dos vídeos. Um é completamente diferente do outro. Tem vídeo de esquete, de depoimento, de entrevista.

Nelson: E queremos lançar outras coisas, como game show e programa de bate-papo.

Felipe: Nossa intenção é se aproximar cada vez mais de um formato de emissora de TV.
 
Já estão ganhando dinheiro? Está dando retorno?

Pedro: Existe um pequeno retorno do YouTube, pela publicidade antes dos vídeos.

Nelson: Mas a gente já fechou alguns contratos, um deles com a Hypermarcas.

Felipe: E fizemos o merchandising da camisinha Olla no Dia do Sexo, no nosso Instagram.

Pedro: Teve um outro para o KY. Criamos a personagem Glorinha K.Y., uma sátira da Glorinha Kalil. Ela ensina como os gays têm de se comportar. E a Glorinha amou.
 
Como vocês formam o elenco dos vídeos?

Felipe: Somos o elenco fixo e chamamos centenas de convidados. A gente acaba mostrando milhões de estereótipos, e as pessoas se identificam.

Foi difícil achar pessoas que topassem participar?

Pedro: Muita gente não topou, a princípio, por ser gay.

Nelson: Dá um medo, né?

Pedro: Acho que, por não existir um produto que seja gay e legal para a família assistir, muita gente achou que ia ser putaria, pornografia ou algo que desse vergonha alheia. Nós fazemos tudo, do roteiro à produção.
 
Qual o vídeo mais marcante nestes cinco meses?

Nelson: O dos enrustidos, que mostra por que os gays continuam dentro do armário. Gerou um documentário de 18 minutos.

Felipe: Cada um tinha uma história – de família, de religião, de trabalho –, e eu achei que seria um vídeo de depoimento ok, mas virou algo muito triste, profundo.

Pedro: Eles falavam de questões de religião, de tentativas de suicídio. Um dos meninos que entrevistamos resolveu se assumir durante a gravação. Foi emocionante. Ele falou: ‘Vocês me deram coragem, tô cansado. Se quiserem acender a luz, eu me assumo no final do vídeo’.

Pedro: Outro bem marcante foi gravado no centro de São Paulo. Foi o melhor laboratório para entender que falta educação para combater o preconceito. As pessoas não sabem o significado da palavra ‘heterossexual’. Perguntávamos e elas não sabiam responder.
 
Recebem muitas mensagens de mães e pais de filhos gays. Como é essa relação?

Pedro: Aproximamos nosso discurso das famílias.

Felipe: O que percebemos foi que, antes, os pais de filhos gays não tinham um canal para entender o que realmente se passa na cabeça de seus filhos.

Nelson: Recebemos e-mail de uma mãe agradecendo nosso trabalho, dizendo que estava aprendendo a entender melhor seu filho, o universo dele. Demos material para que ela conversasse com o filho. 
 

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