"Uma lâmpada se acendeu no movimento gay e dos direitos humanos" POR VITOR ANGELO

 
 
POR VITOR ANGELO para o BLOGAY (Folha)
 
A lâmpada, no nosso imaginário, é um símbolo ligado à racionalidade, inteligência e civilização. Porém, no dia 14 de novembro de 2010, quatro adolescentes e o jovem Jonathan Lauton Domingues, na época com 19 anos, obscureceram este sentido, usando duas lâmpadas fluorescentes para atacar pessoas que eles consideravam homossexuais, em plena avenida Paulista, em São Paulo, considerada um local da diversidade e da tolerância no país. A barbárie explodiu em cacos de violência pela calçada. O segurança, que interviu em um dos ataques, escutou de um dos agressores: “Viado tem que morrer”. Passado quatro anos, assim como os gays americanos subverteram o conceito “queer” da conotação negativa para algo afirmativo, militantes LGBTs, feministas e o movimento negro mudaram o sentido agressivo que as palavras relacionadas com lâmpada estavam tendo (o que teve de homofóbico escrevendo aqui no blog que gay devia mesmo levar uma lampadada na cara…).
 
Com o nome  de “A Revolta da Lâmpada”, um grupo de 150 pessoas, segundo a Polícia Militar, 600 participantes, para os organizadores, tomou as ruas de São Paulo, no final de tarde ensolarado de domingo,16. Logo, no início do ato, chegou a notícia que mais um homossexual tinha sido assassinado por suposto crime de homofobia (as causas ainda estão sendo investigadas), naquela madrugada, no Parque do Ibirapuera. Marcos Vinicius Macedo Souza, de 19 anos, foi morto a facadas.
 
Apesar da notícia “faca na bota”, o núcleo duro da manifestação pretendia  mesclar afirmatividades e novidades. A primeira estava no lema: “Fervo também é luta”. Nele, iria ocorrer uma resposta àqueles que condenam o hedonismo ou a carnavalização como forma política, ou a enxergam como algo menor. Entender a festa como ato político é fundamental para os rebeldes da lâmpada, mas mais que isso, fazer política com fervo e vice-versa. Entre os discursos (um deles, emocionante e emocionado de Raphael Martins, 20, que foi agredido junto com o namorado Danilo Putinato, 21, por um grupo de 15 homens no metrô de São Paulo no último dia 9 de novembro) e os gritos de guerra tinha muita música (e música boa, que fazia tempo que não se escutava em manifestações gays). E mais que isso, aconteceu um “catwalk protesto” pra lá de babadeiro, em frente ao restaurante Sukiya, que teve um recente caso de homofobia dentro de seu estabelecimento na rua Augusta. Todo mundo dando pinta contra a homofobia com direito a beijaços também.

Outra novidade foi a ampliação e a união dos movimentos sociais. A entrada como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, em 2013, do pastor Marco Feliciano, considerado homofóbico e racista pelos movimentos LGBT e negro, fez que estas duas importantes militâncias unissem forças, mas faltava as feministas. Na “Revolta da Lâmpada”, elas participaram com maior afinco e voz, inclusive nas pautas de reivindicações.
 
A manifestação também surgiu, além de lembrar das agressões do fatídico dia 14 de novembro de 2010, para pressionar o governo hoje com pautas progressistas. Elas são reivindicações das minorias faz muito tempo como, entre elas, a criação de uma campanha nacional contra o assédio sexual e intimidação da mulher, a legalização do aborto (até porque as verdadeiramente afetadas são as mulheres pobres e uma fração das negras que não têm condições econômicas para pagar uma clínica particular de aborto), a legalização do consumo recreativo e medicinal da maconha (já que, na guerra das drogas, os que acabam presos, em sua maioria, são os jovens pobres e negros da periferia) e se posicionar contra ações políticas que criminalizem os movimentos sociais.
 
Claro que, o casamento igualitário, a criminalização da homofobia e o pedido de aprovação da Lei Nacional de Identidade de Gênero, também estão ali, mas agora de forma mais amplificadas, como que irmanadas a outras questões de outros movimentos. “A Revolta da Lâmpada” é o momento que o autocentrismo dos movimentos sociais começa a perder voz, deixa-se de olhar ou priorizar seu próprio umbigo para abrir-se à generosidade, ao outro, neste momento não como inimigo (como assistimos nas dramáticas polarizações imbecilizantes de ambos os lados no segundo turno destas eleições presidenciais em todo o Brasil). Agora o outro é companheiro, amigo, irmão, mesmo que diferente.
 
Sim, polarizações ainda existem, estamos no lado oposto do homofóbico, do racista, do machista, mas com muito cuidado porque também podemos escorregar, sem querer, em discursos da cultura homofóbica, racista ou machista. Não estamos impunes, nem ilesos. A velha presunção militante de pairar com um ar de certa superioridade sobre estes valores é engodo e atraso (resultado de toda e qualquer polarização que não deixa espaço para dúvidas ou áreas cinzas). Existe um paradoxo dentro de uma parte da militância das minorias, como pedir tolerância sendo intolerante contra os intolerantes? Uma possível resposta foi dada pelos rebeldes: não colocando os intolerantes como foco principal ou importante da luta, diminuindo a questão “nós contra eles”. Enfim, a polarização se coloca, mas, neste caso, quando o outro não é inimigo, não se impõe nem tem importância significativa.
 
Ao chegar na questão do outro desta forma, não como repulsa ou o diferente inconciliável exatamente por ser diferente, também passamos a nos enxergar melhor com todas as nossas imperfeições, pois não estamos mais no campo das polarizações e sim no da compreensão. Ao nos enxergarmos, o corpo se impõe como “primeiro eu”, o primeiro sinal e signo do eu. E é nele que está a matriz da liberdade individual. Se compreendemos o corpo do outro, podemos nos compreender. Não à toa, o subtítulo da manifestação diz: “ato pela liberação de todos os corpos”.
 
O corpo livre reflete a liberdade individual. Quando os manifestantes se deitaram no asfalto por Letícia Sabatella, acusada, recentemente, por “haters” de “dar vexame”, ao beber um pouco a mais e deitar na calçada em frente a um bar, os rebeldes estavam dando um recado que não queriam vigilância, aquela que condena o outro (por beber demais, por não seguir as regras, por não ter o corpo adequado, etc). Eles deitavam e estavam firmes na ideia que o corpo deve ser livre e respeitado seja pelo outro, seja por eles mesmos, sem vigilâncias ou polarizações. Uma nova luz se acendeu naquele dia 16 de novembro.
 

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