No Rio, transexual comanda oficina de carros e se queixa de preconceito

 
Por Diana Brito
Visto na FOLHA
 
Ao montar, há sete anos, sua oficina Ajuste Fino, no Encantado, zona norte do Rio, o mecânico Antônio Santana de Souza, 44, não quis mudar nada em relação às oficinas onde havia trabalhado nos 13 anos anteriores.
 
Manteve o ambiente sujo, barulhento e até com foto de mulher nua na parede. Também continuou a deixar, por vezes, a alça do sutiã à mostra, o cabelo longo amarrado.
 
Os sapatos de salto alto teve de abandonar pelas botas grossas de borracha, para evitar machucados.
 
Souza, transexual, é Brun@ Santana, cuja grafia, que está nos cartões de visita, foi feita para evitar "mal entendidos" —o cliente decide se a chama de Bruno ou Bruna, embora prefira o último nome.
 
"No começo eu até usava saltinho direto. Foi um frenesi danado. A oficina ficava lotada, porque era novidade. Também andava mais arrumada porque tinha três, quatro funcionários. Hoje em dia tenho só um ajudante", explica.
 
"Muitas vezes a meia-calça rasgava só de entrar no carro. Eu estou com um furo aqui, na altura do meu joelho, que se não estivesse com calça jeans teria me machucado com solda. Também não fico toda semana de unha pintada, porque estraga", conta.
 
DESDE CRIANÇA
 
Bruna se identifica assim desde os três anos de idade. "Desde essa época percebi que eu queria ser mulher. Gostava das roupas de menina".
 
A família, de origem portuguesa e tradicional, tentou reprimi-la. A oposição mais forte vinha das tias, que a colocavam de castigo quando a viam brincando de bonecas com vizinhas.
 
Na adolescência, contudo, recebeu apoio dos pais. E, curiosamente, optou por uma carreira usualmente considerada "masculina".
 
"Não vejo um automóvel com genitália. Botam sexo, preconceito em tudo! É carro de mulher, carro de homem... Isso não existe! Está tudo errado", diz ela, que começou a trabalhar com circuitos eletrônicos na década de 1980, consertando rádios e televisões.
 
Os clientes elogiam as habilidades de Bruna. O representante comercial Ariosvaldo Freitas, 60, frequentador da oficina há seis meses, diz que ela foi a única a resolver o defeito de seu carro.
 
"Tem muito mecânico machão por aí que age de má fé. Aqui, tenho confiança em deixar meu carro. Não sei como ainda existe esse tipo de preconceito", afirmou Freitas.
 
Contudo, quatro registros policiais feitos por Bruna mostram que o preconceito ainda existe. Ela prestou queixa contra um conhecido, que ela pede para não ter o nome divulgado -com medo de retaliação- acusando-o de injúria.
 
Ela diz sofrer insultos do algoz constantemente. "Por várias vezes esta pessoa gritou que todo 'veado' tinha que morrer", relatou Bruna em um dos boletins de ocorrência.
 
Bruna vive há dez anos com a companheira E.C., 43 -que pediu para não ter o nome divulgado-, com quem trabalha na oficina.
 
"Meu dia a dia é tranquilo, apesar de às vezes ter um ou outro que cisma. Eu penso que o ser humano está muito evoluído tecnologicamente, já chegou na Lua, mas o relacionamento entre as pessoas precisa acompanhar esse crescimento", afirma.
 

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