10/12/2014

"Puritanismo" por Michael Kepp

 
Por Michael Kepp para a FOLHA
(texto escrito em junho de 2006)

[...] Apesar de todo país ter suas contradições culturais , elas parecem mais evidentes nos EUA do que no Brasil
 
A maioria dos brasileiros se considera a anos-luz dos americanos (chamados de puritanos) em termos de liberdade sexual. As brasileiras se recusam a copiar a moda americana, que esconde o corpo. Nas praças brasileiras, paqueram e beijam apaixonadamente, comportamento raramente visto em ruas americanas. Mas a TV brasileira, que molda e reflete atitudes culturais, não é explícita sexualmente, revelando um país em que o puritanismo tem só outro nome: pudor.

Há muitas moças de minissaia e blusa decotada rebolando nos programas do Faustão e do Huck. Mas a TV paga americana (assistida por 76% do público) tem séries como "Sex and the City", cheias de cenas que lidam abertamente com o sexo, ao dispor de apenas 8% dos brasileiros com TV por assinatura. Os outros 92% têm de se contentar com a sexualidade sugerida e a linguagem cripto-erótica das novelas. Só em "Sex and the City" podemos ouvir palavras como orgasmo e clitóris e ver Sônia Braga, no papel de lésbica, com um "dildo" (consolo).

Nas novelas brasileiras, personagens gays nem podem se beijar. No último episódio de "América", o país parou porque foi anunciado o primeiro beijo gay em uma novela, gravado mas não mostrado. O primeiro beijo gay da TV americana foi na série "L.A. Law", em 1991.

Em "A Sete Palmos" (2000-2005), as cenas de sexo entre um policial negro e um diretor de funerária branco eram tão quentes e explícitas que a sexualidade em "O Segredo de Brokeback Mountain" parecia vitoriana em comparação.

Apesar de todo país ter suas contradições culturais, elas parecem mais evidentes nos EUA do que no Brasil. Numa era em que o beijo de cinema americano só podia ser de boca fechada, foi publicado o "Relatório Kinsey" (1948), o primeiro e maior estudo sobre comportamento sexual humano. O estudo impulsionou a revolução sexual nos anos 60 e 70. Ainda assim, apesar dos avanços, um caso com uma estagiária da Casa Branca, em 1998, ameaçou o mandato de um presidente.

É verdade, um escândalo assim não aconteceria aqui. Mas, nos dois países, há uma mistura de permissividade sexual e pudor, deixando claro que nenhum dos dois é para principiantes. Uma nação em que a roupa de banho nada revela, mas que é repleta de praias e colônias de nudismo, é tão difícil de decifrar quanto uma em que os biquínis insinuam uma desinibição sexual que, na TV, não fica mais explícita do que a dança da boquinha da garrafa.

MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 24 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)
www.michaelkepp.com.br

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