Sexo com gordos: o último tabu gay?

 
Por Marcio Caparica para o Lado Bi
Traduzido do artigo de Leon Acord para o site Huffington Post

Dan Oliverio é um escritor e palestrante sarado que morre de tesão por gordos. Ele conta como, no mundo gay, admitir isso é como sair do armário pela segunda vez, e relata as particularidades desse tipo de atração.
 

Dan Oliverio é uma figura imponente. Com 1,82 m de altura e 100 kg de músculo, capaz de levantar 160 kg no supino, esse homem parece o irmão mais novo e mais atraente (e muito musculoso) de Jason Alexander.
 
Eu conheci Dan em 1999, quando ele me selecionou para o elenco de uma peça que ele estava dirigindo no teatro New Conservatory em San Francisco.
 
Uma noite, Dan comentou que gostava do novo Fusca da Volskwagen. Um outro membro do elenco brincou: “Só porque ele tem a forma do seu namorado!”. Dan riu, e o ensaio começou.
 
Como assim? Se isso não era um xingamento, então quer dizer que o Dan era um “pegador de rechonchudos”? Eu estava cheio de questões, principalmente “Como pode alguém que tem um corpo como o seu sentir atração por caras que têm um corpo como aquele?”. Mas eu era educado e profissional demais para perguntar!
 
Avancemos para 2013. Dan, que agora se descreve como um “pegador de rechonchudos declarado vivendo em Los Angeles, uma cidade de beleza hiperreal de capa de revista”, dá palestras, oferece aconselhamento particular e escreve muito sobre o assunto. Seu livro Round World: Men Who Chase Obesity, and What Drives Us (“Mundo redondo: homens que perseguem a obesidade, e o que nos move”) vai ser lançado em alguns meses. Ele também já fez aparições nos programas True Life da MTV e no Tyra Banks Show, entre outros. Dan me guiou por um mundo que eu nunca havia realmente compreendido. Ele foi um guia turístico muito paciente. Agora eu sei qual é a diferença entre “pegadores” e “alimentadores”, o que “fio dental de pelanca” quer dizer e que, como Dan aponta, a “objetificação é uma via de mão dupla”! Mas ele fala tão bem, vamos deixar ele mesmo explicar isso tudo.
 
“Pegador de rechonchudos” é o termo que se deve usar? Há algum termo mais novo e mais politicamente correto?
 
“Pegador de rechonchudos” é o melhor que dá pra fazer. Não há um termo melhor que agrade todo mundo. “Gordo” é um tabu em nossa cultura. E não apenas a palavra. Quanto mais uma palavra aponta diretamente para a imagem de gordura, menos aceitável nós a consideramos. Imagine que você está numa festa chique nos anos 1940. Não havia uma maneira educada de se dizer “homossexual”, e menos razão ainda para se tocar no assunto. Essa é a razão por que há eufemismos. “Pegador de rechonchudos” é bastante neutro; faz referência à gordura mas também é bonitinho. Alguns caras se ofendem com “pegador”. Eles consideram que isso implica em uma caça alucinada por gordos. Entre os héteros eles utilizam “A.G.”, que quer dizer “Admirador de Gordos”. Às vezes dizem apenas “admirador”. De jeito nenhum usa-se “gordo” para se fazer esse tipo de referência. “Gordo” permanece indizível. Eu admito que “admirador” é mais preciso e soa melhor, mas também é meio frio para o meu gosto. Nós estamos falando de atração sexual, não apreciando mobília antiga.
 
Quando você percebeu pela primeira vez que se interessava por gordos?
 
Eu sabia que curtia gordura quando tinha 5 anos. Eu não compreendi que era gay até fazer 20 anos.
Isso foi algo que você demorou para compreender? E aceitar?
 
Sem dúvida foi algo que eu levei um tempo para compreender. Eu cresci tendo um casal de gays como vizinhos de porta, e morei numa moradia para artistas durante a faculdade; eu sempre estive cercado de gays. Mas você sabe como são as revistas gays, o tipo de caras que aparecem nelas. Eu achava que eles eram bonitos, e tinha vontade de olhar para eles, assim como fazem muitos héteros. Mas eu nunca quis cair na cama com um deles ou meter meu pau na bunda deles, então cheguei à conclusão que não era gay. Eu levei anos para perceber que a gordura fazia essa diferença toda na minha sexualidade.
 
Como você fez para aceitar isso? Para gostar disso?
 
Não foi bem que eu lutei contra; eu me mantive ignorante de como isso era essencial. Muitos outros caras lutam contra isso, ou consideram trepar com um gordo um tipo de prazer vergonhoso, ou, ainda pior, um segredinho sujo. Mais uma vez, o estigma da gordura. Lembre-se também que muitos caras que não conseguem lidar com sua atração por gordos também não conseguem lidar com serem gays. Eu ouço isso muito. Eu tive que passar por muitos relacionamentos sérios que não funcionaram para enxergar como esse aspecto físico era importante. Eu não dei um pé na bunda do meu ex porque ele não era gordo o suficiente. Na verdade, ele começou a me dar um pé na bunda porque ele não sentia que eu tinha atração por ele, não como um gay deveria estar. Ele me disse “Dan, nessa nossa vida de casado, eu me sinto como uma mulher casada com um gay.” Eu achava ele lindo, como os caras nas revistas, mas ele sabia que nunca teria o tipo de relacionamento sexual comigo que ele queria. Com o tempo eu também compreendi isso. Nós ainda somos muito amigos. Nós mantivemos o amor e deixamos de lado as trepadas ruins.
 
 
Como seu interesse se manifestou pela primeira vez?
 
Eu me lembro de conversar sobre gordura logo cedo na minha infância. As pessoas falavam sobre isso, se preocupavam com isso, desde quando eu tinha 5 anos. Alguns garotos sabem quando têm 5 ou 6 anos que gostam de homens. Comigo, foi gordos. Mais tarde eu fiquei fascinado com homens muito obesos, às vezes mulheres, mas na maioria garotos da minha idade. Eu era jovem demais para ter sensações sexuais. Mas, como gays, nós sabemos que fascínio na maioria das vezes se transforma em atração sexual.
 
Quanto tempo você levou para compreender esse interesse?
 
Quando eu cheguei nos 22 anos eu já sabia que gostava de gordos. Eu considerava que eu gostava tanto de gordos como de magros. Mais ou menos como quando os gayzinhos dizem que são bissexuais. Alguns são, mas a maioria deles está apenas a caminho de serem gays. Muitos pegadores de rechonchudos como eu pensam da mesma maneira quando estão na faixa dos 20. Sabe quando você é adolescente e vai assistir qualquer filme que está em cartaz? Daí, com 30 anos, você começa a assistir apenas os filmes que você gosta em alguns gêneros específicos. Quando você chega aos 40 ou 50 anos, um filme tem que despertar muito o seu interesse para que você o assista. Muitos dos pegadores de rechonchudos passam pela mesma coisa. Quando você está na faixa dos 20, você acha que gordos são apenas um tipo de homem que você gosta. Conforme amadurecemos, a maioria de nós descobre que gordos são aquilo que realmente nos dá tesão. Eu já ouvi alguns pegadores de rechonchudos me dizerem que, para eles, sexo com um cara que não é gordo não vale sequer o esforço de tirar a roupa, quanto menos sair junto. Para eles, é gordo ou nada.
 
Uma das ideias errôneas que eu tinha era que os pegadores tentavam “engordar” seus parceiros. Você já me disse que os “alimentadores” são um tipo completamente diferente de pessoas. Você pode explicar a diferença entre “pegadores” e “alimentadores”?
 
Pegadores são os caras que gostam de gordos. Tirando isso, eles são bem como o resto dos outros gays. Encorajadores (alimentadores, como são chamados entre os héteros) curtem o lado fetichista da gordura. É bom você saber que existem pessoas que são “engordadas” (“alimentadas”, no mundo dos héteros), que querem se tornar gordas, ou mais gordas, ou enormemente obesas. Os encorajadores são sua contrapartida.  É melhor pensar que a relação entre engordados e encorajadores é como a de parceiros de S&M. Se eu te disser que um cara dá surra de cinto em seu namorado, você pode ficar preocupado. Se eu te disser que o namorado curte, sempre curtiu, e que eles fazem isso desde que se conheceram, talvez você encare isso de maneira diferente. Encorajadores têm má reputação porque as pessoas não concebem que o parceiro gostaria de ficar gordo. Há encorajadores que engordam os parceiros sem que eles saibam para aumentar seu prazer sexual. Nós já temos uma palavra para sexo não-consensual: abuso. É como se um cara que curte S&M mas seu parceiro não curte batesse no parceiro enquanto ele dorme, e fingisse que não sabe de onde vêm os hematomas no dia seguinte.
 
Parece que se declarar um pegador de rechonchudos é como sair do armário pela segunda vez. Quando você se declarou? Como você juntou coragem? Qual foi a reação dos seus amigos e familiares?
 
Acho que eu nunca fiz um pronunciamento formal. As pessoas apenas observam as pessoas que eu namoro e sacam. As pessoas captam. Agora, eu sou bem “assumido” sobre gostar de gordos. Eu modero seminários por todo o país e vejo todos os tipos de reações. Basicamente, as pessoas têm comigo a mesma reação que eles têm com a gordura. Se eles acham que ser gordo é apenas outro tipo de corpo, eles pensam que eu tenho apenas um tipo diferente de atração. Se eles acham que ser gordo não é saudável, eles pensam que minha atração não é saudável. Se eles pensam que gordos são nojentos, eu tenho um fetiche nojento. Se eles pensam que gordos são uns coitados infelizes que não conseguem controlar o que comem, eu sou um predador de pessoas sem força de vontade.
 
Onde fica a linha entre desejo e fetiche?
 
Essa é fácil de responder. Fetiche é como as pessoas rotulam o desejo de outra pessoa se você acha que aquilo é burrice, doentio ou sujo. Se você não suporta homens burros, se você faz questão de que qualquer homem que vai sair com você seja inteligente e seja ótimo de conversa, ninguém te acusa de ter um “fetiche por inteligência”. Um fetiche sempre descreve algo negativo. “Fetiche” tem uma definição bem específica na sexologia, mas não é esse o significado que as pessoas estão aplicando quando usam o termo. Nos meus seminários eu falo muito sobre “desejo” versus “objetificação”. Eu digo que você está objetificando alguém quando o que você quer é mais importante que quem a outra pessoa é. Por exemplo, se você está confortável em ser um escritor, você provavelmente não vê problema nenhum quando um cara diz “eu adoro escritores. Eles são tão bons de cama!”. Por outro lado, se você é hispânico, mas isso não é uma parte muito grande de sua identidade, é bem possível que você não goste muito quando um cara diz “eu adoro latinos. Eles são tão bons de cama!”. É pra ver isso como um elogio ou como um insulto? E quando alguém te enquadra numa identidade que você rejeita ativamente, ou numa parte de você que você luta contra, é muito provável que você se sinta rebaixado, desvalorizado, e objetificado: “Eu adoro caras enormes de gordos. Eles são tão bons de cama!”. Se você não tem problema em ser gordo, você provavelmente não se incomoda com esse comentário. Se você odeia ser gordo, ou se você vive com medo de se tornar gordo, daí esse tipo de comentário vai soar insensível, ofensivo, e até hostil.
 
Em seu livro, você fala sobre os desafios particulares dos relacionamentos entre magros e gordos. Você pode falar sobre isso?
 
Bem, em relacionamentos entre magros e gordos, você não duplica seu guarda-roupas! Agora, falando sério, acho que a diferença mais saliente é que em muitos relacionamentos entre gordos e magros, uma pessoa é admirada por uma característica que ela gostaria de mudar ou é indiferente para ela. Claro, isso depende do gordo. Alguns caras estão super felizes de serem admirados por sua circunferência e por serem gordos. Talvez não seja uma característica que eles optariam por ter, mas eles têm toda a intenção de aproveitá-la ao máximo. Outro desafio é que há alguns pegadores de rechonchudos que não conseguem ser “aquele casal” no bar, nos clubes, na festa de fim de ano. Nos meus seminários e nos meus textos, eu trabalho para que os caras aceitem quem são – todas as suas características. Outro lado são as preocupações que os homens e as mulheres têm. Os gays em meus seminários pareciam, em sua maior parte, estarem preocupados com encontros, relacionamentos e fidelidade. Os héteros em meus seminários aparentemente já processaram tudo isso. Eles se preocupam com objetificação, identidade, e se declararem (no caso de héteros A.G.). Lembre-se, a maioria dos gays já passou pela experiência de sair do armário. Os héteros que gostam de mulheres gordas não passaram por isso. A maioria deles nunca teve que sair de qualquer tipo de armário em toda sua vida.
 
Quando você conhece alguém que desperta seu interesse, ele duvida que alguém que tem um corpo como o seu poderia estar interessado? Como você lida com isso?
 
Cara, você não faz ideia. Já tentou pegar um cara, e ele te ignora completamente e prefere olhar para a parede? Um monte de gordos gostosos sequer fazem contato visual comigo, o que torna muito difícil avaliar seu interesse. Eu lido com isso sendo muito direto e muito franco com os caras. A maioria dos pegadores de rechonchudos não são tão valentes quanto eu. Os gordos me perguntam o tempo todo, “Cadê esses pegadores que você fala tanto?”. E eu respondo, “Eles são os caras tentando chamar sua atenção! Mas quando você nem olha para eles, eles desistem. Aquele cara que fica olhando para você feito bobo, como se tivessem batido com uma panela na cabeça dele? Ele não está tirando sarro de você, ele está querendo te pegar. Talvez de uma maneira meio errada, mas isso só acontece porque ele está pensando que alguém tão gordo e lindo é areia demais pro caminhão dele.” (Esse discurso fica ainda melhor quando eu o digo durante um seminário e todos os pegadores presentes balançam a cabeça com força concordando.)
 
Você fala sobre esse assunto frequentemente e abertamente. Você já deve ter encontrado alguém que odeia o que você diz. Como você trata essas pessoas?
 
Mais uma vez, a gordura é tabu. As pessoas que têm problemas com gordura tendem a manter distância das pessoas que falam sobre isso o tempo todo. Quando eu encontro alguém assim, eu nunca levo o que dizem para o lado pessoal. Não sou eu quem os ofende. Quando eu saio com um cara grande e nós estamos de mãos dadas, as pessoas não se importam tanto. Na maioria das vezes eles até sorriem. Às vezes até dizem “vocês são um casal tão bonito!”. Acho que é porque, no fundo no fundo, as pessoas querem acreditar que realmente há alguém para todo mundo. Talvez ver um cara sarado com um gordo enorme dê esperança para as pessoas.
 
Por fim, cadê os “pegadores de magrelos”?
 
Eu conheço um monte de gordos que dizem, na maior sinceridade, “eu sei que eu deveria ficar todo impressionado pela sua musculatura, mas eu curto mesmo é caras novinhos e magrinhos”. Eu compreendo isso totalmente. Esse contraste entre os tipos de corpo na cama pode ser um tesão. Além do mais, um carinha magrinho e flexível pode fazer manobras com um gordo em geometrias que alguém com a minha massa muscular não consegue. Um dos meus amigos supergordos adora fazer sexo com lolitos e se refere a eles como “fio dental de pelanca”. Ele diz que adora como eles conseguem se contorcer para dentro e ao redor de todas suas dobras e peles.
 
 

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