"Transexualidade: genital não é gênero!" Por Fernando Vieira

 
Por Fernando Vieira - Trans não-binárie, androssexual, ativista LGBT, educador
Visto no Ecos do Porão
 
O que é efetivamente e sem dúvida alguma ser homem? O que é efetivamente e sem dúvida alguma ser mulher? Faço essa pergunta aos meus leitores, vocês conseguem olhar para si mesmos e dizer: Porque sou homem? Ou porque sou mulher? Certamente essa é uma daquelas perguntas que não sabemos como responder ao certo. Alguns dirão "eu nasci assim, uai", outros "eu tenho pênis, então sou homem", outros "meus cromossomos XY fazem de mim homem". Mas, eu insisto: você conhece seus cromossomos? Se perdesse seu pênis em uma guerra ou como vítima de uma doença? Deixaria de ser homem? A resposta é certamente não.
 
Aprendi, com a leitura de Foucault (El cuerpo utopico e las heterotopias) que tendemos a olhar para o mundo como um espaço organizado, delimitado, muito bem constituído, um espaço utópico, onde reina uma suposta ordem. Entretanto, como ele nos propõe, podemos olhar para este mundo, a partir das suas heterotopias, ou seja, aqueles lugares que não estão dentro nem fora, que não claros nem escuros. O nosso mundo não é assim tão preto e branco, e nossas identidades incluem-se nisso. As verdades, as vezes religiosas, as vezes científicas, que temos como certas, com uma certeza tão absoluta, que nos sentimos incapazes de pensar fora destes modelos. Nos sentimos incapazes de pensar: e se não for exatamente assim?". Quando pensamos a transexualidade, não para mim, ou para outros que lidam diariamente com os estudos de gênero, mas para as pessoas comuns, gente como minha avó, que não consegue, que acha absurdo pensar: "Como assim é possível ter pênis e não ser homem?", ou "Não, deixa isso pra lá".
 
E este é um dos motivos de existir um "Dia da Visibilidade Trans", porque, geralmente, a luz do dia, somos tão invisíveis que nos tornamos impensáveis. Só nos veem através de seus carros, a se prostituir em alguma esquina, ou nos veem do outro lado da mesa do psiquiatra. Não estão acostumados a pensar nas pessoas trans no dia-a-dia. Ocupando espaços das "pessoas de bem". A existência de um "Dia da Visibilidade" pressupõe que somos invisíveis em todos os outros momentos, até mesmo no momento da morte, este ano mesmo, quantas de nossas irmãs trans não foram enterradas como homens por suas famílias? Perderam até mesmo o direito de morrer sendo quem são. E esta é a característica da abjeção. O apagamento. A inexistência forçada. A morte.
Sei que o público leitor do Brasil Post não é de ativistas, ou de "entendedores" das questões de gênero, por isso, me dou a liberdade de esclarecer algumas coisas, fazendo uso das dúvidas mais comum que me são inquiridas por alguns leitores:
 
1. Toda pessoa transexual é gay?
 
Não. A transexualidade diz respeito a identidade de gênero, ou seja, se me reconheço, me sinto, como homem, como mulher, como nenhum deles, como os dois ao mesmo tempo. A identidade de gênero e o gênero são subjetivos, dependem da nossa vivência e relação com o mundo. Uma pessoa transgênero é uma pessoa que não se reconhece com o gênero que foi designada ao nascer, àquelas que se reconhecem com o gênero que lhes foi dado ao nascer são "cisgêneros". Ainda com relação a esta pergunta é importante saber que existem pessoas trans que são homossexuais, bissexuais, heterossexuais, ou seja, uma travesti, que se reconheça como mulher, e goste de mulher, é lésbica. Porque? Porque a orientação sexual diz respeito ao desejo e não a identidade. Então, aprendamos logo: identidade de gênero é uma coisa, orientação sexual é outra. Misturar tudo só demonstra ignorância.
 
2. Travesti é o mesmo que mulher trans?
 
Não. Há travestis que se reconhecem como pessoas não binárias, um terceiro gênero. Há algumas que se reconhecem mulheres, mas preferem manter a determinação " travesti" por razões políticas e de resistência. Gostaria de pedir aos senhores leitores que, por favor, retirassem de suas mentes a ideia de que a travesti é a mulher trans que não fez cirurgia de transgenitalização. Primeiro porque o gênero de ninguém se resume ao seu genital, segundo porque há mulheres trans que se sentem muito bem com o pênis que possuem, por isso, não confundam alhos e bugalhos e parem de perguntar: " É operada?".
 
3. Pessoas trans são "enganadoras de gênero"?
 
Não. Essa é uma ideia extremamente transfóbica. As pessoas trans, quando querem, fazem as modificações em seus corpos, para atender a suas necessidades, para que estejam felizes consigo mesmas, e não para enganar ninguém. Imagine como é viver olhando para o espelho e vendo um corpo que te traz sofrimento?
 
4. Muitas travestis se prostituem porque querem?
 
Não. Não é fácil estudar sendo uma travesti. A escola é um lugar cruel, a biologia ensinada na escola desconsidera outras possibilidades além da masculinidade e da feminilidade baseada na correspondência arbitrária gênero e genital. Logo, muitas travestis não têm boa escolaridade, e ainda que tivessem, não é fácil ser travesti ou trans e encontrar um emprego. Dizem sempre que "não combinamos com o local da empresa", ou nos entrevistam com olhares de riso, chacota e desprezo.
 
5. Se diz "O" travesti ou "A" travesti?
 
Se diz "A" travesti. Você até pode, como fez recentemente um professor de cursinho em certo site da internet esbravejar e dizer "mas e a gramática?" Bem, vamos a um pequeno estudo da gramática. O gênero das palavras, sobretudo, dos substantivos comuns, designam, ao se tratar de pessoas, o gênero daquilo que é nomeado, logo, "menino", designa alguém do gênero masculino, por isso a palavra carrega gênero masculino. Algumas palavras, não possuem uma desinência nominal de gênero, como é o caso de " meninO", essas palavras, dependem de um artigo que lhe definirá o gênero, como em estudante, por exemplo, podemos dizer " O estudante" ou " A estudante". Sabendo que o uso do artigo, será feito de acordo com o gênero quem é nomeado, se quem estuda é uma menina, é " A" estudante. No caso de travesti o caso é o mesmo, afinal, qual o gênero da travesti? Não da palavra, mas da pessoa? Feminino, é claro. Portanto, usamos antes do substantivo um artigo feminino.
A gramática não determina o gênero dos sujeitos que nomeia. Ela adequa-se ao gênero do sujeito nomeado. Chamar de " O" travesti é simplesmente considerar um homem. A gramática não tem nenhuma regra dizendo o que é ser homem e o que é ser mulher. Ao passo que os Estudos de Gênero e Sexualidade, iniciados há quase 100 anos, já demonstraram que o gênero não tem uma relação imediata com os genitais.
 
6. Todo mundo precisa ter gênero?
 
Não. Porque se socializar através de um gênero inteligível é a única forma de socialização possível? Precisamos pensar que, um mesmo sujeito, não se define apenas pelo gênero que tem ou deixa de ter, cada sujeito é um complexo de marcadores sociais, que não atuam sobrepostos, mas em conjunto. O modelo homem e mulher, como matriz da nossa socialização é reducionista, há diversas culturas, diversos gêneros que fogem a essa "regra" de socialização.
 
Como já disse em outra ocasião, não me sinto feliz ao escrever um texto sobre o dia da visibilidade trans, gostaria que não precisássemos disso. Mas, já que o temos, que seja um dia em que nossas vozes ecoem em cada lar. Em cada rua, em cada esquina virtual e real.

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