25/02/2015

Deputados evangélicos tentam barrar secretaria que tratará de políticas para o segmento LGBT em Pernambuco

 
 Pastor Cleiton Collins reprovou anúncio do governador
 
Deputados estaduais ligados ao segmento evangélico se articulam para barrar a criação de uma secretaria-executiva para tratar de questões relativas às minorias, entre elas o segmento LGBT. No último domingo (22), durante a posse do novo bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Antônio Tourinho, o governador Paulo Câmara (PSB) anunciou que pretende criar a nova pasta no âmbito da Secretaria de Desenvolvimento Social. Na última segunda-feira (23), no primeiro dia de atividades dos parlamentares após o Carnaval, o debate sobre a proposta do chefe do Executivo foi bastante caloroso.
 
Quem subiu à tribuna para tratar do assunto foi o Pastor Cleiton Collins (PP), representante da chamada "bancada evangélica" da Casa de Joaquim Nabuco, composta por sete parlamentares. Apesar de a nova pasta cuidar de demandas ligadas a vários outros segmentos, como negros e indígenas, o deputado se ateve apenas a tecer críticas à "proteção" que estaria sendo dada aos homossexuais. "Tentar levar para as escolas que é normal... Não é normal. Tentar combater as igrejas que pregam a bíblia sagrada como a sua constituição religiosa... Vamos discutir políticas públicas normais voltadas para todos e não para a classe LGBT", destacou.
 
Apartes de vários deputados ligados à causa evangélica se seguiram ao pronunciamento do Pastor Cleiton Collins. O primeiro deles foi o presbítero Adalto Santos (PSB). O socialista disse que o posicionamento da bancada é de proteger a "família tradicional" e que isso não irá mudar. Na sequência, o deputado André Ferreira (PMDB) afirmou que o estado tem muitos outros problemas para se preocupar e que a criação de uma secretaria para defender o tema dos homossexuais e de outras minorias fica pequeno frente a esses problemas. "A família tradicional é a base da sociedade sadia", arrematou Ferreira ao terminar o seu aparte.
 
A ofensiva continuou com apartes do deputado Professor Lupércio (SD), que foi ainda mais enfático no seu posicionamento. "Não tenho preconceito, não sou homofóbico. Não tenho nada contra os homossexuais, sou contrário à prática". O representante de Olinda chegou até a citar um trecho da bíblia para não deixar dúvidas quanto ao que defende. "Em Levíticos, há uma passagem que diz: O homem que se deitar com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e seu sangue cairá sobre eles", disse.
 
Outro a se posicionar contra a proposta foi o Soldado Joel da Harpa (Pros). "O negro nasce negro e continuará negro. O índio nasce índio e também continuará assim o resto da vida. Mas conheço vários homossexuais que deixaram de ser homossexuais e passaram a viver com outros pares, com mulheres. Estamos em um momento de grande crise existencial e moral. A grande maioria das pessoas se sente constrangida por minorias que querem atingir a moral. Daqui a pouco um camarada vai querer fazer sexo com animal e o estado vai criar políticas públicas para a pessoa que quer fazer sexo com animal", criticou.
 
A primeira a se levantar contra a ofensiva da bancada evangélica foi a deputada Priscila Krause (DEM). Para a democrata, debates como esse são prejudicados pela emoção e, apesar de fazer oposição ao governo, disse ser a favor da criação de instrumentos para fomentar políticas públicas para os segmentos mais vulneráveis da sociedade. "O ideal seria que não precisássemos de políticas específicas para nenhuma minoria, mas infelizmente não é assim. A agressão contra a população LGBT cresceu 460%. Temos que ter cuidado com esses extremismos. Esse questão precisa ser pautada pela tolerância e pelo respeito ao próximo, como tudo na nossa vida. Quando a gente fala em políticas públicas... E aí vocês (bancada evangélica) disseram que elas precisam ser para todos. Precisam, mas com foco nos mais vulneráveis. ", disparou a deputada.

A deputada Teresa Leitão também confrontou a ofensiva evangélica. "Se a população mais atingida pelo HIV é a dos homossexuais, não é necessário cuidar disso? O estado tem que se fazer presente sim. Nós temos que trabalhar para os diversos segmentos da sociedade. É importante que nós tenhamos um diálogo para que a casa não fique vista pela sociedade como quem é a favor ou como quem é contra os homossexuais. Pois é isso que vai parecer e isso é o pior dos mundos para o poder legislativo já tão afetado e desacreditado. Então, que esse debate seja em um nível que considere, sobretudo, o nosso papel parlamentar à luz da Constituição que nós juramos respeitar, sem prejuízo de qualquer crença, prática religiosa ou segmento", comentou a petista.
 
Deputada petista disse que o estado precisa trabalhar para todos os segmentos
 
O deputado Edilson Silva (PSol), recém-nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, deu um depoimento pessoal para ilustrar o que pensa sobre o assunto. "Sou um ativista da causa LGBT. Tenho uma filha de 23 anos que tem uma relação homoafetiva e ela vai adotar uma criança e me dará um neto. Nossa família quer que ter os direitos como qualquer outra família. O que nós estamos tratando aqui não é da vida sexual das pessoas e sim da vida civil, de igualdade de direitos.  Nós não vivemos apenas entre pessoas que aceitam o que está escrito nas sagradas escrituras. O que é para todo mundo é o artigo 5º da Constituição. O artigo serve para os islâmicos que vivem aqui, para os ateus, para os evangélicos, para todo mundo. É o guarda-chuva que serve para todos. O guarda-chuva aqui é outro, não é a Bíblia. Temos que ter um parâmetro e o parâmetro não pode ser escritos religiosos. O parâmetro é a lei", ponderou.
 
Ao fim da sessão, o líder da oposição, deputado Sílvio Costa Filho (PTB), pediu que os governistas e o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Edilson Silva, se articulassem para que o governo não enviasse um decreto com a criação da secretaria-executiva, e sim um projeto de lei que pudesse ser analisado pelos parlamentares. O líder do governo, Waldemar Borges (PSB), afirmou que o governo socialista sempre olhou pelas minorias. "Uma casa como essa tem sim que fazer um debate sobre esse tema, de maneira equilibrada, de maneira a se respeitar a opinião e o ponto de vista de todos", finalizou.

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