Opinião: A quem interessa saber que Laís Souza é gay?


Por Mariana Lajolo

A ginasta Lais Souza revelou à revista “TPM” que é gay. A entrevista virou machete de dezenas de sites pelo país nesta terça (10), mas não deveria ser encarado como uma notícia bombástica. O que uma pessoa faz na cama, deveria ser assunto apenas para ela e seus parceiros. Mas enquanto não chegamos a esse patamar, o fato de esse assunto estampar o noticiário pelo Brasil afora pode até ser comemorado. Explico: até pouco tempo atrás, era impensável para um atleta sair do armário. Hoje, nomes consagrados podem tentar viver suas vidas abertamente, namorar quem quiserem e continuarem a serem respeitadas no trabalho que fazem —claro que lidando com a curiosidade e a não aceitação de muitas pessoas. Afinal, sair do armário ainda é notícia.

Laís não está na ativa em competições por causa do acidente sofrido enquanto esquiava para se preparar para os Jogos de Inverno, mas continua ligada ao esporte e recebe atenção da mídia o tempo todo. Já Larissa, do vôlei de praia, por exemplo, compete, tem chances de chegar à Olimpíada de 2016 e não esconde mais sua sexualidade.

Segundo o site OutSports.com, 109 pessoas do mundo esportivo assumiram publicamente a homossexualidade em 2014, entre atletas profissionais e amadores, técnicos, árbitros, cartolas e jornalistas.

O único brasileiro é Ian Matos, dos saltos ornamentais. Quarto colocado no trampolim de 3 metros sincronizado ao lado de César Castro no Pan de 2011, ele diz ter assumido para mostrar que é possível “ser gay e ser feliz”. Matos contou já ter sofrido preconceito dos colegas durante as competições. Antes de tomar essa decisão, havia sido aconselhado a esperar os Jogos do Rio, em 2016.

Na lista do OutSports está também o ex-nadador australiano Ian Thorpe, que teve problemas psicológicos que afetaram toda sua curta carreira, parte deles por não ser sentir seguro para assumir quem era.

No Brasil, ainda é muito raro atletas saírem do armário com tranquilidade. Em 1999, o ex-jogador de vôlei Lilico revelou ser gay e reclamou de preconceito. Ele dizia que sua homossexualidade havia lhe fechado portas na seleção —Lilico foi vice-campeão mundial juvenil e figurava como um dos maiores pontuadores da Superliga antes dos Jogos de Sydney-2000. O ex-jogador deixou as quadras em 2005 e morreu em 2007, aos 30 anos, vítima de um AVC.

Em 2011, Michael, do Vôlei Futuro, também tornou público o que seus colegas de esporte já sabiam havia muito tempo. Em um jogo contra o Cruzeiro, o atleta foi vítima de gritos preconceituosos da torcida mineira e respondeu assumindo sua homossexualidade.

“Não quero ser um símbolo. Só quero contribuir para que isso não aconteça de novo. Acho que vai acontecer, mas, pelo menos, dei um primeiro passo”, disse à Folha de S. Paulo à época.

Nos EUA, atletas das principais ligas do país têm conseguido sair do armário, atrair atenção e apoio. Mas continuar a praticar esportes após a revelação não tem se mostrado tarefa fácil.

O pioneiro foi Jason Colins, da NBA, primeiro atleta de uma das quatro grandes ligas norte-americanas (NBA, NFL, MLB e MLS NHL) a dizer publicamente que era gay.

Em 2013, Collins não tinha contrato quando fez o anúncio e continuou assim até assinar um acordo temporário de apenas dez dias com o Brooklyn Nets. Após a estreia, sua camisa se tornou a mais vendida da NBA.

O ex-jogador, depois, acabou atuando durante toda a temporada e viu a atenção da mídia diminuir. Como ele mesmo disse, passada a curiosidade inicial, voltou a ser o que sempre foi, apenas um jogador de basquete mediano. Collins parou em seguida.

Ainda em 2014, Michael Sam foi draftado pelo St. Louis Rams para jogar na NFL mesmo após ter dito publicamente ser homossexual. Ele se tornou o primeiro gay assumido a jogar pela liga de futebol americano. O vídeo com sua reação ao receber a notícia do draft virou hit.

Sua entrada na elite do futebol americano foi aplaudida por muitos, mas também recebeu diversas críticas, com protestos raivosos de torcedores e reportagens sobre colegas “apreensivos” por terem de tomar banho ao lado dele no vestiário.

Exatamente um ano após se tornar sensação, Sam está desempregado. Ele foi cortado pelo St. Louis, em agosto, e pelo Dallas Cowboys, em outubro. Ainda treina em Dallas à espera de uma proposta, que muitos acreditam não virá. Seus ex-times justificaram a dispensa como técnica, mas a mídia norte-americana especula que o real motivo teria sido homofobia. Sam não é um atleta excepcional, mas jogadores piores do que ele já receberam propostas antes. Ele foi convidado para jogar pelo Montreal Alouettes, da liga canadense, mas ainda sonha em atuar na NFL.

Outro pioneiro que parece ter tido mais sorte é Robbie Rogers, do Los Angeles Galaxy, primeiro gay assumido a jogar futebol profissional nos EUA. O jogador chegou a anunciar a aposentadoria quando saiu do armário, mas voltou atrás e foi bem recebido pelos colegas, inclusive por um dos maiores astros do esporte do país, Landon Donovan.

Em recente visita à Casa Branca, Rogers recebeu elogios do presidente Barack Obama: “Você tem inspirado muitos caras aqui nos EUA e no mundo todo. Estamos orgulhosos de você”. O Galaxy ganhou o campeonato nacional com Rogers no time.

É praticamente impossível imaginar isso no Brasil. Muitos jogadores “pernas de pau”, “mascarados” ou “mercenários” não despertaram tanta raiva na torcida quanto Richarlyson, por exemplo. Diversas vezes, o jogador declarou ser heterossexual e mesmo assim continuou a sofrer ofensas de rivais e de torcedores dos próprios clubes em que jogou —torcidas organizadas do São Paulo, por exemplo, não gritavam seu nome. Tudo porque, para essa parcela dos fãs, ele parece gay. Emerson, do Corinthians, também foi hostilizado por ter dado um selinho em um amigo.

Para torcedores, jogadores e cartolas retrógradas do futebol brasileiro, um atleta tem que “parecer macho” ou ofenderá o manto sagrado do time. Assim, para os homossexuais, é “mais fácil” esconder sua sexualidade do que encarar o preconceito e as agressões de fãs e colegas e correr o risco de ficar sem emprego. E essa situação não se restringe apenas ao universo do futebol. O sofrimento é o mesmo em muitos outros esportes.

É por isso que o fato de Laís poder falar abertamente sobre suas opções é uma boa notícia. Pena que ainda existam poucas Laíses.

Veja direto na Carta Capital

Comentários