20/02/2015

Relações de gênero – um tema que não pode ficar fora da sala de aula

 
Homens que se relacionam com muitas mulheres são “garanhões”.
Mulheres que se relacionam com muitos homens são “fáceis”.
Homens não choram.
Mulheres são menos eficientes.
 
Como seus alunos percebem os papéis que os homens e as mulheres desempenham na sociedade? A Organização das Nações Unidas (ONU) lançou em Nova York a campanha HeForShe (ElePorEla), um movimento para promover a igualdade de gênero e nomeou a atriz Emma Watson, que ficou famosa ao viver a personagem Hermione na franquia Harry Potter, como embaixadora da boa vontade.
 
Em seu discurso, ela prega o reconhecimento dos direitos e da autonomia da mulher. “Acho certo que me paguem o mesmo tanto que os meus colegas do sexo masculino recebem… Que mulheres estejam envolvidas nas políticas e tomadas de decisão de seu país… Que eu seja capaz de tomar decisões sobre o meu próprio corpo… E que socialmente eu receba o mesmo respeito que os homens.” Assista ao discurso da atriz na íntegra:
 
 
Como ela diz, nenhum país do mundo pode dizer que alcançou a igualdade de gênero. E eu completo: alguns países estão muito distantes disso, como o Paquistão, em que milícias extremistas tentam impedir as meninas de estudarem e até tentam assassiná-las por isso, como foi o caso da Malala, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. O Irã também foi manchete nos jornais dessa semana com o caso absurdo da advogada que foi presa e condenada a um ano de prisão por querer assistir a um jogo de vôlei.
 
O que não se noticia e a gente não percebe é que o descompasso entre gêneros, que produz tanta violência, é construído no dia a dia, durante todo o desenvolvimento de meninos e meninas, como parte daquilo que chamamos de Educação Sexual.
 
Ser Homem ou Mulher
 
A natureza não define o gênero de uma pessoa, apenas o sexo: nascemos do sexo masculino ou feminino. As crianças não nascem acompanhadas de uma “bula da natureza” que mostra como homens e mulheres devem se portar: isso é aprendido e estabelecido nas relações sociais e varia de acordo com a cultura, valores e conceitos. Logo depois que um indivíduo nasce, inicia-se um longo processo social que influencia a construção de sua identidade, do seu papel sexual e de como se porta nas relações entre os sexos. A absorção desses estereótipos de gênero depende de como cada um aprende, entende e interpreta seus direitos e deveres em relação a si mesmo, ao outro e ao seu grupo social. E isso é uma questão de cidadania de que a escola participa ativamente, seja de forma intencional e sistematizada, seja no simples fato de transmitir, por meio do vínculo que criam com os alunos, valores, crenças e atitudes dos seus profissionais.
 
Sugestão de como trabalhar a relação de gênero
 
Trabalhar a relação de gênero significa educar sexualmente meninas e meninos dentro de uma perspectiva de igualdade de relações e direitos. Independentemente do sexo, homens e mulheres podem ser fortes e fracos, emotivos e racionais, autônomos e dependentes, inteligentes e capazes. Os sujeitos são constituídos de acordo com suas experiências em função de sua história e cultura e não como um fato da natureza humana.
 
Durante a infância isso pode ser trabalhado nas histórias que são contadas para as crianças, nas brincadeiras adotadas pela escola, na igualdade de oportunidades, nas atividades desenvolvidas em sala de aula, e principalmente, pela tomada de consciência do professor sobre as suas atitudes e valores em relação ao sexo feminino e masculino. Os educadores precisam rever seus conceitos e sua atuação junto às crianças, para não passar adiante modelos que contribuem para o descompasso entre os gêneros. As historinhas infantis mostram que a submissão de uma princesa é motivo para o príncipe se apaixonar por ela? Os meninos são recriminados quando choram ou ficam tristes? Apenas as meninas são chamadas para ajudar a professora, por serem naturalmente mais “organizadas” e “prendadas”? Essas são algumas reflexões que educadores precisam fazer para avaliar se sua postura em sala está reforçando estereótipos.
 
Na adolescência, as atitudes do dia a dia e a postura do professor também são muito importantes. Mas se na sua escola você dispõe da oportunidade de falar sobre gênero com seus alunos, esse é um excelente tema para se trabalhar. Para isso, é fundamental desenvolver uma atividade dinâmica em que os jovens possam expressar suas ideias, refletir sobre elas e desenvolver uma postura ética sobre as desigualdades sociais entre homens e mulheres. Uma boa sugestão é usar a dinâmica que trabalha as vantagens e desvantagens de ser homem ou mulher na nossa sociedade. Ela está disponível na página 30, do Manual do Multiplicador do Ministério da Saúde.
 
Na minha experiência esse trabalho permite refletir com os jovens os diferentes papeis que homens e mulheres exercem na sociedade e como estes são construídos por meio da cultura, expressos em diferentes veículos de comunicação e na imagem que cada um tem de si e da outra pessoa. O debate provocado é muito rico e pode desenvolver uma educação menos preconceituosa e mais humana.
 
Experimente, você vai ter uma agradável surpresa!

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