24/02/2015

"Todo mundo erra, toma um porre, faz merda", diz Dani Calabresa

 

LÍGIA MESQUITA para a Revista SERAFINA (FOLHA)
 
Dani Calabresa, 33, altera a voz, como se estivesse encarnando algumas de suas personagens no palco e na TV. "Olha, eu já disse pro médico: se eu não puder mais ir para a Disney, desligue os aparelhos, porque aí minha vida acabou."
 
A declaração dramática, em tom de brincadeira, poderia ter sido escrita para o "A Desgraça É Sua", quadro em que parodiava a apresentadora Sonia Abrão no extinto "Comédia MTV", entre 2010 e 2012.
 
Mas foi feita por Dani, pessoa física, no começo do mês. Aconteceu no consultório do otoneurologista que cuida dela desde agosto, quando descobriu ter vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), um tipo de labirintite.
 
"O lugar que mais amo no mundo é a Disney. Se eu não puder voltar pra lá, melhor nem continuar vivendo", brinca ela, que já visitou seis vezes o parque americano.
 
O distúrbio que acomete a atriz é provocado pelo deslocamento de cristais nos canais do ouvido interno e provoca uma tontura que faz tudo "girar" ao redor do paciente, dependendo de determinados movimentos da cabeça.
 
O quadro pode se agravar em situações de estresse, segundo especialistas. Para o tratamento, o médico precisa realizar "manobras" no crânio da pessoa para os cristais voltarem a seus lugares.
 
Desde o dia 29 de dezembro, quando passava férias no Caribe com o marido, o também comediante Marcelo Adnet, Dani sofre com náuseas e tonturas. "É irritante, tem dia que tá pior. Tô quase andando com uma garrafa de pinga na mão para as pessoas pensarem que vivo bêbada [risos]."
 
A vertigem não a impediu de continuar trabalhando. Ela retorna aos cinemas no dia 26 de fevereiro com "Superpai", de Pedro Amorim, o primeiro de seus três longas previstos para estrear neste ano.
 
A comédia, protagonizada por Danton Mello, tem como pano de fundo o reencontro de uma turma de faculdade após 20 anos de formatura. Dani vive Júlia, "uma piranha aposentada" compulsiva por sexo. "Não sou viciada em sexo, acho isso deprê. Mas amo. Normalzinho já tá ótimo, gente", diz.
 
Suas aparições não ficarão restritas à telona. A atriz gravou em fevereiro sua primeira participação na nova emissora, a Globo. Ela integrará o elenco do humorístico "Zorra Total", que promete reestrear reformulado em maio.
 
A paulista criada em Santo André já havia recusado "muitas propostas" do canal carioca. Em 2013, em entrevista à Folha, declarou que não via seu humor sendo feito lá. "O humor da Globo mudou", diz, citando programas como o "Tá no Ar" [estrelado por Adnet e Marcius Melhem]. "O projeto do 'Zorra' é totalmente novo, sem bordões, sem personagens fixos. Me ganhou."
 
O contrato com a Globo, garante, não significará uma grande ascensão na pirâmide social nem o adeus à vida de pagar aluguel. "Vou ganhar um salário bom, próximo ao que eu ganhava no 'CQC', mas não é 'ai, meu Deus, tô rica'."
 
Dani estudou teatro dos cinco aos 21 anos e se tornou humorista quando migrou para a modalidade de comédia "stand-up", incentivada por amigos do meio, como o apresentador Danilo Gentili. Em 2006, entrou para a televisão após passar em um teste para um humorístico do SBT. Dois anos depois, estava no elenco da MTV.
 
Foi no canal musical que a atriz e um time de talentosos comediantes de sua geração, como Adnet, ganhou projeção nacional. Suas imitações de Luciana Gimenez, Hebe Camargo e Susana Vieira, entre outras, são famosas até hoje.
 
Fã de Peter Sellers e Lucille Ball, ela define seu humor como "o mais goiaba possível" e diz que adora fazer piada de si mesma. "Falo dos meus tombos, das minhas doenças, da família. Adoro desconstruir e revelar erros e ataques de riso."
 
RACHEL E ROSS
 
Durante a sessão de maquiagem, Dani confere as mensagens no celular. Do outro lado do WhatsApp está "Amor Mumuxo", como chama o marido. Os dois seguem casadíssimos. "Não usamos aliança por causa do trabalho", avisa.
 
Em novembro, os atores viveram o maior momento de superexposição desde que se casaram, em 2010. Em suas palavras, "a vida de duas pessoas discretas, zero camarote, virou um circo".
 
Adnet foi flagrado por um paparazzo, perto de um bar, beijando outra mulher. A repercussão foi tanta que ele usou o Twitter para dizer que havia errado e estava arrependido. Dani mandou seu recado dias depois no "CQC", humorístico que apresentava até o ano passado: "Pessoas perfeitas, santos canonizados, ó, já podem guardar a pedra".
 
"Acha que um beijo bêbado estraga anos de um relacionamento feliz? A gente tem anos de amor, de parceria, de tesão. Todo mundo erra, toma um porre, faz merda", diz à Serafina. Neste caso, segundo ela, a diferença foi um fotógrafo atrás da moita. "De repente, ele virou vilão e eu, a mocinha."
 
Para colocar um ponto final na questão, separou duas gavetas. "Tinha o Brasil e tinha o meu casamento. Pensei: O que importa? Ele me ama, tá com a dor da culpa. É a mesma pessoa com quem me casei, quer ficar comigo."
 
A maneira como o episódio foi tratado pela imprensa, conta, a fez chorar muito. "Um marido apaixonado dar um beijo bêbado e te ligar e pedir perdão é vida que segue. Agora, eu ligar pro meu pai de 71 anos, para avisar que as fotos seriam divulgadas, não dá", diz.
 
Com a história, descobriu que, se na ficção as pessoas torcem por um final feliz, no dia a dia é diferente. "Em 'Friends', todo mundo torce pra Rachel perdoar o Ross. Porque o Ross traiu a Rachel, tá?", lembra. "Eles passam sei lá quantas temporadas separados e ele ama ela. E a gente torce pra perdoar. Mas, na vida real, todo mundo quer sangue."
 
Hoje, Dani questiona o tal preço da fama que algumas pessoas dizem que os artistas "precisam" pagar. "O que acho errado, na nossa profissão, é ter que ouvir: 'Ah, mas você tem que aguentar'. Por quê?", indaga. "A fama é um ônus pesado, mas não vou desistir por causa disso."

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