26/03/2015

“UM PAI LEVOU O FILHO ADOLESCENTE PARA VER O NAMORADO E RESTAUROU MINHA FÉ NA HUMANIDADE" Por Marcio Caparica


Por Marcio Caparica para o LADO BI
 
Ativista conta como presenciar uma cena que deveria ser corriqueira fez com que ele revisse alguns de seus próprios preconceitos - contra héteros
 
Traduzido do artigo de Benjamin O’Keefe para o site Huffington Post
 
Sabe aqueles momentos que parecem ter saído de um filme? Você sabe quais são – quando você literalmente fica esperando começar tocar uma música inspiradora no ponto em que uma cena comovente chega a seu clímax bem na sua frente? Bem, eu fui testemunha de uma que valia um Oscar.
 
Esse fim de semana eu estava em um Starbucks, escrevendo – eu sei, não dá pra ser muito mais clichê que isso – quando eu percebi que um homem e seu filho entravam na loja. Meu gaydar me informou imediatamente que eu estava na presença de alguém como eu. O garoto era muito bonito, vestia uma camiseta da Lady Gaga e um par de jeans enrolados, e parecia ter por volta de 16 anos. O homem que parecia ser seu pai, e só poderia ser descrito como um homem com jeito de homem, estava acompanhando-o. Com uma estatura corpulenta e intimidadora, ele vestia uma camisa com estampa de camuflagem e um par de jeans sujos.
 
Pouco depois outro garoto, mais ou menos da mesma idade, atravessou a porta. Ele caminhou até o primeiro menino e abraçou-o com carinho. O pai acenou para o garoto com a cabeça, severo, num cumprimento bem macho. “Oh-oh”, pensei, ele não parecia ser o tipo de cara que estaria super feliz de ter um filho declaradamente gay. Os garotos se dirigiram até o balcão para pedir seus cafés carésimos e o pai pagou a conta.
 
Depois que os dois receberam suas bebidas e se sentaram, o pai disse aos garotos “Tratem de se comportar”, e apertou a mão dos dois (eu disse que ele era homem com jeito de homem). Ele falou para seu filho ligar quando quisesse voltar para casa, e saiu da loja. Virado para a porta da frente, eu vi o pai parar em frente à vitrine. De costas para a porta, sem se darem conta de que o pai ainda estava observando, os garotos se aproximaram e deram-se um beijo. Para minha surpresa, a reação do pai foi abrir um sorriso enorme. Seu filho estava apaixonado, e não fazia diferença que era com um garoto.
 
Do lado de dentro eu estava pirando. Eu me segurei porque estava num lugar público, mas eu queria chorar de alegria por causa do momento lindo que eu testemunhei. Mas daí eu me liguei; eu havia acabado de ser preconceituoso com alguém. Eu tinha presumido que, como esse homem se encaixava em um certo estereótipo, ele automaticamente seria contra a igualdade, e de jeito nenhum seria a favor da sexualidade de seu filho.
 
É fácil se tornar cínico e desiludido, especialmente quando parece que todo dia nós ouvimos histórias devastadoras como a de Leelah Alcorn, que acabou com a própria vida por causa da rejeição que sofreu de seus pais depois que se declarou trans. Eu mesmo tive que enfrentar a rejeição de grande parte da minha família conservadora por causa da minha sexualidade – algo que levei anos para superar. Tendo dito isso, me ocorreu que, para um grupo que muitas vezes sofre de tanto preconceito, as pessoas da população LGBT também podem ser muito preconceituosas. Nós às vezes pressupomos que as pessoas nos odeiam por causa de nossa identidade – e muitos sem dúvida odeiam mesmo – mas não podemos nos esquecer que há pessoas que são muito melhores do que nós lhes damos crédito.
 
Para cada história de alguém que escreve “VIADO” na porta do apartamento de um casal gay, há uma de um pai que sorri quando vê seu filho gay adolescente beijar o menino de quem gosta abertamente. Para cada história horrível sobre sair do armário, há a história de uma família que trata seus membros amados com respeito e aceitação.
 
Não há dúvida de que não devemos subestimar as lutas que nossa comunidade enfrenta. Nós não devemos mostrar apenas as histórias boas e ignorar as ruins. Não devemos parar de lutar pela igualdade só porque alguns já a alcançaram. Mas eu tenho que dizer, quando vierem aqueles dias em que parece que tudo está contra nós, agora eu tenho a cena que eu presenciei num Starbucks – uma cena de amor e aceitação vinda de onde eu menos esperava – para me dar uma razão para sorrir.
 

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