24/04/2015

"Meu amigo gay" por Ruth Manus


Publicado pelo Estadão 
Por Ruth Manus 

Você acha que o conhece? 

Se tem uma coisa que me cansa é quando eu digo que sou uma advogada paulistana e a pessoa automaticamente conclui que eu ganho rios de dinheiro, voto no Alckmin e uso conjuntinho de blazer e saia-lápis. Não, essa não sou eu. Mesmo. Ou quando alguém diz que eu sou blogueira, e os outros já presumem que eu sou magra, ultra saudável, ando sempre bem vestida, com calça esquisita e salto fino. Não, outra vez, não sou eu.  

É chato quando tiram conclusões precipitadas sobre a gente e, ao invés de podermos mostrar quem somos, temos que perder tempo demonstrando quem não somos, comprovando o que não fazemos, esclarecendo do que não gostamos. 

Pois é. Essa é a história diária dos meus tantos amigos gays. 

 “Que legal, você tem um amigo gay? Ele deve ter dar vários conselhos sobre moda, arrumar seu cabelo, te ensinar coreografias, dançar descamisado até o dia amanhecer, ir com você às compras, te ligar te chamando de gaaaaaata.” 

 Então. Na verdade não. 

 Eu até tenho um amigo gay que entende muito de moda. Mas tenho outro que só entende de terno. Outro que se veste que nem o Agostinho Carrara. Outro que não tá nem aí pra moda, tem um jeans velho e olhe lá. 

 Eu, de fato, tenho um amigo gay que é cabeleireiro. E tenho outro que é um super advogado. Outro que trabalha em plataforma de petróleo. Outro que tá sem emprego, na luta, com várias contas atrasadas. 

 Eu tenho um amigo gay que me ensinou a coreografia do Show das Poderosas. Outro que me apresentou uma banda dinamarquesa fantástica. Outro que toca bateria numa banda de rock. Outro que mal consegue bater palma no ritmo certo no “parabéns pra você”. Eu tenho um amigo gay que me leva para as melhores baladas, das quais nunca voltamos antes das 8 da manhã. Outro que só gosta de sair pra correr no parque. Outro que me chama para ir assistir jogo da Champions no bar. Outro que só me encontra depois da missa. Outro que nunca sai porque está estudando que nem louco pra concurso público. 

 Eu até tenho um amigo gay com quem gosto de ir ao shopping. Mas tenho outro que é a melhor companhia para hamburger cheio de bacon e milk shake. E outro que é ótima companhia para ir na Leroy Merlin porque entende tudo de obra. Outro com quem adoro abrir uma garrafa de vinho e conversar sobre filosofia. 

 Eu tenho um amigo gay que me liga e fala “gaaaaaaaaaata vamos pra balada?”. Mas que às vezes me liga e fala “Rú, vem almoçar aqui, minha mãe fez bacalhau”. E me liga e diz “to ferrado no trabalho, não vou ter fim de semana”. E me ligou e disse “minha avó morreu, vem pra cá por favor”. 

 Às vezes dá vontade de dizer: meu amigo gay? Meu amigo gay é uma pessoa sobre a qual você só sabe duas coisas- que é meu amigo e que é gay. Para saber o resto, o jeito, o gosto musical, o tom de voz, a profissão, você precisa conhecê-lo. Te garanto que ele não cabe em nenhum molde que você tenha na cabeça. 

 Com amigas lésbicas é pior ainda. “E você não acha que ela quer te pegar? E ela calça 42? E ela fala grosso? Tem cabelo curtinho com gel?”. Caceta. Não, ela não quer me pegar, nem me atacar durante a noite. Ela é minha amiga e eu sou amiga dela. Ela calça 36. Tem uma que fala grosso, outra parece uma gralha. Uma de cabelo joãzinho, outra que gasta mil reais no cabeleireiro fazendo luzes. 

 Será possível que nessa altura do campeonato ainda precisamos explicar que“gay” não é um tipo de pessoa, mas uma característica de uma pessoa como qualquer outra? Que eles não pertencem a uma espécie à parte? Que eles não cabem numa forma padrão, com personalidades, atitudes e discursos pré-definidos? 

Complicado… 

 E no dia em que me perguntaram “mas por que você tem tanto amigo gay?” eu só consegui responder “ah, sei lá”. 

 Mas, pensando melhor, eu não tenho muito amigo gay. Eu tenho, graças a Deus, muitos amigos. Dentre eles, tem hétero, tem gay, tem jogador de poker, fã do NX zero, hippie de estrada, testemunha de Jeová. Tem muita gente. Muita gente amada, do jeito que é. E é isso que importa. 

 Meu amigo gay é super gente fina. Você vai gostar de conhecê-lo. Mas, por favor, não se esqueça: você ainda não o conhece. 

 Veja direto no Estadão

Um comentário:

Anônimo disse...

Sensacional!

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