09/04/2015

Relato de jovem que se revelou gay para o irmão emociona a internet


Por Felipe Martini para o Zero Hora
 
Lucas Vasconcellos escreveu texto contando sua surpresa com a naturalidade do caçula ao ser informado de sua orientação sexual
 
Entre melhores amigos, não há segredos.
 
E foi para manter-se fiel ao melhor amigo que o ex-estudante de Fonoaudiologia Lucas Vasconcellos, 23 anos, tomou coragem para revelar sua verdade mais íntima: sua homossexualidade.
 
Mais difícil do que abrir seu coração foi fazê-lo de forma compreensível para o melhor amigo em questão — seu irmãozinho caçula, de oito anos.
 
Em um texto nas redes sociais (leia abaixo), o porto-alegrense contou o desenrolar inusitado da conversa, que ocorreu dia 12 de março:
 
— Tu sabes o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres? — indagou Lucas. Nesse momento, ao ver o menino reticente, tinha a palavra "gay" como resposta na ponta da língua. Mas foi surpreendido:
 
— ...amor? — respondeu o caçula.
 
A resposta pura e cândida emocionou os amigos do jovem e ultrapassou as barreiras do privado — até o momento, o relato havia recebido mais de 4 mil curtidas e 530 compartilhamentos no Facebook.
 
Apoio dos avós
 
Por conta do conturbado relacionamento com os pais, Lucas vive com os avós paternos desde os 17 anos — dois anos antes de falar sobre sua homossexualidade pela primeira vez, para a avó.
 
— Sou professora aposentada e tive muitos alunos homossexuais durante minha carreira, mas, quando o Lucas me confidenciou, fiquei surpresa. Eu e meu marido aceitamos e respeitamos a orientação dele. Só queremos que ele seja feliz — explica Rosa Vasconcellos.
 
Procurado pela reportagem, o pai de Lucas não quis comentar o texto e furtou-se a dizer que o jovem está se expondo demais.
 
Repercussão positiva (em sua maior parte)
 
Após o post, Lucas recebeu mensagens de internautas do país inteiro:
 
— As pessoas me agradeceram por ter compartilhado um momento tão íntimo. Acredito que gerou essa repercussão toda porque expliquei (para o irmão) uma situação complicada de forma simples, e ele me respondeu com pureza, carinho e amor.
 
Apesar da maioria esmagadora de comentários positivos, o jovem foi alvo de preconceito por parte de desconhecidos, que deixaram mensagens de cunho religioso chamando-o de anormal, antinatural e pecador.
 
Depois de emocionar milhares de pessoas com seu relato, Lucas, que largou as faculdades de Letras e de Fonoaudiologia, quer se dedicar à escrita de romances e crônicas com temática LGBT. E se diz, mais do que tudo, aliviado:
 
— Eu e meu irmão já éramos melhores amigos, mas agora somos mais ainda, porque vivemos sem segredos entre nós.
 
Leia o texto de Lucas:
 
Hoje, eu contei para o meu irmãozinho que eu era gay.

Após muitos anos desde que descobri a respeito da minha sexualidade, sobre o gênero que desperta uma paixão realmente autêntica em mim, finalmente cheguei à decisão de confiar a minha realidade a essa pessoinha, que é com quem mais me importo na vida.

Dividi isso de maneira bem pedagógica, tentando criar uma analogia sobre as pessoas e suas cores favoritas. Dizendo que têm pessoas que gostam mais de preto, ou branco, ou azul, ou amarelo, ou vermelho; explicando sobre o quão legal isso fazia do mundo. Que todos podemos gostar de cores diferentes, e ainda assim sermos felizes e respeitados ao colorir nosso mundo com elas.

Ele parecia saber que eu ia confessar algo. Mergulhou num estado quieto e pensativo durante a explicação inteira, e então, por fim, resolvi assumir minha sexualidade. Ele continuou me olhando, bem calmo e sorrindo, tão natural, e eu o questionei:

"Tu sabe o nome que se dá a quem gosta de pessoas iguais? Homens que gostam de outros homens, e mulheres que gostam de outras mulheres?"

Eu estava preparado para soltar a palavra "gay", já estava na ponta da língua quando ele simplesmente me escancara a verdadeira resposta:

"Amor?"

E então eu chorei.

"Não chora", ele disse, me abraçando.

Ele me olhou com aqueles olhos cheios de inocência e do mesmo tons que os meus, e eu senti que, pela primeira vez, ele me enxergava como eu realmente era. Um irmão que ele amava, um amigo que ele jamais perderia e, mesmo sendo uma pessoa qualquer com uma preferência diferente por quem se apaixonar, ainda assim uma pessoa igual a qualquer outra. Eu soube disso pela resposta dele. Pela bondade em cada palavra. Uma criança de oito anos de idade soube encarar algo tão natural com mais maturidade do que muito adulto. Mais que meus próprios pais, inclusive, que sempre me negaram o direito de confidenciar isso ao meu irmão.

Aproveitem pra aprender da pureza deles, que a maioria esquece ao crescer, pois eu acho que as maiores verdades dessa vida estão no coração dos pequenos.

E a vida continua, como se nada tivesse mudado.

E, do fundo do coração, eu agradeço por isso.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que o amor em suas formas diversas jamais possa acabar

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