"PRESSUPOSTOS DA PSICOLOGIA E PSICOTERAPIA AFIRMATIVA" Por Paulo Cogo

Por *Paulo Cogo para o Homorrealidade
A Psicologia e Psicoterapia Afirmativa derivaram do conhecimento acumulado da denominada “Psicologia Homossexual” ou Lesbian and Gay Psychology, que surgiu inicialmente nos Estados Unidos e difundiu-se em vários países europeus, principalmente na Grã-Bretanha, considerada a primeira corrente psicológica não tradicional que se preocupou em entender em profundidade o fenômeno da homossexualidade dentro de uma perspectiva não heteronormativa.
Em relação à questão do heterocentrismo e da heteronormatividade da Psicologia clássica, ainda vigente em boa parte da teoria e da prática psicológica ocidental, cabe lembrar que, até meados dos anos 1970, compreendia a homossexualidade como uma manifestação patológica da sexualidade humana, e o comportamento sexual homossexual como resultado de um desenvolvimento psicossexual problemático, imaturo ou menos desenvolvido. Até essa época, os estudos e pesquisas sobre a homossexualidade enfatizavam os “desvios ou disfunções sexuais” e tinham como base uma população formada predominantemente por pessoas em prisões e hospitais psiquiátricos. Estas pesquisas, realizadas na maioria das vezes com homossexuais masculinos, tinham seus dados generalizados para as lésbicas.
Esse tipo de visão preconceituosa e fragmentada da sexualidade humana e dos comportamentos sexuais não heterossexuais desconsiderava como os indivíduos homossexuais lidavam com as questões básicas da vida cotidiana, tais como a maneira como se relacionavam afetiva e sexualmente e a forma que conviviam com suas famílias. Também não apresentava a maneira como os homossexuais cuidavam da saúde e enfrentavam os desafios da maternidade e paternidade, e, menos ainda, de que modo trabalhavam para sobreviver.
Foi a partir da constatação dessa visão absolutamente incompleta e limitada do conhecimento considerado científico sobre a sexualidade humana que, inicialmente a Psicologia Homossexual e, hoje, a Psicologia Afirmativa estabeleceram seus pressupostos visionários e pioneiros. Partindo da constatação científica mais consistente hoje de que a orientação homossexual é parte da variação normal da sexualidade humana, a Associação Americana de Psiquiatria retirou-a do seu manual de diagnósticos psiquiátricos (Diagnostic and statistical manual of mental disorders – DSM) no ano de 1973.
Partindo do conceito que entende a Psicologia Afirmativa como uma abordagem psicológica cujos fundamentos consistem em um conjunto de pressupostos teóricos sobre as orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais e em uma atitude clínica especificamente voltada para o desenvolvimento de uma identidade não heterossexual positiva e apreciativa, são apresentados a seguir os pilares científicos da sua atuação clínica.
Quais são os principais pressupostos teóricos e técnicos da psicologia e psicoterapia afirmativa?
1º. De acordo com a visão afirmativa, as identidades não heterossexuais são expressões naturais, espontâneas e positivas da sexualidade humana, em nada inferiores ou menos desenvolvidas que a identidade heterossexual, não entendendo as orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais como patologias ou manifestações imaturas da sexualidade;
2º. Para a Psicologia Afirmativa, a homofobia, e não a homossexualidade é a principal causa da maioria dos conflitos vivenciados pelos indivíduos não heterossexuais;
3º. Devido ao motivo exposto no pressuposto anterior, os psicoterapeutas que adotam a abordagem afirmativa, independentemente de sua orientação teórica ou formação técnica, ao ajudarem a desenvolver uma identidade não heterossexual positiva, devem possuir e transmitir aos seus pacientes um absoluto respeito por sua sexualidade, sua cultura e seu estilo de vida;
4º. Ainda baseado no que foi afirmado no segundo pressuposto, os psicólogos afirmativos devem atuar buscando compreender tanto as variáveis da dinâmica pessoal dos seus pacientes, quanto às variáveis sociais relativas às diferentes formas de preconceito e opressão a que os indivíduos homossexuais estão submetidos diariamente, uma vez que grande parte dos problemas vividos pelos LGBT decorrem da rejeição social;
5º. Do ponto de vista da didática afirmativa, ou seja, da formação técnica e pessoal do terapeuta afirmativo, é essencial o abandono da visão desenvolvimentista da Psicologia tradicional, que entende as orientações sexuais não heterossexuais como estágios inferiores ou menos desenvolvidos que a heterossexualidade, bem como do heterocentrismo e da heteronormatividade psicológica que trata a orientação sexual heterossexual e a identidade de gênero heterossexual como as únicas normais, no sentido de saudáveis e maduras dentro do amplo espectro da sexualidade humana;
6º. A famosa e polêmica “neutralidade do terapeuta”, prescrita pela maioria das Escolas Clássicas de Psicologia, não se aplica à abordagem afirmativa, devido à história de opressão, rejeição, violência, não inclusão e falta de reconhecimento que a maioria dos LGBT foi submetida ao longo das suas vidas, ou seja, na psicoterapia afirmativa informações sobre a identidade pessoal e profissional do terapeuta, se adequadamente inseridas no contexto terapêutico, possuem o potencial de agregar valor ao processo terapêutico, na medida em que estabelecem para os pacientes um sistema de referência com o qual eles podem se espelhar.
Para que esses pressupostos passem a integrar de fato o trabalho clínico de um psicólogo que pretende atuar a partir da abordagem afirmativa, contribuindo com a construção de identidades positivas dos pacientes LGBT, o psicólogo precisa de muito mais do que apenas considerar as orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais normais, possíveis e passíveis de afirmação positiva na sociedade.
A maior ou menor eficácia no trabalho clínico reside na competência dos profissionais da psicologia, fruto de uma formação teórica e técnica consistente sobre sexualidade humana que considera não apenas os aspectos da psicodinâmica das orientações sexuais não heterossexuais, mas também um conhecimento profundo sobre os desafios que os LGBT enfrentam para viver, conviver e, principalmente, sobreviver, em uma sociedade heterocentrada e homotransignorante.
Nesse sentido, conhecer e compreender profundamente a complexidade e a riqueza dos modos de vida e da cultura LGBT, além das questões fundamentais relacionadas aos direitos civis dessa população, é essencial e indispensável ao trabalho clínico de um psicólogo afirmativo.
 
 
*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.
É especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.
É Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.
Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Publicidade e Propaganda, e Administração.
Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).
Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.
Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.
Também atuou como empresário na área de Recursos Humanos e colunista de uma empresa de consultoria na área de projetos organizacionais.
Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.
É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.

Comentários