30/05/2015

"PSICOLOGIA AFIRMATIVA, UMA PSICOLOGIA DA IDENTIDADE" Por Paulo Cogo


Por *Paulo Cogo especial para o Homorrealidade

A Psicologia Afirmativa é considerada hoje a principal abordagem científica para a compreensão do comportamento e da mente das pessoas LGBT, não constituindo uma escola ou sistema independente de Psicologia. Derivada da denominada Psicologia Homossexual ou Psicologia Gay e Lésbica que surgiu nos Estados Unidos da América a partir de 1970, representou inicialmente uma reação ao heterocentrismo e ao heteronormativismo da psicologia praticada naquela época. Cabe lembrar que naquele período a homossexualidade, que era denominada de homossexualismo, era considerada uma patologia, ou seja, um desvio ou disfunção sexual a ser curada.
 
Com o passar dos anos um conjunto cada vez mais considerável de estudos científicos e dados clínicos sobre as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não convencionais foi constituindo um corpo relevante de constatações que indicaram que todas as orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais, assim como as identidades sexuais não convencionais e a maioria dos comportamentos sexuais são expressões naturais e espontâneas do comportamento humano, tão normais quanto qualquer expressão do comportamento sexual heterossexual, e integrantes do amplo e complexo espectro da sexualidade humana.
 
A Psicologia Afirmativa não é uma escola de Psicologia, partindo dos conhecimentos acumulados por esses sistemas de psicologia que estabeleceram as bases da compreensão geral do comportamento e da mente humana, bem como dos seus fundamentos e intervenção. Hoje as três grandes escolas de psicologia científica são a Psicologia Cognitivo-comportamental, a Psicologia Psicanalítica do Desenvolvimento Humano e a Psicologia Humanista.
 
As demais abordagens psicológicas derivam destes sistemas autônomos de psicologia, de um ou de todos, como é o caso da Psicologia Afirmativa, que parte de todos os conhecimentos científicos acumulados sobre a mente e o comportamento humano e apresenta uma abordagem específica para lidar com a questão do comportamento LGBT. Todas as escolas e abordagens de psicologia científica privilegiam um determinado objeto de estudo, que constitui o ponto de partida da sua compreensão do comportamento e da mente humana. No caso da Psicologia Afirmativa o principal objeto de estudo é a identidade, enquanto constructo ou estrutura através da qual as pessoas afirmam objetivamente no ambiente em que se encontram inseridas aquilo que elas são ou acreditam que são.
 
E o que a Psicologia Afirmativa entende por identidade?  O emprego popular do termo apresenta-se marcado por uma intensa diversidade conceitual. Na visão psicológica clássica os estudos sobre identidade são tratados geralmente pela Psicologia Analítica do Eu e pela Psicologia Cognitiva, que compartilham a noção da existência de um desenvolvimento, marcado por estágios crescentes de autonomia, entendendo a identidade como produto da socialização e garantida pela individualização. A questão da identidade também ocupa um lugar central nos estudos da Psicologia Social, sempre preocupada em considerar o indivíduo enquanto sujeito social, inserido num contexto sócio-histórico.
 
O psicanalista Jurandir Freire Costa utiliza a expressão "identidade psicológica" para se referir a um predicado universal e genérico definidor por excelência do humano em contraposição a apenas um atributo do eu ou de algum eu como é a identidade social,  étnica ou religiosa. Já o sociólogo alemão Jürgen Habermas refere-se a “identidade do eu“ que se constitui com base na  "identidade natural" e na "identidade de papel" a partir da integração dessas através da igualdade com os outros e da diferença em relação aos outros. Com base no pressuposto inter-relacional entre as instâncias individual e social, a expressão "identidade" vem sendo utilizada pela Psicologia Afirmativa.
 
Dessa forma, é eliminada a dicotomia entre essas instâncias e “a identidade passa a ser qualificada ao mesmo tempo como identidade pessoal (atributos específicos do indivíduo) e identidade social (atributos que assinalam a pertença a grupos ou categorias). Assim, o sentido de identidade inclui, concomitantemente, um conceito que explica o sentimento pessoal e a consciência da posse de um eu, privilegiando, de um lado, o individual, e de outro lado, o pertencimento a uma coletividade, resultando numa configuração que captura o indivíduo inserido na sociedade, bem como a dinâmica das relações sociais das quais ele faz parte e influencia.
 
O termo identidade é, então, utilizado pela Psicologia Afirmativa expressando a representação de si construída pelo indivíduo na relação com outros indivíduos relevantes na sua vida. Os acontecimentos da vida de cada pessoa geram sobre ela a formação de uma lenta, porém marcante imagem de si mesma, positiva ou negativa, falsa ou autêntica, que aos poucos se constrói ao longo de experiências de trocas com os outros significativos de sua história: mãe, pai, irmãos, família, amigos de infância e todas as pessoas que impactam sua trajetória como ser humano.
 
A forma como cada paciente LGBT percebe, representa e refere a sua própria identidade, incluindo sua identidade e comportamento sexual, é o ponto de referência e inicial da clínica afirmativa. A maior parte da população LGBT infelizmente não descreve sua sexualidade de forma congruente com seu comportamento social cotidiano, ou seja, oculta ou nega de alguma forma sua orientação sexual e/ou identidade sexual e identidade de gênero da maioria das pessoas por medo de rejeição, violência, não reconhecimento e não aceitação. Essa constatação presente nos estudos e na clínica revela que em geral os LGBT expressam sua identidade de acordo as expectativas sociais, ou seja, não expressando quem de fato são e não revelando a sua verdadeira identidade.
 
Ajudar os pacientes LGBT a reconhecer a importância do desenvolvimento saudável de uma identidade não convencional ou não exclusivamente heterossexual, e, principalmente, da necessidade da expressão positiva e afirmativa dessa identidade para que eles possam se tornar quem de fato deveriam ser constitui o mais importante eixo no qual se desenvolve a terapia afirmativa.

*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.
É especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.
 
É Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.
 
Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Publicidade e Propaganda, e Administração.
 
Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).
 
Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.
 
Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.
 
Também atuou como empresário na área de Recursos Humanos e colunista de uma empresa de consultoria na área de projetos organizacionais.
 
Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.
 
É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
 
Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.

 

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