06/06/2015

"A HOMOTRANSFOBIA INTERNALIZADA NO CONTEXTO DA TERAPIA AFIRMATIVA" Por Paulo Cogo

 
 
Por Paulo Cogo para o Homorrealidade
 
A terapia afirmativa é uma abordagem da psicologia científica contemporânea que auxilia os pacientes LGBTQI a construírem e afirmarem uma identidade positiva e apreciativa na sociedade. Do ponto de vista da clínica afirmativa, ou seja, do tratamento das questões que afligem as pessoas LGBTQI, a fobia internalizada pelos pacientes em relação a sua própria sexualidade é a principal responsável pelos conflitos vivenciados por eles, interferindo negativamente nas suas identidades.
 
O reconhecimento da homofobia internalizada para os homossexuais, da transfobia internalizada para os trangêneros (travestis e transexuais), da bifobia internalizada para os bissexuais, e de todas as demais fobias em relação a orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não convencionais, de acordo com a orientação sexual, identidade sexual e de gênero de cada paciente, é o núcleo central do trabalho terapêutico. Mas o que é a homotransfobia internalizada? A expressão “homotransfobia” é a junção dos prefixos “homo” e “trans” com a palavra fobia que foi criada com a intenção de indicar a fobia, medo, aversão ou rejeição irracional e, na maioria das vezes, inconsciente, a todas as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não convencionais. Existem outras expressões, tais como “homolesbotransfobia” ou “homolesbobitransfobia” que buscam incluir outras orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero em uma mesma palavra, e, provavelmente, no futuro serão criadas outras.
 
O mais importante é destacar que todos os termos derivam da expressão “homofobia”, criado por George Weinberg em 1960 para caracterizar os sentimentos de medo, aversão, ódio e repulsa que a maioria das pessoas heterossexuais possui, consciente ou inconscientemente, e em níveis diferenciados, em relação às pessoas não heterossexuais, especialmente em relação aquelas que assumem e expressam publicamente essa condição. Todas as pesquisas científicas de referência em relação a essa questão, assim como a experiência clínica dos psicólogos que atuam dentro da abordagem afirmativa confirmam que a maioria das pessoas LGBTQI possui algum tipo ou nível de medo, rejeição, ou preconceito em relação à própria orientação sexual, fruto da internalização das mensagens negativas sobre as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não tradicionais que recebeu desde o nascimento e que nunca cessaram de ocorrer de forma velada ou explícita. A criança LGBTQI cresce e se desenvolve internalizando, consciente ou inconscientemente, valores culturais que rejeitam, condenam e não aceitam outras formas de expressão da sexualidade que não seja a heterossexual convencional, uma vez que existe a expressão da sexualidade heterossexual não convencional, como no caso de um casal de pessoas transexuais heterossexuais, ou seja, um casal constituído por um homem trans e uma mulher trans, por exemplo.
 
Como a nossa sociedade infelizmente é ainda muito homotransfóbica, ou seja, como apresenta um alto nível de homofobia social, institucional e familiar, inevitavelmente a maioria das pessoas ainda é bastante homotransfóbica, de alguma forma e em algum nível, incluindo as próprias pessoas LGBTQI. Para a terapia afirmativa é a homofobia, ou a transfobia, ou a bifobia, e não a orientação sexual não convencional que o paciente possui o principal motivo por grande parte dos conflitos que são vivenciados pelas pessoas LGBTQI. O reconhecimento no nível racional pelo próprio paciente de que a sua orientação sexual não tradicional é considerada hoje pela moderna ciência da sexualidade parte da variação normal do espectro da sexualidade humana ocorre normalmente de forma tranquila no processo terapêutico, porém o reconhecimento da fobia que o paciente LGBTQI possui em relação a sua própria orientação sexual, geralmente em nível inconsciente, é mais sutil e difícil de ser admitido por ele, representando uma barreira emocional a ser transposta.
 
A dificuldade no reconhecimento das fobias em relação à própria sexualidade por parte dos pacientes LGBTQI reside no fato de que elas são fruto de crenças limitadoras inconscientes que foram construídas e internalizadas ao longo do desenvolvimento emocional e moral deles, ou seja, são um subproduto das homotransfobias social, institucional e familiar que consideram as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não convencionais imorais, patológicas ou vergonhosas. Crescer, viver e se desenvolver em uma cultura que trata as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não convencionais anormais ou patológicas faz com que as pessoas LGBTQI adaptem suas identidades ao que é esperado pela sociedade, não desenvolvendo identidades autênticas. A raiz desse problema é o próprio preconceito ou dificuldade que os pacientes apresentam para aceitar sua condição sexual.
 
Embora a minoria dos pacientes LGBTQI reconheça a fobia internalizada em relação a sua própria sexualidade no início de um processo terapêutico afirmativo ou possua a clareza necessária para enfrentar essa barreira ao tratamento, ela está sempre presente e deverá ser trabalhada mais cedo ou tarde na terapia. Vivendo e convivendo em ambientes “homotransignorantes”, as pessoas LGBTQI são bombardeadas desde que nascem com mensagens subliminares, ou muitas vezes explícitas, extremamente negativas sobre as orientações sexuais e identidades sexuais e de gênero não tradicionais, fazendo com que, na maioria das vezes inconscientemente, também rejeitem a própria sexualidade. Em algum momento da terapia afirmativa o paciente LGBTQI vai expressar, direta ou indiretamente, essa rejeição, insatisfação ou percepção de incongruência com sua orientação sexual.
 
Esse é um momento muito importante no processo terapêutico que, se adequadamente conduzido pelo psicólogo afirmativo, vai auxiliar o paciente LGBTQI na própria aceitação e na construção de uma identidade mais autêntica, positiva e apreciativa por ter trazido à consciência sentimentos positivos associados à condição sexual que ele vivencia.
 
*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.
É especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.
É Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.
Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Publicidade e Propaganda, e Administração.
Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).
Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.
Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.
Também atuou como empresário na área de Recursos Humanos e colunista de uma empresa de consultoria na área de projetos organizacionais.
Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.
É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.
 

Um comentário:

Gaia qualaversao disse...

Parabéns pela matéria. Conteúdo simples e assertivo! Continue com o bom trabalho!

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