22/06/2015

Refugiado homossexual da Coreia do Norte conta a sua história


Publicado pela Portugal Gay


Ele fugiu do seu país em 1997 mesmo sem saber bem porque fugia, pensava que apenas fugia da esposa.

Jang Yeong-jin deixou a Coreia do Norte rumo à vizinha do sul e a pergunta que foi feita foi: ”o que o levou a atravessar a fronteira fortemente armada entre as duas Coreias?”.


Jang disse que tinha vergonha de confessar que o que o moveu foi o fato de não sentir qualquer interesse sexual pela sua esposa, disse que não poderia explicar o que o fazia tão infeliz na sua terra natal, Jang desconhecia que aquilo que sentia chamava-se orientação sexual e a sua era homossexual, sentimento e palavra que ele disse desconhecer o sentido.


Jang com 55 anos e tido como o único norte coreano a viver no sul abertamente gay, e só assim é porque em 2004 perdeu todas as suas economias por ação de um vigarista, situação que o levou a pedir ajuda junto de ativistas LGBT. A exposição não era coisa que Jang desejasse porque mesmo sendo mais fácil viver a sua sexualidade no Sul esta Coreia vê ainda a homossexualidade como um tabu.


“A Mark of Red Honor” é a autobiografia de Jang onde ele descreve as suas experiências enquanto um homem homossexual que cresceu na Coreia do Norte, onde o governo sustenta que a homossexualidade não existe, porque as pessoas norte coreanas vivem com uma mente sã e com valores morais.








Mas a luta de Jang continua, neste país onde se sente duplamente como um renegado primeiro porque fugiu do norte para o sul depois porque é gay.


“Na Coreia do Norte a pessoa comum não tem consciência do que é um homossexual” diz Joo Sung-ha da Universidade Kim ll-sung, Pyongyang, capital da Coreia do Norte, disse-o em 1990, mas hoje é jornalista na Coreia do Sul, disse ele que à época só metade dos seus colegas de universidade terão ouvido a palavra e que mesmo assim alguns tratam-na como sendo uma doença mental que afeta apenas sub-humanos e é apenas encontrada nos depravados países do Ocidente.


A Coreia do Norte não tem leis que proíbam expressamente as relações homossexuais, contudo não se envergonha em nada em expressar a sua homofobia. No passado acusou Michael D. Kirby um ex-juiz australiano que conduzia uma investigação das Nações Unidas sobre abusos sobre os direitos humanos na CN de que se tratava de “um velho devasso nojento de 40 anos de carreira na homossexualidade”.


Diz Jang que nunca ouviu falar de homossexualidade enquanto crescia em Chongjin na costa leste da Coreia do Norte, nem mesmo quando Jang se apaixonou por um outro jovem de seu nome Seon-Cheol, uma ligação com base na amizade que prosseguiu durante os estudos.


Conta Jang, “quando andávamos de metro e estava cheio eu sentava-me no colo de Seon-Cheol e ele abraçava-me por trás, as pessoas não se importavam porque pensavam que eramos amigos de infância”







Ouvir Jang é voar dentro da realidade portuguesa aos tempos da ditadura, conta ele que os abusos sexuais no serviço militar são mais que muitos e já foram relatados nos canais da comunicação social por ex-militares e oficiais. Conta ainda que muitos homossexuais acabam por casar com mulheres e viverem vidas duplas, porque diz Jang, “essa é a única realidade que conhecem”.


Conta ainda que alguns militares são destacados em missões por dez anos sem contato algum com o sexo oposto e que quando regressam a casa casam-se, os amigos visitam-se e dormem juntos e as suas mulheres deixam assumindo que isso seria um hábito de infância, confessa Jang que uma noite em que Seon-Cheol o visitou a meio da noite Jang deixou o leito da sua esposa e arrastou-se até junto do amigo mesmo ele o tendo ignorado e continuado a roncar.


É assim que Jang percebe a “prisão” que era a sua vida e mais concretamente o seu casamento vivido sem amor, “eu queria voar para longe como um ganso selvagem, e deixar a minha esposa definir a sua vida deixando-a livre para tal”.


Em 1997 um punhado de norte coreanos atravessou a fronteira coberta de minas para a Coreia do Sul entre eles Jang Yeonng-jin, foram noticia pelo ato destemido de enfrentar um campo de minas em busca de liberdade.


Jang não entendia a sua sexualidade até ler um artigo sobre direitos homossexuais estávamos no ano de 1998, viu a foto de dois homens a beijarem-se e outra de nus numa cama, e dizia que havia bares gay em Seul, “foi como se as luzes se acendessem no meu mundo”, disse. 2004 não foi um bom ano para Jang, um vigarista roubou-lhe todas as economias, soube por outro norte-coreano que também havia fugido para sul que três irmãos seus e uma irmã tinham morrido depois de terem sido expulsos da sua aldeia devido à fuga de Jang. A ex-mulher de Jang havia também sido expulsa da sua aldeia mas mais tarde reintegrada.


Hoje Jang vive em Seul como empregado de limpeza num edifício, diz que não é uma vida fácil mas é de longe preferível à vida que tinha no norte. Jang termina assim, “há muitos homossexuais na Coreia do Norte que vivem uma vida miserável mesmo sem saber porquê, que tragédia é viver uma vida sem saber quem você é”.

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