22/06/2015

"TERAPIA AFIRMATIVA: UMA PSICOTERAPIA DA DIFERENÇA – PARTE 01" Por Paulo Cogo


Por *Paulo Cogo especial para o Homorrealidade
As concepções científicas sobre as orientações sexuais e identidades de gênero não heterossexuais convencionais têm sido alteradas substancial e sistematicamente nas últimas décadas, com a emergência de um discurso científico cada vez menos estigmatizante e mais inclusivo. Esta nova realidade na área de estudos sobre o comportamento sexual humano é resultado de um acúmulo crescente de estudos e publicações científicas que divulgam e defendem uma visão não patológica e legitimadora das orientações sexuais não tradicionais, vistas como formas naturais e espontâneas de expressão da sexualidade humana, assim como a heterossexualidade.
No campo da psicologia científica, esta perspectiva emergente é denominada de afirmativa e tem sido corroborada pelos estudos e pela experiência clínica dos terapeutas que atuam especificamente junto ao público LGBTQI, seus familiares, companheiros e amigos. Talvez uma das descobertas mais importantes nestes estudos resida na constatação da presença da homofobia internalizada, ou seja, da rejeição, na maioria das vezes inconsciente, por parte dos terapeutas que trabalham com este público em relação às orientações sexuais e identidades de gênero não convencionais expressas por seus pacientes durante o processo terapêutico. A expressão homofobia internalizada utilizada em seu sentido específico indica a fobia em relação às orientações sexuais homossexuais, masculina ou feminina. No sentido amplo, a mesma expressão tem sido usada como sinônimo de fobia, medo, rejeição, negação a qualquer tipo de orientação sexual não tradicional, ou seja, é uma espécie de expressão “guarda-chuva”, tal como a palavra “gay”, e inclui toda e qualquer expressão do comportamento sexual não tradicional. A sua utilização no sentido amplo não está errada, mas hoje foram criadas outras expressões, tais como lesbofobia, transfobia, bifobia, para indicar fobias específicas a cada tipo de orientação sexual e/ou identidade sexual e/ou identidade de gênero não convencional, ou ainda, expressões como homolesbofobia, homolesbobifobia, homolesbotransfobia, homolesbobitransfobia, que foram criadas em uma tentativa de expressar o maior número de fobias em uma mesma palavra. A homolesbobitransfobia internalizada é resultado da homolesbobitransfobia social, que traduz a rejeição ou medo irracional da sociedade em relação às orientações sexuais e identidades de gênero não convencionais, assim como a homolesbobitransfobia institucional é a tradução desta fobia na dimensão dos valores e práticas sociais e culturais, ou seja, no nível das normas formais e informais que regulam a vida em sociedade, e a homolesbobitransfobia familiar é a versão desta fobia no núcleo do funcionamento e da dinâmica das famílias.
A homofobia internalizada dos terapeutas que trabalham que com o público LGBTQI de acordo com os estudos de referência sobre o tema sempre existe, de alguma forma e em algum nível. Cabe a cada terapeuta reconhecer esse fenômeno e buscar entender suas razões, a fim de eliminá-lo para que não interfira negativamente na condução dos processos terapêuticos com os pacientes LGBTQI. Os estudos indicam que a presença da homofobia internalizada no psiquismo do terapeuta se manifesta na forma de uma compreensão limitada da identidade de seus pacientes, assim como leva inevitavelmente os psicólogos ao desenvolvimento de interpretações e intervenções enviesadas, heterossexistas e heteronomartivas que não ajudam seus pacientes na construção e afirmação de uma identidade positiva. Dessa forma, o reconhecimento e combate da homofobia internalizada é um pré-requisito essencial para que um psicólogo possa atuar eficazmente dentro da abordagem proposta pela terapia afirmativa, requisito este integrante da didática afirmativa, ou seja, do conjunto de princípios científicos, técnicos e éticos indispensáveis que embasam a formação e atuação do terapeuta afirmativo, tendentes a rever as concepções tradicionais sobre a sexualidade humana e suas expressões na sociedade. Essas revisões dizem respeito principalmente à busca de uma compreensão mais abrangente do desenvolvimento da sexualidade humana em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectuais, afetivos e culturais, bem como de um conhecimento maior sobre as diferenças individuais, as necessidades dos indivíduos ao longo do seu ciclo de desenvolvimento, os mecanismos da formação das identidades sexual e de gênero, o papel da aprendizagem, e a importância dos fatores ambientais, culturais e sociais na vida de cada ser humano. Para a terapia afirmativa, as identidades não heterossexuais convencionais são expressões naturais, espontâneas e positivas do amplo espectro da sexualidade humana, em nenhum aspecto inferiores ou menos maduras que a identidade heterossexual tradicional.


*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.


Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.


 Especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e Especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.


Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda, e Administração na área de Gestão de Pessoas.


Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).
Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.


Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.


Também atuou como empresário na área de Gestão de Pessoas e colunista de uma empresa de consultoria na área de Projetos Organizacionais.


Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.


É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.




 

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