23/06/2015

"TERAPIA AFIRMATIVA: UMA PSICOTERAPIA DA DIFERENÇA – PARTE 02" Por Paulo Cogo


Por *Paulo Cogo especial para o Homorrealidade
 
O acúmulo cada vez maior de evidências clínicas oriundas do atendimento a pacientes homossexuais, bissexuais, assexuais, pansexuais e transgêneros, que caracteriza a terapia afirmativa, tem permitido uma compreensão mais aprofundada da forma como ocorre o desenvolvimento das orientações sexuais predominantemente não heterossexuais convencionais. A clínica afirmativa tem revelado também a importância de ser feita uma distinção entre “atividades não heterossexuais convencionais” e “identificações não heterossexuais convencionais”, uma vez que comportamentos de exploração sexual com parceiros do mesmo sexo, orientações sexuais não heterossexuais convencionais, ou com pessoas que possuem identidades de gênero não heterossexuais tradicionais são muito comuns na adolescência ou no início da fase adulta. A realização destas práticas, na maioria das vezes, não está relacionada com a presença de uma orientação sexual não tradicional. A culpabilidade, normalmente associada a estas experiências exploratórias sexuais não convencionais, uma vez que os adolescentes são particularmente sensíveis em relação a sua sexualidade, pode levá-los a uma falsa identificação ou a uma identificação precoce como pessoas não heterossexuais convencionais, ou seja, a crença de que a realização de atividades sexuais com pessoas que possuem orientações sexuais não heterossexuais convencionais é indicadora de uma orientação sexual definitiva em suas vidas. No caso dos adolescentes heterossexuais masculinos a presença de uma gestualidade e um comportamento feminino, ou que não corresponda aos estereótipos tradicionais da masculinidade, assim como, para as adolescentes heterossexuais femininas a presença de gestos masculinos, ou o não enquadramento ao comportamento feminino tradicional, pode contribuir para rotular socialmente os indivíduos como não heterossexuais convencionais, o que é problemático, pois tem levado muitos jovens a uma ideia precoce de si próprios como possuidores de uma orientação sexual não heterossexual tradicional, o que nem sempre é o caso, ou ainda, inibido, eventualmente, o processo saudável de exploração sexual necessário à construção de uma identidade sexual. O fato de uma pessoa do sexo biológico masculino ter tido experiências sexuais prazerosas ou satisfatórias com pessoas do mesmo sexo, assim como a utilização de roupas masculinas ou a presença de um gestual masculino por pessoas do sexo biológico feminino, não assinala necessariamente que elas são homossexuais. Ainda não existe um consenso científico na psicologia a respeito do que determina a orientação sexual de um indivíduo, porém se sabe que ela não pode ser modificada com terapias, não é uma escolha, e, principalmente não é uma patologia. Assim, o termo orientação sexual é mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual porque opção indica que uma pessoa teria escolha sobre o seu desejo sexual. A orientação sexual é influenciada, e não determinada, por fatores biogenéticos, tais como questões hormonais in utero e genes que provavelmente estão envolvidos nesta predisposição. Um número cada vez maior de pesquisas tem identificado estes fatores biológicos que podem estar relacionados ao desenvolvimento da orientação sexual, incluindo genes, hormônios pré-natais e a estrutura do cérebro humano. Porém, nenhuma causa única foi identificada até então e a pesquisa continua nesta área. Apesar de que ainda não haja consenso sobre como e quando são formadas as estruturas cerebrais responsáveis pela identidade de gênero, isto é, se nascem com a criança ou se elas se desenvolvem na puberdade, ou ambos, é consenso que o hipotálamo apresenta diferenças estruturais e fisiológicas entre homens heterossexuais, homens homossexuais, transexuais de homem para mulher, transexuais de mulher para homem, mulheres heterossexuais e mulheres homossexuais, com relação à identidade sexual e atração sexual.

Importantes evidências indicam que diferenciação sexual do cérebro humano ocorre durante desenvolvimento fetal e neonatal, e programam a identidade de gênero e o sentimento de ser homem ou mulher, assim como a orientação sexual. Durante o período pré-natal, por meio de uma ação direta da testosterona sobre as células nervosas em desenvolvimento, o cérebro sofre masculinização, ou feminização por meio da ausência deste de hormônio. Desta forma, a identidade de gênero, ou seja, a convicção de ser homem ou mulher, e a orientação sexual são programadas ou organizadas em nossas estruturas cerebrais quando estamos ainda no útero. Não há nenhuma indicação de que o ambiente social após o nascimento tenha algum efeito relevante sobre a identidade de gênero ou sobre a orientação sexual.

Estudos demonstraram uma diferenciação do hipotálamo em homens e mulheres heterossexuais, e um padrão atípico, quase invertido, em homens e mulheres homossexuais. Em artigos recentes sobre o tema são relatados que as relações hemisféricas, bem como os padrões de conectividade com a amígdala, são atípicas em indivíduos homossexuais, exibindo padrões mais parecidos com de mulheres heterossexuais do que homens heterossexuais, assim como mulheres homossexuais apresentam padrões parecidos mais com homens heterossexuais do que com mulheres heterossexuais.

Assim, a visão que tem sido mais predominante hoje é a de que a orientação sexual é biológica por natureza, influenciada por um complexo jogo de fatores genéticos e desenvolvimento intra-uterino. A orientação sexual seria estabelecida na concepção, portanto não podendo ser considerada uma escolha, isto é, as pessoas não optam por serem hetero, homo, bi, pan ou assexuais. Não há evidência suficiente para suportar a visão de que experiências na infância, criação, presença de abuso sexual ou outros efeitos adversos influenciem a orientação sexual. Contudo, outro conjunto de estudos indica que existe uma grande influência da reação dos pais sobre o desenvolvimento da orientação sexual. As atitudes dos pais em relação à orientação sexual afeta como os filhos experimentam comportamentos relacionados socialmente a certa orientação. Não existe também uma relação direta entre as orientações sexuais não heterossexuais convencionais e dinâmicas familiares problemáticas, assim como elas não podem ser consideradas como o resultado de um desenvolvimento psicológico imaturo. Existe um consenso hoje de que associar o desenvolvimento de orientações sexuais não convencionais a reações dos indivíduos a sistemas familiares disfuncionais, violência sexual ou repressão é uma demonstração de uma visão heteronormativa e heterossexista da sexualidade humana, além de configurar preconceito explícito.
 
*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.

Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.

 Especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e Especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.

Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda, e Administração na área de Gestão de Pessoas.

 Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).

 Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.

 Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.

 Também atuou como empresário na área de Gestão de Pessoas e colunista de uma empresa de consultoria na área de Projetos Organizacionais.

 Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.

 É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
 

Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.

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