Casal homoafetivo adota três filhos através de programa da Prefeitura


Visto no O Dia
De Angélica Fernandes

O feito acontece pela primeira vez nos nove anos do Projeto Família Acolhedora

Elas só queriam um filho, mas ganharam três, inclusive uma bebê de 1 ano. Casadas há seis anos, Zuleica Rodrigues de Melo e Mariangela dos Santos Reis são pioneiras no Projeto Família Acolhedora, da Prefeitura do Rio, como o primeiro casal homoafetivo a adotar temporariamente crianças em situação de vulnerabilidade. O programa, por onde já passaram 2.900 pessoas, completa nove anos. 

A família de Zuleica e Mariangela começou a crescer com a chegada de Maria, de 13 anos. Depois de peregrinar por dezenas de abrigos e até viver na rua, há dois anos a adolescente enfim encontrou um lar definitivo. “Ela é uma aborrecente completa. Começamos nossa experiência de mãe com pé direito”, brincou Zuleica. O casal já conseguiu a adoção definitiva da menina e agora batalha pela guarda do outro filho adotivo, de 15 anos, o segundo da dupla. “Ele já ficou na nossa casa antes, com a irmã, de 12 anos, mas teve que retornar para o abrigo. Na época, choramos dia e noite pela falta dele”, explicou Mariangela.

Em julho do ano passado, o adolescente voltou a ser acolhido por elas. “Ele já é nosso filho, não tem jeito”, apontou Zuleica, que se orgulha pela criação do menino. “Ele chegou aqui cheio de problemas. Bebia e fumava quando era criança. Hoje, ele é um outro menino e até trabalha como jovem aprendiz”, completou.

A integrante mais recente da prole é um bebê, de 1 ano. Sua chegada na família foi de supetão. “Estava no shopping, meu celular tocou e era a assistente social perguntando se eu poderia acolher uma criança de 1 ano. Nem tive tempo de respirar. Disse logo que sim”, relembrou Zuleica. No dia seguinte, lá estava a menina na casa delas. “Nunca cuidei nem de sobrinho. Sempre achei que eu não tinha dom para ser mãe e essas crianças me ensinaram o contrário”, desabafou Mariangela.

Como toda família, a rotina na casa do casal também tem regras. Há revezamento para limpeza e hora certa dos estudos, mas a diversão também é garantida. “Fazemos nossa bagunça. Saída em casal, nem pensar. Quando vamos para rua, levamos todo mundo”, contou Mariangela, contente.

Com a família completa, o novo sonho das duas é sair do pequeno apartamento onde moram em Deodoro e construir uma casa para dar mais conforto a todos. “Daria até para adotar mais crianças”, brincou Zuleica, que encara as críticas com muito otimismo. “Dizem que somos malucas por colocar pessoas estranhas em casa. Eles não são estranhos, são nossos filhos”, rebateu a mãe adotiva. 

Muito amor e carinho para vencer o sofrimento dos filhos no passado 

Por trás das crianças adotadas por Zuleica e Mariangela, estão histórias de muito sofrimento. A mãe da bebê de 1 ano, que foi adotada temporariamente pelo casal, perdeu a guarda da criança duas vezes. “O juizado afirma que ela (a mãe biológica) não tem condições de criar ninguém. Por isso, nós sentimos o dever de dar muito amor a este bebê”, declarou Zuleica.

Apesar da pouca idade, a vida de Maria também tem traços cruéis. Por causa do abandono da mãe, ela foi obrigada a se separar dos oito irmãos, mas graças ao empenho das novas mães, Maria está reencontrando sua família biológica. “Achamos um na internet, o outro foi através de amigos e aos poucos ela está encontrando os irmãos”, explicou Zuleica. O outro filho adotivo também se separou da irmã de 12 anos, que vive no abrigo. “É muito difícil de se adaptar às regras”, completou. 

Adotados estão felizes e orgulhosos 

Se as mamães adotivas estão radiantes com os novos filhos, a prole também se sente lisonjeada. Maria confessa que, no início, tinha vergonha de dizer aos colegas que era criada por duas mães. Mas agora, ela faz questão de contar para todos. “Tem gente que não entende e eu explico que elas são casadas e são minhas mães”, contou Maria.

O adolescente de 15 anos também se orgulha das mães e faz questão de dar muito carinho a elas. “Eu amo as duas de verdade”, afirmou. Para dar conta dos filhos, o casal assume papéis diferentes. “Eu sou o pai carrancudo e a Zuleica é a mãe exigente”, explicou Mariangela.

Atualmente, 210 crianças e adolescentes estão temporariamente com 118 famílias. O programa credencia pessoas até os 18 anos, vítimas de violência doméstica ou em situação de vulnerabilidade. Para cuidar dos filhos, cada família recebe uma bolsa que varia de dois a cinco salários mínimos.

Qualquer um pode se inscrever pelo telefone 2976-1527. “O Projeto Família Acolhedora representa a continuidade da convivência familiar em um ambiente sadio e seguro”, definiu o secretário de Desenvolvimento Social, Adilson Pires.

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