24/07/2015

Professora alega ter sido demitida de escola por ser transexual


Visto no G1

Uma professora de filosofia acusa um tradicional colégio particular da Grande São Paulo de demiti-la em junho deste ano por preconceito após ela revelar, no fim do ano passado, que é uma transexual (veja vídeo da professora aqui).

A escola negou a acusação de que a demissão tenha sido motivada por discriminação. O Anglo Leonardo da Vinci informou ao G1 que demissão da professora foi motivada "por problemas de ordem profissional", sem detalhar os motivos do desligamento.

De 2009 a 2013, a educadora de 35 anos, formada pela Universidade de São Paulo (USP), dava aulas no colégio inicialmente como Luiz Otávio Pereira Coppieters. Em 2014, porém, ela contou aos alunos que o professor Luizão era, "na verdade", Luiza. A transição entre os gêneros havia se tornado pública em novembro passado, quando ela postou uma foto maquiada no Facebook, o que aguçou a curiosidade dos estudantes.

"Eu era o Luizão, o ogro do Anglo, para você ter uma idéia o nível que eu cheguei lá”, disse a professora. "Na terceira turma tinha um moleque mais solto e: ‘ô, Luizão, que que é aquele seu pseufacebook lá?' 'Ah, então vocês querem saber. É o seguinte: eu sou transexual. O tio Luiz na verdade é tia Luiza'", disse.

A partir deste momento, saiu de cena Luiz e entrou a professora Luiza. “Na verdade não é que eu me descobri transexual. Foi uma coisa assim: eu não aguento mais viver como homem”, afirmou. “Eu passei minha vida inteira, milhares de noites, sem dormir, querendo acordar mulher, acordar menina. Sempre tive essa angústia".

Ela então começou a ser tratada pelo feminino dentro do colégio: Luiza. Abandonou as roupas masculinas usadas para esconder os seios, que despontavam em razão do uso contínuo de hormônios que vinha tomando desde 2012 (ela não fez cirurgia de mudança de sexo). Passou a dar aulas com cabelos compridos e soltos, sobrancelhas feitas, batom, maquiagem, esmalte, calçados e vestuário de uma mulher comportada.

“Foi muito legal que, na semana seguinte, ninguém tocou no assunto. Os alunos começaram a trazer lá o texto do Platão sobre o Sócrates ou comentadores que eu passo para eles lerem e começaram a trazer os livros”, lembrou Luiza.


Professora mostra foto na qual aparece como Luiz, 
o professor Luizão (Foto: Victor Moriyama / G1)

Demissão

Em 24 de junho deste ano, no entanto, ela conta que foi demitida sem justa causa da escola por meio de uma carta. Acabou desligada das unidades Alphaville, em Barueri; Granja Viana, em Cotia; Osasco e Taboão da Serra. Apesar de ter tido o apoio de estudantes e até dos pais deles, Luiza afirmou que a escola não aceitou a sua transição de gênero e a demitiu.

“Não tem justa causa. Eu não tenho advertência. A alegação foi que eu atrasava nota, podia não fazer um diário, né? Mas isso não era só comigo”, disse ela. "Eu acho...[que o motivo da demissão foi] por transfobia. Transfobia. Para mim foi preconceito. Eu acho que duas coisas: de um lado o preconceito, mas associado com interesse econômico. Medo de perder aluno, por exemplo”, acredita.

Luiza falou que passou a sofrer pressão desde que se tornou uma 'mulher transexual lésbica'. “Minha orientação sexual é voltada para as mulheres, né? O meu desejo pelas mulheres, né? Então, pelo fato de deu gostar de mulher e querer ser mulher sempre foi muito confuso”, disse a professora, que, antes da demissão, teve sua carga horária reduzida no Anglo e foi afastada das turmas do primeiro ano. Seu salário diminiu.

“Nessa conversa [com o Anglo] falaram o seguinte: você não vai falar mais sobre gênero, sobre sexualidade”, disse Luiza, que em 2013, quando era o professor Luizão, chegou a ganhar uma placa do colégio em reconhecimento pelo trabalho.

“Eu me senti discriminada”, falou a professora, que soube da demissão após voltar de uma licença médica em razão da depressão adquirida na escola. “Eu tirei porque eu cheguei a ficar com uma síndrome do pânico. Não conseguia sair de casa”.

Redes sociais
Nas redes sociais, alunos e pais chegaram a demonstrar apoio a Luiza. Uma foto postada no Facebook representa bem a reação deles. "Nos ensinam a ser humanos e nos tratam como animais. Contra a transfobia", escreveram os estudantes numa lousa do Anglo.

"Fui aluna da Luiza durante meus três anos de ensino médio. Ou melhor, do Luizão nos dois primeiros e da Luiza apenas no terceiro", declarou Letícia Meirelles, de 18 anos, que atualmente faz cursinho no Anglo. "Curiosamente, somente em 2014, quando 'Luizão' se assumiu 'Luiza' para seus alunos, suas aulas melhoraram de forma extrema."

Facebook de Luisa Coppieters compartilha foto que alunas tiraram 
da lousa do Anglo (Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal / Facebook)

Para a professora Neiva Salete, de 51 anos, Giovanna Orlovski Nogueira, de 16, sua filha, passou a demonstrar mais interesse nas aulas de filosofia quando foi aluna de Luizão e Luiza. “O que me chamava a atenção era que minha filha lia textos nas aulas da época que eu estava na faculdade. Nesse período ela foi questionadora e reflexiva."

“O preconceito a gente sabia que ia vir, disseram que ela estava afastada, mas todos presumiam que ela seria demitida pela transição de homem e mulher", afirmou Giovanna.

Um porteiro da unidade Alphaville também elogiou Luiza. Sob a condição de não dar seu nome, ele falou que ela é uma "ótima professora, sempre pontual e querida por todos."

Para tentar reverter a demissão e voltar a dar aulas no Anglo, Luiza contratou dois advogados trabalhistas. “Eu não vejo fazendo outra coisa a não ser dar aula. É da minha essência assim. eu percebi, né? Não falo de dom, de vocação. Acho que é treino, estudo. Eu li bastante coisa para poder falar, né?”, disse ela.

Professora Luiza Coppieters na sala de aula com alunos
 (Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal / Facebook)

A professora também alega ter procurado o Ministério Público do Trabalho (MPT). “Eu estou entrando, entrei. Eu fiz uma denúncia no Ministério Público do Trabalho. Estou entrando também com uma ação trabalhista”.

“No entendimento jurídico caracteriza a discriminação por preconceito", disse a advogada Alessandra Falkenback de Abreu Parmigiani. Ela e o advogado Luciano Tambelli estão defendendo os interesses de Luiza. “Eu considero que a dispensa teve cunho discriminatório”.

Os advogados, no entanto, ainda analisam quais providências irão tomar em relação a eventuais ações trabalhistas contra o Anglo. “É preciso aguardar a homologação da demissão antes”.

Outro lado

Procurado pelo G1, o Anglo não quis gravar entrevista em vídeo. Se posicionou aos questionamentos da equipe de reportagem por meio de nota. Informou, por exemplo, que a demissão da professora foi motivada por problemas de ordem profissional.

“A professora foi demitida por questões profissionais, ligadas ao cotidiano de aulas, compromissos burocráticos e éticos”, informa trecho do e-mail enviado pela coordenador da escola, Wagner Dias. “Não foi demitida por discriminação nem transfobia”.

Wagner informou, no entanto, que não entraria em detalhes sobre os motivos da demissão de Luiza. "Para não criar constrangimento à professora", informou o coordenador. "No seu processo de escolha de gênero a escola a acolheu e procurou juntos com demais professores, funcionários e alunos, apoiá-la".

Anglo Alphaville: professora foi demitida em junho deste ano (Foto: Victor Moriyama / G1)


De acordo com o coordenador, o Anglo é contra a transfobia. "Desde os anos 80 vários profissionais e alunos que passaram pela escola apresentavam opções diferenciadas e foram apoiados e valorizados", escreveu Wagner.

O Anglo também negou que a professora tenha sido impedida de falar sobre questões de gênero em sala de aula. "Jamais a professora foi censurada em levantar tais temas. Inclusive este tema chegou a ser abordado em avaliação, dentro do tema da filosofia".

A nota do colégio termina com a seguinte frase: "as portas da escola estarão abertas a ela, sem qualquer restrição".

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