02/07/2015

"TERAPIA AFIRMATIVA: UMA PSICOTERAPIA DA DIFERENÇA – PARTE FINAL" Por Paulo Cogo

 
Paulo Cogo para o Homorrealidade

Em uma sociedade como a brasileira, ainda fortemente heterocentrada e heteronormativa, ou seja, centrada na orientação sexual e identidade de gênero heterossexual convencionais, a experiência da constatação e vivência da diferença sexual é para as pessoas LGBT normalmente difícil e dolorosa.
 
Na medida em que ainda existem poucos modelos positivos de pessoas LGBT na comunidade, nos grupos de pertença ou nas famílias, com os quais eles podem se identificar durante a descoberta e o desenvolvimento da sexualidade, esse processo é sempre conflitivo. A conotação social das orientações sexuais não heterossexuais convencionais com a feminilidade, por exemplo, por grande parte da nossa sociedade interfere na construção da fobia internalizada das pessoas LGBT em relação à própria orientação sexual. Neste contexto, ser uma pessoa LGBT comumente é vivenciado como “não ser completamente homem ou mulher”, o que atesta a internalização da fobia em relação à orientação sexual no autoconceito da pessoa LGBT, com consequências negativas evidentes na sua auto-estima. A fobia internalizada em relação à própria orientação sexual, enquanto sistema de crenças negativas e culpabilizantes sobre as orientações sexuais não heterossexuais convencionais, interfere negativamente no desenvolvimento de uma identidade não heterossexual convencional positiva, uma vez que desencadeia uma considerável ambivalência na aceitação pessoal da diferença sexual.
 
A legitimação das orientações sexuais não convencionais enquanto modalidades de relacionamentos amorosos possíveis e saudáveis assume, consequentemente, fundamental importância ao longo de um processo terapêutico dentro da abordagem afirmativa. Se isso não ocorre os pacientes LGBT acabam formando uma série de defesas e fantasias negativas em relação à própria sexualidade. Característico desta situação são os casos dos pacientes que revelam um considerável negativismo em relação à descoberta e vivência da sua orientação sexual, identidade sexual e/ou identidade de gênero, atribuindo a elas um caráter de anormalidade, vergonha ou culpa. Outros, por não conseguirem reconhecer e aceitar conscientemente a própria orientação sexual como algo normal e aceitável passam a justificar a rejeição ou violência familiar a que são submetidos como algo compreensível, afinal de contas “a maioria das pessoas é heterossexual” e outras formas de vivência da sexualidade neste contexto seriam consideradas “desvios”.
 
Ou seja, a exposição sistemática e permanente das crianças e adolescentes LGBT a modelos sociais estigmatizantes frente às orientações sexuais não heterossexuais convencionais contribui, sem dúvida, para o desenvolvimento da fobia que internalizam em relação a sua orientação sexual na vida adulta. Nestes casos, cabe ao psicólogo afirmativo ajudar os pacientes LGBT a reconhecer, analisar e confrontar a fobia que internalizaram em relação à própria sexualidade, através de uma perspectiva positiva, apreciativa e não heteronormativa da sexualidade humana.
 
Confrontar a legitimidade da ideologia social da homolesbobitransfobia a que as pessoas LGBT são diariamente submetidas no contexto do espaço terapêutico é um passo essencial para ajudar estes pacientes na construção de uma identidade positiva e apreciativa na sociedade. Assim, para as pessoas LGBT aceitar a própria orientação sexual passa necessariamente pela aceitação pessoal da validade, legitimidade e normalidade da diferença sexual e pela sua integração no autoconceito. Neste sentido, é função do psicólogo afirmativo apoiar os pacientes LGBT no processo de reconhecimento e aceitação pessoal da orientação sexual que emerge como um objetivo central do processo psicoterapêutico. Também cabe ao psicólogo propiciar neste processo uma base segura para que os pacientes LGBT façam a transição de um estado de confusão da identidade para um nível mais complexo, rico e auto-organizado de si próprios.


*PAULO COGO é psicólogo graduado e licenciado pela UFRGS, atuando nas áreas clínica e organizacional. Tem consultório próprio e um espaço específico para o desenvolvimento de trabalhos na área organizacional. Além da Psicologia, é formado em Direito pela PUCRS, tendo realizado o curso de preparação à magistratura da AJURIS e atuado como advogado. É também graduado em Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda pela PUCRS.


Doutor em Sociologia do Trabalho e das Organizações e Mestre em Sociologia da Cultura, ambos pela UFRGS.


 Especialista em Administração de Recursos Humanos pela PUCRS e Especialista em Psicologia Transpessoal pela Unipaz-Sul.


Possui grande experiência como professor universitário de graduação e pós-graduação, especialmente nas áreas da Psicologia, Comunicação Social na área de Publicidade e Propaganda, e Administração na área de Gestão de Pessoas.


Atuou como professor de graduação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Faculdade Porto-Alegrense de Ciências Contábeis e Administrativas (FAPA) e Escola Superior de Administração, Direito e Economia (ESADE).
Atua como professor de pós-graduação do curso de Especialização em Marketing e Inovações, onde ministra a disciplina “Comportamento do Consumidor e Consumidor Digital”, do curso de Especialização em Gestão de Pessoas, onde ministra a disciplina “Gestão do Relacionamento”, ambos na UCPEL (Universidade Católica de Pelotas), e do curso de Especialização em Gestão de Pessoas da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves (CNEC), onde ministra a disciplina “Comportamento Organizacional”.


Na área acadêmica publica artigos científicos nas áreas do Comportamento Organizacional, Gestão de Pessoas e Planejamento e Gestão de Carreira, possuindo um verbete sobre Trajetórias Profissionais no Dicionário de Tecnologia e Trabalho.


Também atuou como empresário na área de Gestão de Pessoas e colunista de uma empresa de consultoria na área de Projetos Organizacionais.


Atua há mais de vinte anos como psicólogo clínico, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa, auxiliando, especialmente as pessoas do grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis) na construção e afirmação de uma identidade de gênero positiva e afirmativa, e também como personal coaching, na área de Planejamento e Gestão de Carreira, onde desenvolve um trabalho especialmente voltado à colocação dos profissionais LGBT no mercado de trabalho.


É um dos psicólogos pioneiros na área da Psicologia e Psicoterapia Afirmativa no Brasil.
Atualmente é colunista de diversas revistas e sites que tratam de temas ligados ao comportamento das pessoas que constituem o grupo LGBT.
 

 

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