Veja dez personagens LGBT da literatura que viraram héteros no cinema


Visto no O Chaplin

A gente bem sabe o quão difícil é de se encontrar nos filmes personagens LGBTs que retratem as pessoas nas suas mais diversificadas formas e que não reproduzam estereótipos sociais. Assim, na maioria das vezes as adaptações cinematográficas acabam por “heteronormatizar” cenas, personagens e até mesmo casais gays.

Quando se adapta um livro para o cinema, mudanças são feitas em nome da fluidez do roteiro, o que não é novidade. Novidade mesmo é a onda de representatividade (ainda insuficiente, diga-se de passagem) LGBT nas telonas, já que a LGBTfobia era/é carta marcada no meio. Hollywood ao contrário do que se pensa, pode ser ilustrada por histórias bizarras de discriminação. No entanto, a literatura foi sempre mais compreensiva e aberta a temáticas de gênero e orientação sexual, fazendo a vida dos roteiristas ainda mais difícil. Pensando nisso montamos uma lista de 10 personagens LGBT heteronormatizados pelo cinema.

Paul Varjak, Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s)

“Miga, olha a mala do boy!”

Na literatura: no livro de Capote, Holly Golightly frequentemente se refere a Paul como “Maude”, o que significava “michê” na comunidade LGBT americana da época. Isso fez como que muitos leitores o vissem como o melhor amigo gay de Holly.

No cinema: Holly e Paul possuem uma relação totalmente diferente na adaptação, tornando-os num dos maiores casos de amor de Manhattan da história do cinema. O roteirista do filme, George Axelrod, escreveu:

“Nada aconteceu no livro. Tudo o que tínhamos era essa garota maravilhosa, o papel perfeito para Audrey Hepburn. O que tivemos de fazer foi mudar um pouco a história, colocar um relacionamento romântico no centro, e fazer do herói um hétero sangue puro.” (Tradução livre)

Pussy Galore, 007 contra Goldfinger (Goldfinger)

“Lá vem o macho alfa.”

Na literatura: no livro de Ian Fleming, Pussy Galore comanda um grupo de assaltantes lésbicas, o Meow. O fato de James Bond acabar dormindo com ela é para apenas “provar” que ele pode “conquistar” qualquer mulher, gay ou hétero.

No cinema: no filme de 1964, Pussy Galore não só se torna hétero, como também loira.


Cabo Fife e Soldado Bead, Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line)

“Quanto você disse?”

Na literatura: durante o campo de batalha da Segunda Guerra Mundial, Fife e Bead são bem próximos e ajudam um ao outro a liberar suas urgências sexuais. O autor James Jones disse:


“Bead, ao descobrir que não fora rejeitado, agora mais confiante na sua voz e na sua paquera. Aparentemente para ele não tinha diferença ou pouco o preocupava que estivesse sugerindo algo homossexual. Assim, logo que ele começou a engatinhar para o lado de Fife na pequena tenda ele parou e disse: ‘Eu só não quero que penses que sou bicha ou algo do tipo.'”

No cinema: no filme de 1998, Fife e Bead, nunca compartilharam dessa intimidade.


Justin McLeod, O Homen Sem Face (The Man Without a Face)

“Para, miga.”

Na literatura: o homem desfigurado foi escrito originalmente como sendo gay, no livro de Isabelle Holland (1972).

No cinema: dirigido e estrelado por Mel Gibson, o filme de 1993 gerou polêmica por ser lançado pouco depois do ator fazer declarações anti-gays numa revista americana. Como de se esperar, o relacionamento do protagonista com um jovem foi isento de homossexualidade.


Ruth e Idgie, Tomates Verdes Fritos (Fried Green Tomatoes)

“Bebe, amor, as lágrimas do patriarcado.”

Na literatura: o livro é basicamente sobre o romance entre as duas personagens principais.

No cinema: na adaptação Idgie e Ruth são só amigas bem próximas. Muito próximas.


Ben, Ben-Hur

“Passado…”

Na literatura: o roteirista Gore Vidal tentou de todas as maneiras correlacionar romanticamente o personagem principal, Ben, com seu amigo Messala, baseando-se no script original de 1880.

No cinema: já nas telonas o ator Charlton Heston (Ben) e o diretor William Wyler rejeitaram a ideia de Vidal e manteve-se a trama a mais hétero possível.


Celie Johnson, A Cor Púrpura (The Color Purple)

“Aí disseram que a gente precisava de homem!”

Na literatura: no romance de Alice Walker, Celie e Shug compartilham fortes laços emocionais e sexuais.

No cinema: na adaptação de Steven Spielberg (1985) as personagem não trocam mais que um selinho bem inocente. Whoopi Goldberg, que interpreta Celie, disse na ocasião que o filme não era sobre feminismo ou lesbianismo, mas sim sobre ter a mente aberta para entender certas coisas. O depoimento gerou bastante controvérsia, já que na trama Celie descobre o amor e carinho pelas mãos de outra mulher, chocando a forma patriarcal de ver o mundo.


Rorschach, Watchmen

“Olha minha reação quando falam mal da Madonna.”

Na literatura: o autor Alan Moore sempre descreveu o personagem como tendo uma certa queda por seu parceiro, Nite Owl. Nunca foi explícito, porém bem especulado pelos fãs da saga

No cinema: não houve tempo no filme para se falar do romance especulado somente nos quadrinhos.


Brick Pollitt, Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof)

“Ele só queria nudes.”

Na literatura: na peça de Tennessee Williams, o típico herói e atleta americano, Brick, se transforma em um alcoólatra que não dorme mais com sua mulher após seu amigo Skipper cometer suicídio. Por causa disso, os expectadores da peça foram levados a imaginar que a relação dos dois era muito mais próxima do que isso.

No cinema: nas telonas Brick é interpretado por Paul Newman, que ainda afoga as mágoas na bebida. Mas dessa vez ninguém sabe porque ele fica assim, triste e amargurado.


Abraham Lincoln, Lincoln

“Nada contra, mas o que?”

Na literatura: o biografo Carl Sandburg escreveu em 1926 que o ex-presidente americano era um pouco afeminado e que seu companheiro de quarto, Joshua Speed, era mais que um companheiro.

No cinema: o roteirista do filme de Spielberg, Tony Kushner, disse que há motivos sim para se acreditar na bissexualidade ou homossexualidade de Lincoln, porém romance, em qualquer que fosse sua forma, não era o foco da película.

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