Artigo: Querido gay bonito, pare! Tá feio!


Visto no Portal Fórum
Artigo de Fabrício Longo

Quem é “o gay” que vem dominando o imaginário popular? Depois que a figura da “bichinha” foi ainda mais marginalizada, agora por um verniz politicamente correto, temos um “tipo de gay” que é mais palatável: é jovem e é bonito. Além disso, exibe dentes brancos e barriga trincada em praias europeias, usa roupas de marcas famosas, e radicaliza o conceito de “amor entre iguais” ao namorar uma cópia de si. Sério, que tipo de monstro narcisista estamos criando?

Nada contra a beleza padrão, tenho até amigos que são. Malhado nunca fui, mas para alguns estou “no padrão” também. Tudo bem, beleza. A gente faz o que pode. O problema é quando os “belos” usam essa suposta superioridade para diminuir os outros, e o quanto esses outros estimulam isso ao endeusar certos tipos de pessoa. Afinal, o maior “crime” que um gay pode cometer é tornar-se algoz de seus iguais, já que na viadagem somos todos um.

Altos, baixos, gordos, magros, peludos, lisos, cabeludos, carecas, másculos, afeminados, daddies, twinks, ativos, passivos, gouines, malhados, nerds, mestrandos, doutorandos, casados, promíscuos… Tudo viado, tudo bicha, tudo boiola. Não é assim que todo “homem que gosta de homem” é chamado, não importando rótulos, auto identificação, movimentos sociais, orgulhos e armários? Não é a homossexualidade, em sua qualidade de estigma social, que nos coloca sob o mesmo arco-íris e abaixo do ideal de masculinidade da sociedade “externa” e que se considera tão “normal”?

Um exemplo do problema foi o comentário de Harry Louis em sua conta do Instagram. Na foto, ele e seu namorado exibiam as barrigas saradas em frente à Torre Eiffel. Ao ser questionado sobre a necessidade disso, baixou o nível falando em gominhos abdominais e chamando os outros de “pão com ovo” e “mal comido” porque né, para Harry é óbvio que uma pessoa gorda deseja ser como ele. E se diz que não, é porque não consegue.

Bicha, menos. Bem menos!

Certamente que Harry já foi alvo de algumas críticas maldosas. Seu passado como ator pornô e a antiga relação com o estilista Marc Jacobs, além do exibicionismo e do consumismo expostos em suas redes sociais já foram alvo do moralismo e talvez até da inveja de nosso “mundinho”. Como esquecer, também, de quando o “ativo bem dotado” virou motivo de chacota porque “deu muita pinta” em uma entrevista? No fim das contas, se o cara é fútil ou não, se mostra o corpo sem necessidade, se é narcisista, se é pintudo, se é feio ou se é bonito, é tudo problema dele. Segue quem quer, bate palma quem quer. Mesmo não se tratando de uma grande celebridade, se posta algo na internet vai ser julgado pelo tribunal implacável da pós-modernidade, e obviamente que para o “gay padrão” os elementos analisados são esses signos de valor – corpo, dinheiro, pica, barba – tão aplaudidos em nossa cultura. E essa é questão.

Harry foi deselegante – para dizer o mínimo – e opressor, devolvendo críticas com o tipo de ataque infantil de que também somos culpados, já que reduzimos pessoas ao que exibem nas redes ou carregam entre as pernas. É fácil ele acionar os “gominhos” como sinal de superioridade porque tratamos um tipo específico de corpo como melhor. Fotos de viagem, sorrisos clareados, sinais de masculinidade e demonstrações de riqueza estão nas propagandas que formam o imaginário do que é “ser gay”, mas também em nossas conversas, nos vídeos que compartilhamos e nos zilhões de perfis sem cabeça em aplicativos de relacionamento.

Ele foi escroto, mas é um entre os milhares de “boys magia” que idolatramos diariamente, incensando um estilo de vida que não tem nada de ruim em si, mas que se torna uma coisa terrível quando serve para calar todos os outros. Ser gay ainda é difícil. Ainda significa assumir uma identidade política em um contexto de disputa e de busca por legitimidade, mesmo em países pretensamente tolerantes como o Brasil. E é ainda mais difícil quando se está fora do padrão de gay que é “apropriado para consumo”, tanto em novelas da Globo quanto nas pistas iluminadas de nossas boates.

Esses são os nossos “ídolos”, e se até mesmo canais “militantes” dão cartaz para alguém assim, está na hora de por na roda algumas coisinhas…

Harry é opressor querendo ou não, sabendo disso ou não. É possível que ele e tantos outros invistam muito tempo e dinheiro na construção de suas imagens, mas isso reflete o quanto elas funcionam. Enchemos a boca para dizer que o bonitinho é provavelmente burro e que o gay malhado que só aparece dançando sem camisa é vazio, mas esquecemos de admitir que nos deliciamos com esses tipos em nossa pornografia ou nas fotos que curtimos nas redes. Assim, produzimos uma opressão em círculo: dizemos o que é “belo”, as pessoas veem isso como melhor, lutam para “chegar lá”, batemos palma quando se exibem, e terminamos ressentidos dessa exibição.

É hora de assumir a nossa parte nisso. Estamos constantemente alimentando esses monstros, criando lugares de exclusão dentro de um segmento oprimido e hierarquizando corpos, estilos, desejos e práticas. Estamos nos dividindo em espiral, apontando dedos e fazendo a parte dolorosa do “ser gay” doer ainda mais. É uma autodestruição disfarçada de orgulho, que trata como representante uma imagem que é idealizada e, portanto, inatingível. E isso é feio. Muito feio.

E a beleza – como tudo na vida – é passageira.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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