01/11/2015

Companhia cria peça baseada em depoimentos sobre crimes homofóbicos


por Xandra Stefanel

'Já Nascemos Mortos', do Coletivo Sankofa, parte da hipótese de que homossexuais nascem com a sentença de morte anunciada e que a homofobia é legitimada diariamente pela família, escola e pelo Estado

Segundo um relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2014 foram assassinados 319 gays, travestis e lésbicas no Brasil e nove cometeram suicídio. Em 2004 foram registrados 149 assassinatos. Em dez anos, a violência mais do que dobrou. Isso motivou o Coletivo Sankofa de teatro a fazer um espetáculo que evidencie o absurdo destes crimes de ódio. A peça Já Nascemos Mortos, fica em cartaz até dia 28 de novembro em São Paulo. Neste sábado (31), ela será apresentada gratuitamente no Centro Cultural da Juventude às 20h.

“Crimes homofóbicos pertencem à categoria dos crimes de ódio. Um ódio que se espalha e cria raízes a partir do fato de que pessoas estão sendo mortas pelo simples fato de amarem e desejarem corpos iguais. Quando nos calamos diante de cada demonstração de violência homofóbica compactuamos para um possível assassinato”, afirma o grupo.


Com concepção e direção de Anderson Maciel, Já Nascemos Mortos surge da hipótese de que homossexuais já nascem com sua sentença de morte anunciada, simplesmente por amarem e desejarem pessoas do mesmo sexo. “A urgência de propor a discussão sobre as violências a determinados grupos sociais é uma prática do Coletivo, que já desenvolve ações na perspectiva dos Direitos Humanos. No espetáculo anterior, já trazíamos para a cena recortes de violência contra população LGBT. O interesse desse tema veio justamente em um momento em que se noticiou muitos crimes contra homossexuais, como o do garoto de oito anos assassinado pelo pai só porque tinha 'trejeitos. A proposta é por o dedo na ferida e apontar o que a mídia esconde: a população LGBT corre risco de vida sim, em casa, na escola, na rua, na igreja. Nós todos autorizamos essas mortes”, opina Anderson.

O diretor afirma ter se baseado em notícias de crimes homofóbicos e em 20 depoimentos de familiares de vítimas. Para estas entrevistas o coletivo teve apoio do grupo Mães pela Igualdade, que reúne mães de várias partes do Brasil que lutam contra a discriminação, violência e homofobia.


A intenção do grupo é fazer com que o público se comova, perceba que estes crimes são institucionalizados e que há muita cumplicidade com estas mortes. O texto não tem peso explicativo e o coletivo transformou as entrevistas em uma dramaturgia confessional. Para reforçar o sentimento de cumplicidade, público estará bem próximo de toda a encenação, o que faz com que os espectadores também integrem o espetáculo.

“A peça vem na perspectiva de incomodar mesmo, de a pessoa revisitar esses espaços de preconceito e conivência. Se você se cala diante de um 'piada' homofóbica, você escolhe um lado. E não é o da vítima. Você legitima a violência e os crimes. O tom confessional da peça aproxima o público da cena do crime, do velório do corpo, da despedida da família. É um convite a reflexão do que nós temos com isso”, afirma Anderson Maciel.

Já Nascemos Mortos será apresentado gratuitamente até dia 15 de novembro e em estará em temporada paga de 7 a 28 de novembro, no Teatro Studio Heleny Guariba.

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