12/07/2016

Unbreakable Kimmy Schmidt prova: o politicamente correto é engraçado


Por Ítalo Damasceno 
Fonte: VOZES LGBT (METRÓPOLES)

Com certo atraso, comecei a ver “Unbreakable Kimmy Schmidt”, série de humor da Netflix que tem o dedo da minha comediante favorita, Tina Fey. Dei o play com aquele peso no coração típico dos tempos de problematizações: mais cedo ou mais tarde vai surgir uma piada que eu não vou achar legal e vou me decepcionar. Não só eu quebrei a cara como ainda descobri que o politicamente correto é a coisa mais engraçada do mundo.

A série é sobre uma mulher que passou 15 anos presa em um bunker, enganada por um falso missionário que dizia que a Terra havia acabado. Ao ser libertada, ela decide viver em Nova York e lá encontra o real tema desse texto, Titus Adromedon. Poucos minutos depois de aparecer na tela, a dona do subsolo que Titus e Kimmy alugam vai cobrar o aluguel, o qual ele responde na lata: “E quanto ao meu dinheiro? Reparação pela escravidão, Lilian?”

Nessa fala eu pulei da cadeira porque nunca havia visto alguém dizer isso em voz alta, ainda mais sendo dito em um show de comédia, e – o tiro de misericórdia para me deixar no chão -, a reivindicação dele não era a piada. “Touché. Seu povo tem sofrido muito”.

Como assim a piada não é sobre a reivindicação do cara gay pobre negro e sim sobre a dívida que a sociedade tem com ele e ainda não quitou?"
Deste momento em diante assisti a todos os episódios das duas temporadas com o olhar mais sério e atento que eu poderia ter, tanto quanto fosse possível diante de qualquer trabalho dessa mulher engraçadíssima.


Acompanhei Titus descobrindo que a sociedade americana trata melhor um lobisomem que um homem negro; um operário mega bruto saindo do armário depois que uma mulher o enquadrou por conta de uma cantada machista; e, o mais espetacular, ao admitir ter 30 e tantos anos, Titus sofre sem saber qual quadradinho marcará na delegacia quando sofre um crime de ódio. Velho, gay ou negro? A burocracia nos leva a sérios problemas de identidade na sociedade pós-moderna.

Eu me acostumei tanto a ouvir que o politicamente correto era sem graça e matava a possibilidade de fazer humor que não soube como reagir ao ver uma comédia engraçada que não é ofensiva, que faz pensar e que a piada é o preconceituoso e seu preconceito.


Aliás, nos momentos que a série chega em um ponto onde não há mais para onde correr e que parece inevitável a piada reprovável, simplesmente a cena é cortada e é dado o fim. Dessa forma a piada somos nós, que completamos mentalmente o discurso preconceituoso do personagem, apesar dele não o dizer, provando que o discurso opressor está tão dentro de nós quanto daquele de quem estamos rindo. E se você não riu desta cena, parabéns, isso prova que você é um ser elevado e já deu um passo adiante na melhoria da vivência em sociedade.

Mas em certa altura, a lupa da problematização sai da mão de Titus e ele é posto na sua mira. Ele decide fazer um musical solo em que ele interpreta a história de uma gueixa, encarnação passada sua que conheceu durante uma regressão. Prato cheio para os haters de plantão da internet que não titubeiam em chamá-lo de Hitler.

Neste ponto da história, Tina expõe a complexa questão da problematização na arte: um homem negro pode ou não pode interpretar uma gueixa no teatro? E a solução que ela dá se aproxima bastante do que eu penso a respeito, e aqui ela se posiciona como cidadã e artista. Criticar uma peça de teatro sem antes vê-la é, no mínimo, injusto, é julgar o livro pela capa.

Não me refiro aos vários humoristas brasileiros que se dizem julgados e injustiçados quando estes estão acostumados a fazerem piada misógina, racista ou homo-lesbo-transfóbica pior que a outra."


Titus, nesse momento, ainda não disse nada e ele é julgado em princípio, mas percebe o risco que há quando você vai dizer algo sobre o palco. Se o objetivo do humor for apenas fazer rir a todo custo, sua força será regida então pelos mais fortes que comandam tudo na sociedade, no entanto o maior poder da comédia sempre foi o oposto deste.

Só nela Titus, Tina Fey e Shakespeare podem dizer quão ridículo é o opressor e o mal que ele faz ao oprimido, o que deve gerar a consciência de ambos e provocar as mudanças de costumes.

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