"Borboletas na janela" por André Kummer

Se um dia você decidir casar saiba que só existe uma coisa importante para ver em uma cerimônia de casamento: os olhos dos noivos.


Descobri isso quando era seminarista e acompanhava, como acólito, os casamentos em uma Catedral. Duas cerimônias nunca sairão da minha lembrança.


A primeira foi de um casal jovem e lindo. Não eram lindos porque eram jovens, eram lindos porque eram.. A noiva, o noivo, os pais, padrinhos e convidados eram gente linda, bem arrumada, elegante.


No dia do casamento as flores da decoração da catedral, os vestidos, os aromas, a orquestra, tudo era um festival para os sentidos num cortejo sem fim, regido por um cerimoniário, até a apoteótica entrada da noiva.


Mas indiferentes a tudo os noivos só viam um ao outro. Tocavam-se o tempo todo, elegantes e gentis, não perdiam um ao outro de vista


A vida de seminarista era dura, e na festa, surrealmente linda, quando serviram meu prosecco preferido eu o bebi literalmente como estrelas, nas palavras de Dom Perignon.


Com muito custo fui embora, não sem antes estacionar na mesa de doces, disfarçando, o quanto era possível, a embriaguez do prosecco e da alegria contagiante.


Tudo era beleza e riso, e assim como as flores, eram verdadeiros.


Vi o casal um tempo depois. Estavam radiantes, mais lindos e felizes. Agradeci, sinceramente, pela festa maravilhosa, e renovei meus votos de felicidades.


Um tempo depois apareceu durante a semana um casal muito animado em casar. Decidiram enfim, depois de 5 anos juntos casar e queriam “para ontem”. Riam o tempo todo da mais pura felicidade. Apesar de estarem na meia idade e um tanto acima do peso pareciam duas crianças de tão leves e alegres.


Conseguimos acertar o casamento para o próximo sábado. Eles queriam algo simples e rápido. Seriam apenas os noivos, os pais e dois casais de padrinhos. Pediram a sacristia emprestada para compartilharem um bolo. O padre concordou com um sorriso. Não havia como estar perto deles sem sorrir. Eram educados, gentis e alegres. A mais refinada felicidade.


Com a falta de um cerimoniário pedi qual a música gostariam para entrada. Dicidiram, com minha influência, por uma versão orquestrada de Mamma Mia do Abba.


No sábado, na hora do casamento, toca Mamma Mia, o noivo no altar e… NADA! Nada da noiva. Lá pelo meio da música, véu enrolado no braço, ela entra pela porta lateral da igreja, olha para o noivo e sorri.


A zeladora da igreja, senhorinha já idosa e resmungona, pensando que não havia mais casamentos naquele dia fechou a porta principal.


Corri até ela, pedi desculpas e disse que ia reiniciar a música. Ela falou sem desgrudar os olhos dele e ele dela: “Não foi nada, por esse homem que está lá em cima eu entrava até pelo teto”.


O único que não chorou o tempo todo da cerimônia foi o padre. Pela primeira vez para mim todas as palavras da liturgia do casamento faziam sentido.


Na hora de cortar o bolo entrou uma borboleta na sacristia. Ela disse que estava grávida. A borboleta sentou na janela. Até o padre chorou.

Existem tantas formas de ser feliz… Mas o essencial continua invisível aos olhos.
       

Comentários