01/10/2017

"HEF" Por Tony Goes

Por Tony Goes 



Há pouco mais de um ano, a "Playboy" brasileira publicou um artigo meu, o mais longo que escrevi até hoje. Era sobre a própria revista, mas da perspectiva de um homem gay que cresceu com ela. Em homenagem a Hugh Hefner, gostaria de postar aqui a matéria inteira. Mas os direitos pertencem à editora PBB, que assumiu a edição nacional da "Playboy" depois que a Abril parou de publicá-la. Parece que esta nova versão também já foi interrompida, e a própria situação da PBB não está muito clara neste momento. Vou arriscar e incluir neste post o trecho do meu texto que fala mais explicitamente de Hef (como ele gostava de ser chamado), um dos homens que mais influenciou a cultura ocidental na segunda metade do século 20. E, apesar da objetificação das coelhinhas e tralalá , também um paladino contra o racismo, a homofobia e a repressão da sexualidade. Lá vai:

"A “Playboy” se consolidou como um ícone masculino e heterossexual. E no entanto, nunca rolou discriminação em suas páginas. Não me lembro de uma única charge homofóbica - ao contrário da “Hustler”, outra concorrente que chegou a incomodar durante um tempo e hoje prima pela vulgaridade.

Não, a “Playboy” sempre teve uma atitude extremamente civilizada perante os gays. E isto, muito antes de ser modinha ou obrigação. A linha editorial sempre foi cosmopolita, madura e aberta à diversidade.

E quando eu digo sempre, quero dizer exatamente isto: a “Playboy” foi moderna desde os primeiros tempos. Em 1955, quando tinha apenas dois anos, a revista publicou um conto de ficção-científica de Charles Beaumont que havia sido recusado por outras publicações. Chamava-se “The Crooked Man” (“o homem torto”, em tradução livre) e falava de um futuro onde a homossexualidade era a norma. Quem fosse heterossexual ia para a cadeia.

A redação foi inundada por cartas furiosas dos leitores. Mas Hugh Hefner não pediu desculpas. Ao contrário: disse que, se a perseguição aos héteros numa sociedade gay era abominável, então o contrário também era.

Sua convicção, ousada para a época, nunca se abalou. Em 2012, já bem entrado em anos, o fundador da revista assinou um editorial defendendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Esta é uma luta pelos direitos de todos nós”, escreveu ele. “Querem desumanizar a sexualidade de todo mundo e forçar-nos a usar o sexo com o único propósito de reprodução da espécie. Para isto, irão criminalizar toda a nossa vida sexual”.

Não foi a única causa libertária abraçada por Hefner. Ao longo das décadas, ele também defendeu o fim da segregação racial, o direito ao aborto e à contracepção, e até o feminismo.

Esta última afirmação é controversa, claro. Muitas feministas estão entre as maiores críticas da “Playboy” - entre elas, a pioneira Gloria Steinem, que escreveu em 1963 um artigo devastador sobre as condições de trabalho das coelhinhas que trabalhavam nos Playboy Clubs espalhados pelos Estados Unidos.

Mas Hefner se defende com brio. Ele diz que sempre tratou as mulheres, na revista e fora dela, como pessoas completas, jamais como objetos. A nudez das “playmates” é, antes de mais nada, um grito de liberdade. Eu concordo com ele: a libertação sexual só faz sentido se for universal. Ou todo mundo é livre, ou ninguém é."

BÔNUS: "The Crooked Man", o audacioso conto de ficção-científica publicado pela "Playboy" América em 1955, pode ser lido aqui, em inglês.

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