"Muso do Bumbum quer aumentar as medidas" por André Kummer


Esse rapaz da foto é Fábio Alves, Muso da Escola de Samba Porto da Pedra, seu derrière tem 115 cm e ele quer aumentar. Achei fascinante. Imagine a sensação, física e emocional, de andar na rua com o peso desse bumbum. Imeditatamente me matriculei na turma de zumba da academia e aumentei o peso nos agachamentos livres.

Não que eu imagine que aos 48 anos vá conseguir a façanha de ter tanta massa muscular estratégicamente localizada. Mas eu me divirto experimentando.

A vida não é isso? Um conjunto de experiências?

Vou deixar de fazer alguma coisa por medo de errar ou do ridículo? Nunca!!

Para meus manos da musculação recomendei a zumba dizendo que melhorara a performance sexual soltando o corpo enrigecido pelo malhação. Eles me olharam com um SERÁ? ...Dúvida cruel implantada com sucesso.

Como moro em uma cidade pequena perguntei a professora de zumba se haveria algum problema de ter um homem na aula, sou o único entre 12 mulheres. Foi uma questão de educação. Por aqui é homens de um lado e mulheres de outro. Cada um no seu quadrado.

Mas não é assim em todo lugar?

Quando estou em São Paulo tem muito disso, especialmente no mundo gay. É o lugar dos sarados, dos ursos, dos coroas, dos isso e aquilo... Eu vou em todos os lugares.

Há muito tempo descobri que tudo que rejeito fora tenho dentro de mim, igual ou o oposto, que me provoca raiva e preconceito.

O comportamento que condeno no outro tem um pouco em mim, igual ou o oposto, porque em terapia tem isso. O espelho reflete voce, mas reflete invertido.

Quando era estudante havia um travesti que fazia ponto na praça perto de casa. Eu sentia um pouco de medo porque diziam que ele andava com uma faca. Tinha 23 anos e não entendia nada da vida gay e não era época de conversas sobre sobre gênero e todo o resto. Você era puto, veado ou travesti

Um dia parei e disse OI! EU TAMBÉM GOSTO DE HOMEM! Tentei explicar que não era igual a ele, que não sentia vontade de me vestir e tal.... Mas ele nem ouviu. Me adotou.

O nome de guerra era Clara Cristal, e ele tentou me ensinar a lingua gay da época... Algo como acuendar, meca, ocô... Era divertidíssimo!! Ele ria demais da minha ignorância e eu ria das risadas dele.

Ás vezes chegava um cliente e ele dizia: "Espera aí e fica com a minha bolsa que esse eu conheço e não demora muito!"

Lembrei dele hoje porque tinha uma mulher na zumba com uma calça fusô, hoje chamam de legging, cor de rosa igual a uma das que ele usava.

Eu queria dizer, de forma bem simples, que não importa onde você vai ler isso, se não capital ou no interior, se sua bunda é enorme ou não, se você se acha muito gay ou pouco gay, se tem roupa chique ou não... No fundo essas coisas não importam. O que importa é se você sabe bater na porta do coração dos outros e pedir para entrar.

É tão bom fazer coisas diferentes, conhecer pessoas diferentes, lugares diferentes... Ser diferente é o que nos faz ser um. 

Não deixe que o medo ou a vergonha  impeça você de ser quem você é.

Aumente suas medidas mentais, isso evita que o cérebro vire um polenguinho.

        

Comentários

  1. Sensacional! Mesmo sem ser travesti, sou PHD no pajubá hahahaha... Interessante como a linguagem da "rua" é a mesma desde os anos 80. Vendo uns vídeos antigos do goulart de andrade no youtube constatei isso. Uma interessante forma de apropriação cultural Yorubá para a auto proteção da comunidade em epocas mais dificeis.

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