"O demônio do meio dia" Por André Kummer

Andrew Solomon, autor de O Demônio do Meio Dia e Longe da Árvore
“O Demônio do Meio Dia” é um livro, quase um romance, de Andrew Solomon, que fala da DEPRESSÃO.

O termo  "Demônio do Meio Dia" é referência ao salmo 91 da Bíblia Católica É um salmo que invoca proteção e diz  "Não temerás terror algum durante a noite, nem o demônio que devassa ao meio dia" a todos que confiarem no Senhor Deus. 

Dependendo da sua tradução da Bíblia pode estar escrito seta, peste ou desgraça ao invés de demônio. Eu prefiro demônio porque é uma referência inteligente. Sabemos dos demônios da noite, mas a depressão nos pega desprevinidos no meio da luz. É um demônio que anda de dia.

Solomon é um homem gay que convive com a sua bipolariade. É colaborador das revistas New Yorker e New York Times Magazine e ser indicado ao Prêmio Pulitzer. É casado e tem dois filhos adotivos.

Esteve no Brasil em 2002 quando do lançamento do livro e saiu nas páginas amarelas da veja. Foi lá que o conheci e corri comprar o livro. As paginas amarelas da Veja ainda estão guardadas dentro do livro em minha estante

O livro é  considerado um dos mais complexos tratados sobre a depressão. Nele Andrew fala da sua vida e seus dois maiores surtos e crises, suas internações, como se mantêm equilibrado e medicado, entrevista pessoas, conta sobre os diversos tratamentos e fala sobre como eram os tratamentos no passado.

Visitou diversos países conhecendo e escrevendo sobre a forma que muitas culturas tratam a depressão, indo dos rituais de exorcismo ao isolamento.

A depressão é analisada do ponto de vista químico, psicológico, filosófico, histórico, político e cultural. 

Seu novo livro “Longe da Árvore” pela Companhia das Letras é uma analogia entre o ditado "A fruta não cai longe do pé" e trata das crianças que não são parecidas com os pais biológicos. Por questões genéticas, ambientais, sociais e tantas outras, podemos cair bem longe da árvore.

Solomon fala de filhos surdos, anões, downs, esquizofrênicos, prodígios, criminosos e Transgêneros, entre outros tantos.

Logo no primeiro capitulo do livro ele levanta a questão dos surdos. Um novo implante coclear, pode ser a nova cura para surdez, mas precisa ser implantada precocemente – em bebês de preferência.

O implante foi aclamado por muitos e desprezado por outros que viram nisso uma invasão agressiva a uma condição que é mais limitante para os pais do que para os filhos.


Quando caímos longe da árvore, passamos por um bom tempo constrangidos e envergonhados.

Isso pode deixar uma ferida de difícil cicatrização e com efeitos secundários pelo resto da vida.

Considerando o implante coclear dos surdos, Solomon afirma com certeza que seus próprios pais dariam consentimento para um procedimento precoce, se ele existisse, que garantisse que ele se tornaria heterossexual.

Ele não tem dúvidas de que uma coisa como essa acabaria com a cultura gay.

Para Solomon a vida gay é uma mistura original de testosterona e mansidão, hipersexualidade e delicada sensualidade, masculinidade robusta, refinamento e gentileza.

Não há outro grupo bastante semelhante ao de homens gays.

Somos uma cultura própria, essa é uma inegável verdade, e é preciso entender mais sobre a pedra angular dessa cultura.

Enquanto nós somos diferentes, somos ao mesmo tempo semelhantes a todos os outros.

Nós queremos amar e ser amados como somos.


Considerando cultura como um estilo de vida, Solomon diz ficar triste com a ideia de uma ameaça a cultura gay.

Mas à medida que sua compreensão da cultura surda se aprofundava, ele percebia que as atitudes que considerava ignorantes em seus pais se assemelhava a dele própria.

Seu primeiro impulso seria fazer tudo o que pudesse para corrigir a “anomalia”.

Temos dificuldade em entender que um elétron pode se comportar como matéria ou energia. Temos dificuldade em ver as duas realidades ao mesmo tempo.

Muitas condições são tanto limitações, evolução quanto identidade. Beethoven teria criado a Nona Sinfonia se escutasse?

Só conseguimos ver uma realidade se obscurecermos a outra, e essa estreiteza diminui tudo.

Tentamos consertar tudo que consideramos defeituoso e esquecemos que ser inteiramente típico e normal é um estado raro, solitário e chato.



     


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