"Tendência Absurdinho." Por Diego Abrantes

Por Diego Abrantes  


Em uma dessas minhas buscas incessantes por tendências, essa necessidade urgente de sempre estar upfront em tudo e em todos, mas principalmente em relação aos assuntos da minha profissão, me levou a analisar o sentido de algumas coisas quando me deparo com alguns aspectos que são ‘’tendência’’, mas no fundo tem um quê de absurdinho. Absurdinho sim! Pedindo licença poética à Érika Palomino e a turma de modernosos e fashionistas lá dos anos dois mil e poucos que lançaram esse termo pra designar os babados da noite paulistana, o termo aqui é uma comparação graciosa de quantos absurdos a gente vê por aí e nem se nota, por serem tidos como coisa normal e de gosto particular.

Dizem que gosto é igual a algo que cada um tem o seu e dá a quem quiser... Mas aqui a gente pára um pouquinho pra pensar. Puxando a minha sardinha (aqui na verdade é um tubarão) pro mundo da arquitetura: vocês já ouviram falar ou já viram ao vivo a tendência de se ter dois banheiros no mesmo quarto de casal? Pesquisando sobre imóveis em vários lugares do Brasil, notei que o must have da vez no mundinho do bem viver da nova classe média é de se ter dois banheiros na suíte master. Por incrível que pareça, o banheiro é objeto de fetiche de muita gente. Certa vez uma cliente tinha tanto fascínio por banheiro que ela preferiu sacrificar a metragem do quarto só pra ter um banheiro amplo de princesa. Não que eu tenha os mesmos fetiches da tal cliente, mas flashes inevitáveis me vêm na memória. Quando criança eu tinha um vizinho que era o abastado da rua. Lá a gente encontrava tudo o que era tendência absoluta no design dos anos 80: casas neocoloniais de quatro águas com peitos de pombo nas pontas e pinha no ápice, janelas e portas de arco abatido com vitrais coloridos e o melhor: armários embutidos de alvenaria com portas de madeira trabalhada. Mas a mágica toda era que uma dessas portas dava acesso ao banheiro da suíte! E eu na minha inocência ficava imaginando como cabia um banheiro dentro de um armário... coisa que resolvi alguns anos depois nas aulas de geometria descritiva (risos).


Tá, mas e qual o absurdinho nisso? Olha, se é absurdo pra vocês eu não sei, mas pra mim uma pessoa que divide uma cama e seus momentos mais íntimos com outra, e não agüenta dividir um banheiro, é no mínimo estranho! Em tempos de arquitetura que bebe nos conceitos do modernismo de planta livre e integrada, subdividir banheiro para cada um é quase uma afronta. Como se algo viesse derrubar tudo o que foi construído nesses anos todos de discurso integracionista do design. Afinal, se uma calcinha (ou cueca, no nosso caso) no box for motivo de fim de relação, ta na hora da gente repensar muitas coisas né? Segue o bonde!

Certa vez me deparei com outro absurdinho analisando um projeto de um ilustre colega de profissão. Ao meter o olho na planta baixa, vi duas cozinhas com as seguintes nomenclaturas: Cozinha Limpa e Cozinha Suja. A cozinha ‘’limpa’’ integrada ao estar e a cozinha ‘’suja’’  mais aos fundos da residência. Imediatamente me veio à mente a nobre senhora fazendo brigadeiro num cooktop que custa mais de 8 salários mínimos para suas amigas na cozinha integrada enquanto a ‘’criadagem’’ se isola na cozinha suja, fazendo o trabalho sujo. Imaginei estar no Brasil colonial, mas pasmem, foi mês passado. Queria eu que fosse nos idos de 1800 pois sendo assim talvez não me chocasse tanto. Num caso como estes, eu estarrecido que estava sem querer acreditar no que via, me convenci que foi mero descuido do profissional em eleger tal nomenclatura e sequer passasse na cabeça dele o peso que as palavras têm. Finjo acreditar até agora. E as ‘’dependências de empregada’’? Cada vez menores em tempos que o metro quadrado vale ouro. Chegará o dia em que essas nobres profissionais dormirão de pé e será um luxo aos olhos das construtoras. O casal Bruno Astuto e Sandro Barros em entrevista à CasaVogue disse que a empregada quando vai faz uso do quarto de hóspedes. Achei tendência! Fica o questionamento: até que ponto a arquitetura pode nos servir ou pode ser hostil? Até que ponto as tendências ditam nosso modo de vida e nos cega para ‘’absurdinhos’’ caóticos? Reflitamos... Olha, acho até que isso daria uma boa tese de mestrado, mas sinceramente estou muito ocupado pesquisando tendências.

Diego Abrantes / Arquiteto e Urbanista

Comentários

  1. Parabéns, querido Diego. Muitas foram as risadas dadas durante a leitura de seu texto. Sigamos procurando tendências... rs. Gratidão.

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  2. Curti muito. Vou adotar o termo absurdinhos... Agora Diego, imagina como a cabeça dessas pessoas funciona por dentro, a empregada dormindo em pé no quartinho dos fundos é ela mesma... A parte que ela julga podre e tem que esconder atrás da cozinha suja. Porque alguém que trata outro ser humano assim tem muito podre no quartinho dos fundos.

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    1. André, você ainda foi mais profundo na reflexão. É exatamente isso mesmo! Obrigado pelo feedback! Abraços

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  3. Parabéns! Adorei o texto. :D

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