O nosso lado é maior e mais forte



O mundo que os conservadores querem destruir, o mundo gay e lésbico, o mundo trans, o mundo feminista, já é muito poderoso.

Eles não têm nenhuma chance de destruí-lo.E eles realmente sabem que não apenas é muito poderoso,
como está se tornando mais poderoso, está se tornando mais aceito, e quanto mais aceito é, com mais raiva eles ficam.

Eu acho que existem duas formas de abordar a questão. Uma delas é, talvez, teológica e a outra é mais política, embora as duas abordagens se encontrem no final.

O problema teológico é que se você acredita na Bíblia, e a Bíblia diz que Deus criou o Homem e a Mulher desde o nascimento e criou-os de formas distintas e deu aos homens o poder de dominar as mulheres, então você acredita que homens deveriam assumir um papel social específico e as mulheres teriam outro papel e o casamento e a reprodução deveriam ficar na heterossexualidade, e que todos esses tipos de coisas são não só naturais, como ordenadas por Deus.

Então, para aqueles que acreditam nisso, é muito difícil quando mulheres decidem ter filhos sozinhas como mães solteiras, ou quando gays e lésbicas decidem se casar e esses direitos são concedidos a eles, ou quando a orientação sexual acabar não sendo necessariamente heterossexual, ou quando pessoas trans querem mudar o gênero atribuído a elas no nascimento, ou ainda quando mulheres querem usar a tecnologia reprodutiva para parar de ter bebês ou tê-los quando não podem.

Todas essas liberdades que associamos ao movimento feminista, ao movimento LGBTQ, desestabilizam uma ideia mais tradicional da dominação masculina sobre a família e a ideia de que o casamento heterossexual e a reprodução heterossexual são, de alguma forma, mandamentos de Deus ou da Bíblia.

E é muito difícil para as pessoas que têm se beneficiado dessa dominação e se beneficiado do caráter hegemônico do casamento heterossexual entender que outras pessoas que não são heterossexuais possam querer se casar, ou que pessoas não querem se casar, mas querem viver juntas e ter filhos, ou que mulheres possam querer ter filhos por conta própria através do uso da tecnologia reprodutiva, ou que trabalhadoras(es) do sexo possam querer direitos pelo trabalho que fazem e aposentadorias para quando forem idosos.

Todos esses tipos de reivindicações que vieram dos movimentos feministas e LGBTQ embaralham a família heterossexual. Mas sabemos que existem heterossexuais casados e com filhos que também apoiam o casamento gay e lésbico, ou apoiam pessoas transexuais, ou apoiam pessoas intersexo, ou apoiam mães solteiras, ou tecnologia reprodutiva, ou pensam que as pessoas deveriam ter direito à tecnologia reprodutiva como quiserem, então nem todos os heterossexuais são tão defensivos nem todas as famílias heterossexuais pensam: “Ah, toda família deve se parecer exatamente com a nossa”.

Então, há uma diferença entre aqueles que querem impor a forma social, a organização social de suas vidas íntimas, e alegam que todos deveriam ter o mesmo tipo de vida que eles vivem, e aqueles que aceitam que existe gênero e diversidade sexual no mundo.

O mundo que os conservadores querem destruir, o mundo gay e lésbico, o mundo trans, o mundo feminista, já é muito poderoso.

Eles não têm nenhuma chance de destruí-lo. E eles realmente sabem que não apenas é muito poderoso,
como está se tornando mais poderoso, está se tornando mais aceito, e quanto mais aceito é, com mais raiva eles ficam.

Mas o que vemos agora, nesse conservadorismo sexual contemporâneo, ou o que podemos entender como política sexual reacionária, é um esforço para nos levar de volta a um mundo que nunca mais voltará. E é nisso que eu acredito.

Então não devemos nos preocupar com a reversão de todos os nossos passos. Eles estão tentando, mas não vão ganhar, porque nosso lado é o lado da maior aceitação, da maior compreensão, e oferece mais reconhecimento a mais pessoas, e as pessoas querem viver com liberdade, querem viver com alegria.

Elas não querem viver com vergonha e não querem viver com censura.
Então, nós temos alegria e liberdade do nosso lado, e é por isso que ao final vamos vencer.

Tradução e transcrição do vídeo de Judith Butler pela Boitempo Editorial.



        

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