"Pantufa" Por Filipe Dell`Antonio

Por Filipe Dell'Antonio
Para o Homorrealidade


Quando um homem gay resolve sair do armário, imagina-se a quantidade de expectativas criadas para este momento. Quando um homem gay resolve sair do armário após dar seu primeiro beijo em uma mulher e se dar conta do quão infeliz seria se não permitisse a alegria de ser o que é, imagina o turbilhão de coisas que passa pela mente desta criatura.

Dei meu primeiro beijo aos 21 anos e explodi a porta do armário aos 22. Em 2006 tudo era um pouco mais complicado, lembro que não era comum ver casais Gays de mãos dadas em nenhum lugar, mesmo nos frequentados basicamente por GLSs (como falávamos na época). Não tínhamos aplicativos, e no meu estado, que não é o de coma, mas é famoso por não apresentar muitas novidades e ter uma população extremamente conservadora, todo o fervo dos garotos da minha idade aconteciam em duas boates que atraiam basicamente o mesmo tipo de público.

Lembro como se fosse hoje, a alegria de uma amiga ter aceitado ir comigo à finada e saudosa boate Next. Um inferninho que vendia ICE (na época era modinha) barata e seguia uma rotina bem “mais do mesmo” com dois Gogoboys e show de drags 3h da madruga. Eu nunca havia entrado numa boate gay e achei o máximo ver um monte de homens na fila, todos animados, sorrindo e conversando, nenhum conhecido, só eu esperando a hora de entrar e beijar na boca e Fabi curiosíssima. 

A verdade é que ela se divertiu muito e eu no início até estava adorando, mas fui notando que assim como nas boates que eu ia com meus amigos, eu não despertava o interesse de um público em sua maioria sarada e descamisada após um certo horário.

Demorei bastante para entender que em uma cidade litorânea, um enorme criadouro da falsa ideia de “geração saúde” onde a saúde usa muito hormônio pra ser saudável apenas esteticamente, gente como eu não tem lugar, não é vista e nem muito bem quista. Cada um passa por um processo e eu não tenho como saber como foi o de vocês, mas eu caí no mundo virtual e descobri os chats do Uol e do Terra. Para quem tem menos de 30anos,os chats eram o nosso tinder e ter web cam no MSN era um tipo de atrativo, por facilitar muito o reconhecimento da figura que até então só havia feito as seguintes perguntas:

Oi
q tc?
Curte o q?
Tem cam?

Acho que todo o computador já deveria vir com essas perguntas devidamente programadas.

Entre uma tentativa frustrada e outra, conheci um peguete (as novinhas podem dizer crush) que era um príncipe. Juro que era inacreditável o quanto me divertia ao sair com ele. Claro que o sexo era ótimo, mas além disso a gente jantava em restaurantes legais, íamos ao cinema em momentos menos tumultuados, praias menos movimentadas. A gente não namorava, porém estávamos sempre juntos em situações muito íntimas e eu particularmente adorava isso.

Até o dia que encontrei por acaso com ele e um grupo de amigos na rua e notei um certo constrangimento em me cumprimentar. Sabe quando você passa a notar que o restaurante distante na verdade não era intimista e sim ficava para lá de onde o vento faz a curva, que a praia gostosa era na verdade uma praia deserta e que o cinema estava vazio pelo fato de que pouca gente vai ao cinema ver filme B no meio da tarde?

Foi aí que eu entendi onde era o meu lugar na vida dele. 

Sabe gente que tem pantufa?

É uma delícia chegar em casa, tirar o sapato apertado e colocar os pés naquele pequeno aglomerado fofinho de pelúcia, mas na rua dá uma vergonha de usar. 

Hoje tenho a compreensão do quanto é comum e não deveria ser, esconder seus fetiches e que o gordo dentro da comunidade gay, por ser não muito bem visto, acaba entrando nas lacunas do universo fetichista. Eu era um objeto de prazer de um homem padrão que estava comigo, mas que para namorar escolheria uma figura dentro dos padrões estéticos desejáveis socialmente. Sim. Ele vai namorar com aquele tipo que quando passa na rua a gente olha e diz: “esse eu apresentava para a minha mãe”.

Esse reconhecimento inicial do como as pessoas não padrão são tratadas no universo gay foi bem chocante no início, mas é natural de uma sociedade higienista. Não quero transformar este relato em um espaço para ampliar o sofrimento de alguém que esteja passando por isso. É um processo doloroso e os caminhos de aceitação do corpo não são fáceis.

Necessitei parar um tempo, olhar para dentro, entender o que espero da vida e de um possível parceiro para ter a consciência de que não dependo da aceitação do outro para respeitar meu tempo e meu corpo mesmo tendo ouvido recentemente que “falta de macho não é opressão”.

A frase é certeira. Realmente a solteirice não é opressão. Assim como tudo na vida, o diabo mora no detalhe e os fatores que levam o corpo fora dos padrões a ser um corpo só ou objetificado é que devem ser tratados como algo a ser debatido para uma melhor construção da sociedade.

Comentários

  1. Maravilhoso. Me identifiquei em várias partes. Se sair do armário é difícil, ser aceito por esse grupo nosso que cultua o corpo e o esteticamente aceitável pela grande maioria é também muito complicado.

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  2. Texto incrível! Voltei no tempo e lembrei de como foi sair do armário nessa mesma época e das dificuldades que passei. Ser estranho, afeminado, desengonçado, se vestir de forma esquisita...esse texto é uma ótima reflexão para aceitarmos nossa identidade e sermos respeitados pela tal, seja ela como for <3

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