"Com romance gay 'Me Chame pelo seu Nome', Brasil tem chances de Oscar" Por Guilherme Genestreti


Cena do filme 'Me Chame pelo Seu Nome
Cena do filme 'Me Chame pelo Seu Nome'

Numa temporada de premiações carregada de tramas femininas e protagonistas mulheres, a maior dose de testosterona vem de um filme sobre a atração entre dois homens.

Estreia desta quinta (18), "Me Chame pelo Seu Nome", do italiano Luca Guadagnino, foi o primeiro título da atual leva a largar com cacife para o Oscar, assim que passou pelo Festival Sundance, em janeiro do ano passado. Esmoreceu no Globo de Ouro, mas ainda é uma aposta segura para cravar indicações ao prêmio da Academia.

História sobre o desabrochar sexual de Elio (Timothée Chalamet), jovem de 17 anos, o longa se desenrola sob um verão italiano nos anos 1980. E num universo que Guadagnino sempre visita, o da aristocracia europeia -aqui, em oposição à extravagância do americano Oliver (Armie Hammer), o hóspede que desperta furor no adolescente.

O arrebatamento do desejo também é uma constante na obra do cineasta italiano. Em seus filmes, o clamor erótico brota das beiradas e vai ganhando peso insustentável ao longo da trama, não raro sob influência do calor mediterrâneo, como é o caso de "Um Mergulho no Passado" (2015).

"Para mim, todas as coisas do mundo são mediadas pelo desejo. E é por isso que acho que todo filme tem de ser sensual", diz o diretor à Folha durante o Festival do Rio, que exibiu o seu longa.

"Me Chame pelo Seu Nome" é sobre o "amor em seu estado mais visceral", como descreveu Chalamet à reportagem, meses antes. As chagas de seu personagem são as da paixão pura, e não as da Aids, homofobia ou as de outra contingência de obras típicas sobre gays nos anos 1980.

Enquanto Elio seduz Oliver nas colinas da Lombardia, e vai se descobrindo no processo, o diretor oferece um banquete de sensações. Tudo ao redor dos personagens é bonito, elevado ou apetitoso -lembrete de que estamos no filme de um cineasta italiano.

Formado em literatura, o siciliano Guadagnino entrou para o cinema sob a bênção de Laura Betti, musa de Fellini e de Pasolini. Mas é com o esteta Bernardo Bertolucci que ele guarda mais semelhanças. Ainda assim, é tido em seu país como o mais americano dos diretores da Itália.

"Hollywood é uma grande fábrica de sonhos, e sonhos são subversivos", diz Guadagnino. "Aqueles que creem que Hollywood é conservadora estão muito enganados."

Hollywood cedeu aos encantos de "Me Chame pelo Seu Nome". O nova-iorquino de ascendência francesa Timothée Chalamet, 22, deve descolar indicação ao Oscar e protagonizará o novo de Woody Allen. E Armie Hammer, 31, com cinco filmes para lançar, deve deixar para trás a pecha de eterno coadjuvante.

Já Guadagnino nutre planos de fazer uma sequência do filme, descrevendo eventos que aparecem muito brevemente, no fim do livro que o originou, de André Aciman.

"Foi o que Truffaut fez com Antoine Doinel", afirmou o diretor em Londres, referindo-se ao personagem vivido por Jean-Pierre Léaud em cinco filmes do cineasta francês, que vão de 1959 até 1979.

OSCAR BRASILEIRO

Se "Me Chame pelo Seu Nome" chegar à reta final do prêmio da Academia, pode render um Oscar ao Brasil, ou algo próximo disso. A produtora paulista RT Features financia um terço dos € 3 milhões de seus custos, isto é, R$ 3,9 milhões do seu orçamento.

"Luca é crítico à sociedade, ainda assim faz todos se identificarem com seus personagens", afirma o produtor Rodrigo Teixeira, da RT, que diz ter se encantado pelo roteiro.

Cinéfilo, Teixeira entrou nesse ramo comprando o direito de adaptação de livros para o cinema. No país, já financiou longas como "Tim Maia" e "Alemão" e, lá fora, "Frances Ha", "A Bruxa" e "Patti Cake$". Entre os próximos estão "Ad Astra", de James Gray, que tem Brad Pitt e Tommy Lee Jones no elenco.

"Há muita tensão no processo. O produtor tem algum poder sobre o diretor, mas precisa ter a sensibilidade de saber quando está ajudando ou atrapalhando", diz Teixeira.

Como há sete produtores em "Me Chame pelo Seu Nome", ainda não se sabe quais ficarão com as eventuais estatuetas. "O carequinha pode vir ou não pro Brasil, mas todos subiremos no palco."

Enquanto Guadagnino também aguarda um Oscar seu, o mergulha no próximo projeto, a refilmagem do terror "Suspiria" (1977), de Dario Argento, agora com Dakota Johnson como protagonista.

O desejo, fio condutor do diretor, mais uma vez deve dar as caras. "Mas agora, será sobre o maior de todos eles, o desejo de se tornar algo."

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