Jaqueline Maldonado, uma das melhores personagens de novela de todos os tempos, existe!

Por Vitor Angelo para o Blogay

"Minha filha, você é o símbolo do fracasso da revolução feminista! Se Simone de Beauvoir fosse viva, te espancava em praça pública! O que você quer de presente de aniversário? Uma burca?" Essa é uma das falas marcantes da extravagante Jaqueline Maldonado para sua filha que estava desesperada por ter perdido seu namorado.

Interpretada por Claudia Raia, na novela Ti-ti-ti, de Maria Adelaide Amaral, que encerra na próxima sexta-feira, 18, Jaqueline Maldonado já tem seu lugar garantido ao lado de personagens históricos como Viúva Porcina, Dona Armêmia, Herculano Quintanilha, Odorico Paraguaçu, Odete e Heleninha Roitman, mas diferente deles, ela existe – de verdade. Ela não é mera ficção ou sombra/espelho da vida.

Junto com os também histriônicos Jacques Leclair/André Spina (Alexandre Borges) e Victor Valentim/Ariclenes Martins (Murilo Benício) que trabalham um tom acima do naturalismo na novela, ela parece compor com a dupla o terceiro elemento do exagero. Engano, pois ali exagero é realidade.

Jaquelines Maldonados existiram – acredito que nos grandes centros urbanos dos anos 80 – pelo menos em São Paulo ou no Rio, elas trafegaram com facilidade. Liberadas pelo Women´s Liberation Front, mas sem dogmatismos, elas tiveram suas bandas de rock, foram ativas em algum movimento politico como Abertura ou Diretas Já, costumavam arrasar na produção noturna – às vezes usavam longas luvas pretas retrô, em outras modelos inspirados nos japoneses que estavam invadindo, na época, Paris como Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto -, experimentavam drogas e participavam da cena cultural de igual para igual, nem musa nem mestre. Sim, foram amigas de Caio Fernando de Abreu e Claudia Wonder. Amavam os homens mas não era a sua prioridade, assim como adoravam e defendiam os gays mas também não era seu principal foco. O grande desejo delas era a liberdade.

"Quando tinha minha banda de rock, toda semana ia pro xilindró! A última vez foi em Blumenau. Um fã pediu pra eu cantar uma música do Roupa Nova e eu ateei fogo no cabelo dele! Tem gente que não tem o menor senso de humor!", diz Jaqueline, a da novela, em uma de suas inúmeras tiradas.

Mas o tempo acabou por tirá-las de cena. A atriz Grace Gianoukas, que é uma Jaqueline em certo sentido, faz um depoimento revelador no filme “Meu Amigo Claudia” (2009), de Dácio Pinheiro. Ela comenta que todo mundo era muito louco nos anos 80. Aí veio a Aids e muitos morreram, outros entraram em reclusão e ainda tiveram os que foram cuidar dos filhos, da família. Quando pensaram em voltar depois de um longo luto, a cena já estava invadida pelos yuppies e pela caretice. E o mainstream engoliu o underground.

Com essa explicação pode-se entender melhor a complexidade de Jaqueline na novela e toda a sua sensação de estar perdida e fora do lugar. Não se encaixa em sua família, não consegue ser religiosa, não se entrega para as suas paixões, mas mesmo assim é a personagem/pessoa mais generosa. Em sua volta convivem freiras, socialites, ladrões, drag queens, gays, e até a Xuxa na maior naturalidade.

Ela é o melhor exemplo hoje na televisão brasileira de um mundo possível, mais fraterno e bem mais humorado. É preciso que nossas Jaquelines Maldonados voltem já à ativa para achar que país que não aprova o casamento gay é realmente uma terra “de brucutus...". E para provar – principalmente aos brasileiros de hoje e sua misoginia crescente - que ser mulher é apenas uma questão de gênero, porque o importante é ser livre.

Permito-me essa última tirada de Jaqueline, sua linda:
"Nos anos 80, pichar muro era um must, mas hoje em dia nem delinquente faz isso! Também, qual o sentido de pichar muro se hoje em dia qualquer um pode ter um blog?! Da próxima vez, escreva um blog!"

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