Um "TITITI" que merece nota

Por MaxReinert para o Site NO GHETTO

Acompanhei (quase) toda a novela Tititi em sua versão atualizada. Em parte por conta da nostalgia de rever a novela que marcou minha adolescência e em parte para ver o que a famigerada teledramaturgia faria com o embate entre os pseudo estilistas Jacques Leclair e Victor Valentim.

Mas o que mais me interessava era acompanhar a história do personagem Julinho (André Arteche) e é sobre isso que pretendo falar nesse post. A história deste personagem não existia na novela original. Claro que este foi um tiro certeiro das autoras uma vez que seu intento era atualizar a trama por se tratar de algo extremamente em voga – a indústria da moda, principalmente – e nada mais atual que discutir a sexualidade e nada mais urgente que discuti-la na TV aberta!

Então que me vi surpreendido por uma trama tão sensível como a de Julinho e a perda de seu namorado. Ok, convenhamos que em se tratando de Globo, tudo vem mascarado e esse tipo de artifício permeia toda recepção que tal história teve e também percorre minha leitura particular que ora apresento aos leitores. E no caso da novela das 19h, o casal homossexual veio representado por dois atores lindos e emergentes, que estão em todas as graças femininas e (por que não?) gays. Felizmente a carga dramática ficou a cargo do menos pior dos atores e fiquei também surpreso com a sensibilidade na qual André Arteche conduziu sua interpretação de Julinho.

A cada capítulo que pude assistir, via claramente que o ator investia na sutileza e na sensibilidade, humanizando o personagem. Foi de uma dureza difícil de sustentar a cena em que ele soube da morte de Osmar (Gustavo Leão) [assista aqui]. Dava realmente para compartilhar a dor daquela perda. E também a forma como ele se fazia forte em sua orientação sexual; o modo como encarava a própria sexualidade e seu relacionamento homoafetivo era de uma verdade de se impressionar. É até curioso, mas acredito realmente que – naquele começo da novela – não era mesmo necessário que víssemos o tão esperado “primeiro beijo gay da televisão brasileira” porque o carinho que Julinho e Osmar tinham e trocavam mutuamente é muito perto daquele que experienciamos no dia-a-dia com nossos namorados, ficantes e afins. Ponto para a autora (Maria Adelaide Amaral) que soube retratar isso com primor.

Digno de nota também é o momento em que Julinho conta para Bruna (Giulia Gam) sua “mãe de coração” sobre sua sexualidade, como se aquilo não fosse óbvio [veja aqui]. Esse é outro mérito da autora. Exatamente porque retrata a obviedade reinante no meio LGBT no que toca a “saída do armário” diante dos pais. Sabemos a cântaros de pessoas das quais todo mundo conhece sobre a sexualidade mas que os pais não desconfiam, não é mesmo?

Mais adiante na trama, Julinho conta para Bruna que o filho dela era gay e que eram namorados. O momento em que ela destrói o quebra-cabeça com a foto dos dois – presente que Osmar tinha dado a Julinho no dia em que morreu e que, de certa forma, era o símbolo do amor deles – foi tocante. E, em mais um acerto, a mãe se sentiu ultrajada, ferida não só em seus sentimentos maternos mas principalmente em seus princípios religiosos que não concebem o amor entre pessoas do mesmo sexo [não achei um vídeo bom desta cena, mas encontrei um editado que você pode conferir aqui]. Bem, é importante desconsiderar os exageros interpretativos da novela e filtrar apenas tomando em conta a situação.

Alguma novidade até aqui? Claro que não. Aí a novela cria aquela “barriga” típica de toda novela da Globo em que nada vai para lugar nenhum e aquilo que era interessante se torna enfadonho. Daí que Julinho é apenas um cabeleireiro e o amigo gay da mocinha sofredora.

Eis que no meio da novela surge um pretenso amor para Julinho. Um médico pediatra que o abriga e por quem ele se apaixona perdidamente [veja aqui e aqui]. Não sei se não houve química entre os dois atores, mas o fato é que o Dr. Eduardo (Josafá Filho) não emplacou um romance com Julinho e acabou a novela casado com a personagem Thaísa (Fernanda Souza, sobrando na novela; talvez no papel errado) numa nada convincente relação hétero.

Então, aparece na reta final um personagem que vai-se revelando aos poucos. Trata-se do bofescândalo Armando Babaioff interpretando Thales, marido da personagem tresloucada da Claudia Raia (a própria, numa licença metafísica). Thales se apaixona por Julinho, mas não se aceita, tem vergonha de sua sexualidade, vive enrustido e blablablá… [aqui uma cena bonitinha]. Também não dá pra ficar contando os detalhes porque (imagino) inúmeros leitores também assistiram à novela.

O fato é que, no raciocínio de seguir com uma história crível, a autora demorou a resolver o romance entre Thales e Julinho, primeiro pela não-aceitação de si, no caso de um e segundo pela resistência em se envolver por um enrustido, no caso do outro. Não dá pra não achar legal o incentivo que Jaqueline (Claudia Raia) dá ao marido para que ele se assuma, principalmente quando ela afirma que sabe “o quanto a porta do armário é dura” [confira]. E há uma conversa entre os rapazes que considero emblemática naquilo que representa se envolver com alguém levando em conta o peso da aceitação. É uma cena bacana porque contém várias nuances de uma conversa com esse teor, em que pesem também os obstáculos tão difíceis de superar no sentido de “ultrapassar muitas pontes” pra chegar onde estamos [veja aqui].

Clichês e estereótipos à parte, o que vale ressaltar é que tudo, até os momentos finais foi conduzido buscando tratar de tais relações de um modo o mais natural possível.

Ok. Aqui começamos a refletir sobre o assunto. Uma novela que apresenta um núcleo contendo um gay, sua melhor amiga, o namorado, a família dele (com uma mãe alienada da orientação do filho), um casado enrustido, paixões platônicas e amor não correspondido não é algo exatamente novo. O que conta em Tititi é a forma como essa trama foi retratada que, repito, foi de um esforço louvável e condizente com as discussões “abertas” que intentam uma abordagem mais natural da homossexualidade.

Em épocas que se fala tanto sobre o casamento gay (sic), adoções por casais homoafetivos, previdência, combate à homobofia e políticas públicas LGBT, nada mais normal que tratar disso nas novelas – de longe o produto da televisão aberta que mais atinge as massas. Mas não seria isso naturalizar demais as relações que construímos na vida real?

Não esqueçamos que estamos partindo de um pressuposto fictício e que na ficção tudo tem seu final feliz no último capítulo. O que quero dizer é que, talvez, se tentamos naturalizar tanto estamos contribuindo para esse ideário ridículo tão retratado na TV – não só em novelas, mas especialmente nos programas humorísticos (humor daonde?) – que não retrata fidedignamente o que é ser um gay afetado ou uma barbie ou um urso ou uma lésbica ou um bissexual ou mesmo um enrustido. E o que pensar sobre as travestis? E os/as trans?

Isso seria a espetacularização de uma condição que extrapola todo e qualquer padrão normativo. Creio que tentar naturalizar tais relações numa telenovela equivale a banalizar discussões tão aprofundadas que temos colocado em questão. Não quero diminuir o valor da trama nem desmerecer o esforço em apresentar uma história de modo natural, muito menos dizer que o que foi apresentado é um desserviço à comunidade LGBT. O que gostaria é de alertar e provocar reflexões, me perguntando – e lançando a pergunta, claro – se é mesmo importante esperar que a Globo ou os telespectadores ou nós mesmos estejamos preparados para o tão esperado primeiro beijo gay da televisão brasileira. Será? Será que isso é mesmo importante, uma vez que ainda não soa natural para nossa sociedade aceitar como normal as relações homoafetivas em geral, se ainda precisamos conviver com a homofobia e lutar diariamente contra nosso preconceito internalizado?

Em que mudaria para nós um beijo gay na TV? Será que não seria só para aumentar a celebridade dos atores, alçando-os na história da teledramaturgia brasileira? Afinal, quem colheria os louros de tal feito? Eu poderia, então, andar de mãos dadas com meu namorado nas ruas sem receber um olhar torto ou um insulto por isso?

Exageros de interpretação, estereótipos, clichês, lugares-comuns e todo tipo de excessos à parte, podemos afirmar que em Tititi os personagens nos pareceram mais humanizados e críveis que aqueles que estão em cartaz na novela das nove (ao menos no pouco que tenho assistido, não gosto nada dessa novela! As novelas estão cada vez piores!!!) e também em comparação a tantos outros de novelas passadas. De qualquer forma, podemos usar esse exemplo pra discutir e refletir a respeito, certo?

E por fim a cena que poderia ter o beijo mas claro que, ainda, não teve.



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