"Não moralizem o Carnaval" Por Leandro Narloch




Quase todo ano eu dou uma de fiscal do Carnaval alheio e escrevo que é uma tremenda injustiça a festa ser conhecida no Brasil pelos desfiles das escolas de samba. Nada mais contrário (lá vou eu de novo) ao espírito carnavalesco que demonstrações coreográficas em trajetória retilínea e tempo marcado, com participantes cantando sambas patrióticos para impressionar os pagantes e ganhar notas altas dos jurados.

Ganhar nota 10 é coisa pra se fazer durante as aulas, não no Carnaval, oras.

Os blocos de rua são o antídoto dessa carolice das escolas de samba. Foi lindo ver blocos crescerem em São Paulo, recuperando um pouco da algazarra espontânea do Carnaval de rua. Nunca me esqueço da alegria que senti num bloquinho do ano passado: um casal carregava a faixa "se organizar direitinho todo mundo transa", senhoras nas janelas dos prédios da Arthur de Azevedo jogavam água para refrescar na multidão, rinocerontes azuis-turquesa pululavam na Henrique Schaumann.

(Bem, há uma possibilidade dessa parte dos rinocerontes ser resultado de alguma coisa que botaram da minha língua aquele dia).

Mas agora parece que alguns blocos de rua de São Paulo resolveram entrar numa onda ainda mais careta que as das escolas de samba. Estão virando palanque de política e bom-mocismo. "Fervo também é luta", dizia um boneco da organização do no último domingo. No trio elétrico, celebridades puxavam "Fora, Temer" e gritos contra o racismo e a homofobia.

Ah, que chatice.

Nada contra discussões políticas ou advertências contra o preconceito. Até acho que discutimos pouco no Brasil. Enquanto universidades e programas de TV ingleses desfrutam o gosto pela divergência política, por aqui qualquer acusação de fascismo é desculpa para fugir de debates. Mas não precisamos enfiar política em qualquer buraco do calendário: tudo bem esquecê-la durante o Carnaval. Fervo de um lado, luta do outro.

Como na premiação do Globo de Ouro mês passado, as manifestações no Baixo Augusta parecem puro "virtue signalling", essa praga contemporânea (que acomete principalmente celebridades e palestrantes profissionais) de praticar um exibicionismo de virtude. Pronunciam frases virtuosas sem consistência, sem necessariamente serem pessoas de princípios e virtudes.

Deixem o Carnaval fora da política e desse moralismo midiático. Carnaval é hora de cada um ridicularizar seus ídolos e figuras sagradas. É hora fãs do Bolsonaro se fantasiarem com a imagem do deputado "comendo gente" com garfo e faca. De bitcoiners se vestirem de bolha especulativa. De jornalistas iniciantes zombarem do Haddad e as ciclovias.

A festa é mais divertida se desistirmos de ganhar notas altas tanto dos jurados quanto dos amigos do Facebook. Já passamos o ano inteiro tentando parecer pessoas do bem —no Carnaval, você tem todo o direito de fingir ser um pouco mais canalha e sem princípios do que realmente é.

Leandro Narloch é jornalista, mestre em filosofia e autor do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", entre outros.

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