31/03/2017

"SER GAY É MUITO DIFÍCIL" Por Caio Braz

75% dos gays carregam traumas de infância e estão mais propensos à doenças na idade adulta.



TEXTO ORIGINAL
Why Didn't Gay Rights Cure Loneliness
Huffington Post
Autor: Michael Hobbes

25/01/2017

Após 'vaquinha', casa para abrigar LGBTs expulsos pela família é inaugurada


Por Juliana Diógenes  


Espaço na Bela Vista pode receber até 20 pessoas e oferece apoio psicológico e médico a gays, lésbicas, travestis e transexuais

Eles foram expulsos de casa. Entre os moradores, há filhos e filhas de pastores e policiais. Há quem tenha levado um soco e sido ameaçado de morte pelo próprio tio. Vítimas de violência - física, psicológica ou ambas -, gays, lésbicas, travestis e transexuais ganharam uma nova opção de lar. Em uma esquina da Bela Vista, bairro no centro da capital, um sobrado verde onde antes funcionava um bar no térreo e uma ocupação no andar de cima, a partir desta quarta-feira, 25, passa a abrigar LGBTs expulsos pela família. 

A Casa 1, república de acolhimento e centro cultural, nasceu de financiamento coletivo e será inaugurada nesta quarta. Em um mês e meio, o projeto arrecadou R$ 112 mil em uma plataforma de crowdfunding, oferecendo aos 1.048 colaboradores recompensas como a inscrição do nome dos participantes na parede externa da Casa e 32 opções de palestras, workshops e cursos. É uma iniciativa totalmente voluntária, sem patrocínio ou edital público. Para marcar a abertura do espaço, a Casa estará em festa das 14 às 22 horas no dia do aniversário da cidade. 

O primeiro morador chegou no dia 2 de janeiro e o lugar já abre com cinco pessoas (duas travestis e três gays). Eles vêm do Rio, de Minas Gerais, da periferia de São Paulo e até do interior de Sergipe. A capacidade máxima é para 12 moradores, que podem ficar até três meses. Mas os organizadores do projeto dizem que se apertar e for necessário, o local pode abrigar até 20. Hoje, no andar de cima do sobrado, há sete camas, uma sala com sofá, mesa de jantar e televisão, além de cozinha e banheiros. Boa parte dos móveis e eletrodomésticos foi doação.


Segundo a entrar na casa, o estudante mineiro Otávio Salles, de 23 anos, brinca ao dizer que é "a governanta" do lugar. Ele e o idealizador da Casa 1, o jornalista e militante LGBT Iran Giusti, de 27 anos, ficaram amigos no ano passado. Após ter todas as roupas cortadas com tesoura pelo irmão, Salles levou um soco do tio, que o teria ameaçado de morte. "Ele disse: Boiola merece morrer. Falou que se me pegasse iria me matar de porrada", conta o estudante. "Esconderam os meus documentos para evitar que eu fosse até a delegacia, mas consegui achar a minha certidão de nascimento e fui denunciar. Tive que ensinar para o policial como se escrevia homofobia. Ele não sabia como se escrevia a palavra."

Morando com um amiga e trabalhando em um bar, em Belo Horizonte, o estudante conheceu Giusti por acaso. "Acabamos fazendo amizade, conversamos e ele me chamou para ficar no sofá dele em São Paulo", afirma. O militante começou a acolher, então, LGBTs expulsos de casa. "Fiz um post no Facebook que foi compartilhado por duas mil pessoas. Recebi em poucos dias quase 50 solicitações de abrigo. Mas a minha casa era um quarto e uma sala. Pensei que precisava fazer algo maior", afirma Giusti. Assim, nasceu a ideia de criar uma república de acolhimento para gays, lésbicas, transexuais e travestis. O nome Casa 1, explica o militante, é para dar a ideia de "começo". Nos planos, está a vontade de expandir. Salles acredita que o espaço deve virar um ponto de referência para a população LGBT.

Para ser morador da Casa 1, é preciso ter mais de 18 anos e ter sido expulso de casa por ser LGBT, ou estar em situações extremas de violência psicológica. Não há custo ou diária. Com 32 voluntários e uma fila de 400 pessoas interessadas em contribuir, o espaço oferece apoio psicológico e médico (uma obstetra e ginecologista faz uma visita de 15 em 15 dias). Segundo Giusti, o lugar será mantido por atividades culturais que serão oferecidas no salão da Casa, como oficinas de bordado e canto. 

O café da manhã, o almoço e o jantar, além das contas, não estavam inclusos no projeto de financiamento e são pagos do próprio bolso de Giusti. O próximo passo é conseguir patrocínios para bancar os gastos. A ideia é que o projeto cresça e, por isso, a equipe vai iniciar um mapeamento das necessidades do entorno do espaço, na Bela Vista. Uma das propostas é facilitar oficinas para idosos, que têm procurado o espaço interessados em participar. "Estamos planejando o programa Adote um Vovô e Adote uma Vovó, com cursos em que a metade da turma será de idosos e a outra metade, de LGBTs em geral, não somente para os moradores da casa", explica. 


Há uma semana na Casa 1, a transexual Cindy Tobias da Silva, de 19 anos, conta que desistiu de morar com a mãe e a irmã na zona leste da capital paulista após ser alvo de xingamentos da família. "Desde criança, eu perguntava para a minha mãe por que eu tinha pênis. Aos 14 anos, me assumi gay e desde então comecei a me travestir. Me hormonizei. Elas me aceitam, mas não da forma que eu quero. Minha mãe ainda tem esperança de que eu volte (a ser um homem cisgênero). Mas isso nunca vai acontecer." Agora na Casa 1, ela diz que quer "colocar a cabeça no lugar" e procurar emprego na área de maquiagem, cabelo ou roupa.

Com uma calçada completamente colorida e postes tomados por lambe-lambe, o espaço fica entre um salão de beleza e a loja de roupas da Neide Santos, de 51 anos. Para ela, vizinha de parede da Casa 1, o projeto "deu uma animada" na região. "Antes era um horror. Funcionava um boteco e tinha uma invasão. Agora, pelo menos é um projeto para ajudar pessoas", diz. 

Cotado para o STF defende que mulher obedeça ao marido



Por MARIO CESAR CARVALHO
Visto na Folha

"A mulher deve obedecer e ser submissa ao marido". "O casamento de dois homens ou duas mulheres é tão antinatural quanto uma mulher casar com um cachorro". "Casais homoafetivos não devem ter os mesmos direitos dos heterossexuais; isso deturpa o conceito de família".

É este o pensamento de um dos candidatos do presidente Michel Temer para a vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) aberta com a morte do ministro Teori Zavascki.

As frases constam de um artigo de Ives Gandra Martins Filho, presidente do TST (Tribunal Superior do Trabalho) e filho de um amigo de Temer de 40 anos, o advogado Ives Gandra Martins.

O artigo faz parte do livro "Tratado de Direito Constitucional" (2012), coletânea organizada pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes, por Ives Gandra pai e pelo advogado Carlos Valder.

Martins Filho, que escreve sobre direitos fundamentais no artigo, diz no texto ser contra decisões do Supremo como o reconhecimento da união homoafetiva, a liberação das células-tronco embrionárias para pesquisa e a permissão para destruir embriões humanos em pesquisas.

É também contrário ao aborto, ao divórcio e à distribuição de pílulas anticoncepcionais em hospitais públicos.

Tal como o pai, Martins Filho integra a Opus Dei, organização católica ultraconservadora, e diz ser celibatário.

Por trás de todas as posições expressas no artigo estão duas bandeiras da Opus Dei: o ataque ao aborto em qualquer situação e a defesa da ideia de que só existe família na união de um homem e de uma mulher.

"Sendo o direito à vida o mais básico e fundamental dos direitos humanos, não pode ser relativizado em prol de valores e direitos", escreve Martins Filho. "Sem vida não há qualquer outro direito a ser resguardado".

Decorre da ideia de que a família é célula mais importante da sociedade a crítica do ministro do TST à união homoafetiva na forma de casamento, considerada por ele como "antinatural".

"Por simples impossibilidade natural, ante a ausência de bipolaridade sexual (feminino e masculino), não há que se falar, pois, em casamento entre dois homens ou duas mulheres, como não se pode falar em casamento de uma mulher com seu cachorro ou de um homem com seu cavalo (pode ser qualquer tipo de sociedade ou união, menos matrimonial)", defende no texto.

O ministro do TST ressalta, no entanto, que "indivíduos de orientação heterossexual e homossexual possuem a mesma dignidade perante a lei" e que a opção dos homossexuais deve ser respeitada.

As pesquisas com células-tronco de embriões, liberadas pelo Supremo em 2008, também recebem um pesado ataque no texto: "O uso de células-tronco embrionárias com fins terapêuticos representa nitidamente processo de canibalização do ser humano, incompatível com o estágio de civilização da sociedade moderna".

Procurado, o ministro não quis comentar o artigo. Martins Filho é um dos idealizadores da reforma trabalhista proposta recentemente por Temer e que recebeu críticas de sindicatos.

20/01/2017

"10 lições preciosas que a vida me ensinou" Por Allan Johan


Por Allan Johan 

Tenho 36 anos e já vivi um pouco. Tive uma vida diferente da maioria das pessoas. Aos 15 anos de idade, me mudei para o Japão, tive contato com diversas culturas e filosofias. Posso dizer que vivi bastante, apesar da jovem idade. Embora a palavra “bastante” para mim conote “suficiente”, sempre quero viver mais, aprender mais. Morei fora outras vezes, viagei bastante, passei por alguns dramas pessoais: sofri, caí e levantei. No caminho, vamos aprendendo lições e delas tiramos proveitos, ou não. Resolvi copilar alguns desses ensinamentos da vida. Aqueles que não aprendemos na universidade comum, conhecimentos que a vivência nos ensina na marra e são, por isso, preciosos.

1 – Se ame
É o maior dos clichês de auto ajuda mas deve ser um mantra. Nada vai dar certo até que você perceba que é preciso ter ética, amor próprio e limites. Tudo vale a pena desde que você não traia seus princípios, desde que você não venda a sua dignidade. Você deve muito a você, sua história e a quem quer se tornar. Saiba onde gastar a sua energia, o que vale a pena. O paradoxo do EU precisa de muito amor para ser resolvido.

2 – Nunca deixe para depois
Procrastinar nem sempre vale a pena. Mas o nunca se refere a quando é possível fazer algo agora que você deixa para depois. A vida cobra esse depois. Solucione as questões pendentes, mostre pró-atividade. A vida agradece e responde na mesma velocidade.

3 – As pessoas mudam
Não apenas os outros mas você também tem o direito de rever os seus conceitos, preconceitos, e isso faz parte da evolução. Não se atenha a nada que não te faça feliz, e esse mesmo direito tem os outros. Entenda: Só se vive uma vez.

4 – O ponto de vista é subjetivo
Nem sempre concordamos com o outro. Há infinitas variáveis para analisar uma situação, a mais importante delas talvez seja o histórico pessoal, como a pessoa e seus padrões mentais reagem a tal situação. Por isso, tenha paciência com o outro e consigo mesmo. Cada percepção é pessoal. Vale a pena o diálogo sempre. A convenção é negociável, já o ponto de vista é inerente a cada realidade. 

5 – Nada é para sempre
Assim como a vida, tudo tem fim. Não adianta achar que o mundo não gira pois não sentimos ele movimentar. É preciso se desapegar, pensar à frente.  A perfeição é um estado inatingível, tudo pode ser melhorado. Podemos atingir a satisfação, o idealizado, mas jamais o perfeito, este é eternamente melhorável.

6 – Seja individualista mas não muito
Pense em  você, mas também no outro. Ou como diria Jesus, ame o próximo. Nossas convicções não são mais importantes, nossas verdades não servem para todos. Competir e ganhar não são o mais importante. Sempre vai haver alguém melhor em algo, mais bonito, mais rico, mais inteligente: Aceite mas se supere. E, acima de tudo, seja humilde e generoso.

7 - As pessoas querem se sentir especiais
Por sabermos que somos únicos, muitas vezes pensamos que somos melhores ou piores do que os outros. Ao final, queremos nos sentir, mesmo com nossas inferioridades e superioridades, alguém que merece atenção. Por isso as pessoas se apoiam tanto umas nas outras, esperando elogios e carinho. É o tal dando que se recebe. Por isso, faça alguém se sentir especial. Não cobre, mas saiba que por isso você já é especial.

8 – Dinheiro não é tudo
Dinheiro é energia que flui e uma energia poderosa. Ele constrói, materializa desejos. Apesar de algumas religiões menosprezarem seu poder, o dinheiro é hoje a roda que gira a vida. Mas não se esqueça que a felicidade está nos pequenos gestos, no legado, na capacidade de ser feliz consigo mesmo em momentos de auto análise. O resto é distração materialista, idealizações da mente humana que projetam no outro a felicidade ou no dinheiro.

9 - Os opostos se completam
Aprenda com seus erros e mais ainda com os erros dos outros. Se você não tem uma habilidade, aprenda. Se você não tem um dom, conviva com o diferente e entenda. O mais importante na vida é o que você tem, mas o que você não tem e pode ser conseguido tem um valor especial, e não estou falando de bens materiais. O diferente te multiplica, o igual soma. Experimente, ouse, desafie seus limites. Isso é viver.

10 – Sofrer não é preciso
Muita gente associa o processo de aprendizado com a dor. Há o ditado que diz que ou se aprende pelo amor ou se aprende pela dor. Não precisa ser masoquista. Viver é ter paz interior, estar presente a cada segundo, encarar a vida com a verdade e não mentiras. Assumir seus erros, derrubar as próprias máscaras (respeitar o tempo do outro perceber que precisa derrubar as suas próprias) e ajudar os caídos. Cair e levantar. Toda ilusão é sofrimento. Alguns se iludem, outros vivem. E se você vive de verdade, você não sofre! Pois você aceita a realidade daquele momento, sob sua perspectiva treinada para anular o que não é real. É possível mudar o mundo sem sofrer por ele não ser o ideal. A perfeição não existe, mas existe o seu EU entendendo e vivenciando o sentido da vida: dar o seu melhor, todos os dias, e com isso ser feliz.




18/01/2017

Princesas Impossíveis - Transgêneros em São Paulo




Documentário selecionado pelo Festival TMC de Londres


Estamos em uma era de desconstrução de preconceitos, em especial a LGBTfobia. No entanto, a exclusão sofrida por transgêneros continua notavelmente ignorada nos debates sobre discriminação e, nas raras ocasiões em que o tema é apreciado junto ao grande público, isso costuma se dar por um viés patologizante, altamente criticado por vários militantes da causa. A falta de entendimento sobre a realidade trans é enorme, mas é cada vez mais acompanhada de grande curiosidade. Quem são essas princesas que o mundo insite em enxergar como homens, esses rapazes que o mundo espera que sejam princesas e essas pessoas que não se identificam como homens nem mulheres?

E, visto que qualquer realidade humana consiste num emaranhado de histórias, vivências e opiniões, muitas vezes conflitantes entre si, este documentário busca trazer à tona algumas dessas histórias e começar a familiarizar seus espectadores com a questão.

Em poucos momentos fica tão claro como preconceitos são úteis ao sistema desigual e explorador em que vivemos. Todos os dias, o que mais vemos são oprimidos se voltando contra oprimidos. Enquanto nos hostilizamos uns aos outros, por sermos "macacos", "travecos", "viadinhos" ou "piranhas", não podemos nos voltar, juntos, contra o sistema que nos oprime a todos.

Entrevistadas(os):
Monique Top - Jornalista, Apresentadora, Dançarina e Militante
Amara Moira - Escritora, Garota de Programa e Militante
Caio Fucidji Ishida - Estudante Secudarista e Militante
Paola - Garota de Programa
Raul Lima Silva - Estudante de Arquitetura e Militante
Carolina Gerassi - Advogada

17/01/2017

Não existe unidade no mundo gay.



Por Homorrealidade


É perceptível que uma onda conservadora está varrendo o mundo ocidental. Estamos acompanhando o crescimento da ultra direita radical em países que até ontem nadavam de braçada na derrubada de tabus e preconceitos. Países que estavam auxiliando a formatação de uma nova consciência, de um novo estado da arte na história humana.

Era tudo ilusão? Era tudo resultado de uma fina maquiagem utilizada pela imprensa para romper com o marasmo vigente? Era a opinião de uma minoria? Não havia base de sustentação para tais mudanças?

O Brasil está vivendo período semelhante. Após questionável manobra política, eis que chegam ao poder os representantes máximos do retrogrado pensamento elitista coronelista brasileiro. Chegam não... porque lá já estavam, contidos por interesses financeiros. Estavam muito ocupados gerenciando esquemas de corrupção seculares que, sai ano entra ano, se solidificaram na política tupiniquim.

Nesta celeuma ideológica como ficamos nós, os gays assumidos? Não ficamos. Não existe unidade. Não existe movimento unificado. Não existe "nós gays". Somos dissolvidos na gelatina da população. Somos tomados por interesses privados. Vale correr atrás do pão (ou caviar no caso das "bichas ricas") e lutar individualmente por sobrevida na labuta.

Entristece perceber a total e absoluta falta de unidade LGBTT no Brasil. Usamos, e abusamos, do tema quando ele nos favorece individualmente. Vejam o deputado Jean Willys, ele luta praticamente sozinho. Não há uma sombra de movimentos partindo em seu auxílio. Ele é uma andorinha solitária, infelizmente.

Imagino que muitos irão discordar e levantar uma série de argumentos contrários. Ótimo. Quero que o façam. Façam com fé, força e coragem. Encontrem uma unidade GAY no Brasil. Encontrem uma corrente que semeie algo de concreto e avassalador. Encontrem alguma liderança que não lute por holofotes e likes. Encontrem o PINK MONEY dando sustentação ao movimento GAY no país.

As poucas vitórias legais conseguidas foram resultado de movimentos internos e extremamente particulares. Não há foco ou mesmo uma pauta comum. Beijo gay em novelinha global não é visibilidade é amadorismo infantiloide.

Se a direita ultra conservadora avança, e avança rápido, só nos resta correr para as montanhas. Não conseguimos formar um batalhão para enfrentar a derradeira batalha.

Creio que nem tudo está perdido. Quero crer que no momento em que a ultra direita chegar chutando o traseiro dos gays que tem assento nas cadeiras de comando (são muitos acreditem em mim) algo terá que acontecer.

Caso contrário aviso que o processo para entrada legal no Canadá é complexo e demorado. Está chegando 2018...  É lutar ou ficar na fila...      

01/09/2016

"HÁ MUITO A TEMER: O NOVO GOVERNO E OS DIREITOS LGBT" Por Daniel Cardinali

Por Daniel Cardinali

Com a concretização do esperado afastamento da Presidente Dilma Rousseff pelo Senado Federal, por confortável margem de votos, o PMDB chega pela terceira vez à Presidência do Brasil sem nunca ter sido eleito para ocupar tal cargo. Neste cenário, questiona-se o que o se pode esperar do novo governo Temer em relação aos direitos LGBT.

Antes de mais nada, é preciso não romantizar a atuação de Dilma no tema. Cabe lembrar que a eleição presidencial de 2010 teve como epicentro a questão do aborto, com José Serra e Dilma se enfrentando para saber qual dos dois tinha uma posição mais conservadora na matéria, com o objetivo de agradar o eleitorado religioso e seus homofóbicos representantes políticos. Já eleita, a primeira mulher a ocupar o Palácio do Planalto suspendeu o programa “Escola sem Homofobia”, alegando que seu governo não faria “propaganda de opção sexual”. Tratava-se de uma concessão à bancada evangélica, para tentar salvar o então Ministro Palocci de ter de explicar sua evolução patrimonial. No final, caíram ambos, o ministro e o programa. A primeira reunião da Presidente com representantes do movimento LGBT organizado, com direito a sorrisos e foto com a bandeira do arco íris, aconteceu apenas no reboque das manifestações de Junho de 2013, em razão de uma necessidade contextual. Enquanto na politica ordinária se fazia todo o tipo de concessão aos mais atávicos conservadorismos, os movimentos sociais – o movimento LGBT entre eles – foram fiéis escudeiros do governo do PT em suas horas mais difíceis. Basta ver a quantidade de bandeiras do arco íris quebrando o vermelho nas manifestações contra o impeachment. As medidas de última hora para tentar pintar uma imagem mais à gauche dos seus últimos momentos, que envolveu o decreto para garantir o uso do nome social na administração federal, embora possam trazer ganhos concretos, devem ser entendidos dentro desta lógica de política autointeressada.

Significa dizer que estaremos melhores com Temer? Não, muito pelo contrário. O governo que se inicia anuncia tempos temerários para o avanço das pautas progressistas e defesa dos direitos das minorias. Embora o próprio Temer ainda não tenha dado nenhuma declaração expressa sobre a diversidade sexual, podemos presumir que o motivo para tanto é que este não o tipo de assunto para se comentar “à mesa”. A fleuma antiquada e a aura aristocrática não são os únicos atributos oitocentistas de Temer, já que seu projeto de poder pretende ser uma espécie de inversão de JK para nos fazer retroceder “50 anos em 5”.

A simbologia de se substituir a primeira presidente mulher do Brasil, perseguida e torturada na ditadura militar, por um homem que sempre orbitou as velhas instâncias de poder do “rouba mas faz” não poderia ser mais clara. Incomodou-se Temer com a posição de “vice decorativo”, sem dúvida pelo papel emasculante de tal posição, afinal, o papel de bibelôs serve às mulheres. Por favor, não ousem achar que possam ser melhores que meros colírios ornamentais, parnasianos e acéfalos, para os olhos sedentos dos varões deste Brasil varonil, que se pavoneiam de ter sob seu domínio a rés bem marcada, “bela, recatada e do lar”.

A equipe ministerial anunciada diz bem o lugar que a mulher deve ocupar na política. Nenhum. Desde a ditadura militar – inclusive em parte desta – todos os governos tiveram ministras mulheres. Para Temer mulher não presta para gerir o país, só serve para tirar as botas do seu macho e massagear-lhe os calos após um dia de trabalho, parece. É importante notar, por exemplo, que, enquanto Pedro Paulo, candidato à prefeitura do Rio que agrediu fisicamente sua ex-mulher em mais de um episódio, ao menos demonstra o cinismo de buscar uma vice-prefeita, Temer não buscou sequer tentar apaziguar o desconforto provocado pela matéria da Veja na formação da sua equipe ministerial. Pelo contrário, fez questão aqui de marcar uma posição.

E não ter mulheres não é o único demérito da tal equipe ministerial que vai fazer a nossa ponte para um futuro que parece estranhamente familiar com o passado. O Ministro da Educação é do DEM, partido responsável pela ação judicial que questionou o programa de cotas universitárias no STF; o Ministro da Justiça é responsável por maquiar o extermínio de jovens e negros que a policia de São Paulo produz e por um discurso de criminalização galopante dos manifestantes políticos; o Ministro da Agricultura, a bem da verdade, não muda muita coisa, continua o na pasta o grande latifúndio, embora agora tenha a decência de ser representado por um homem. Isso para não falar dos investigados na lava jato que levaram de brinde o chamado “foro privilegiado” no STF.

Veja bem, não é que a pauta dos direitos das minorias não seja prioritária para o novo governo, que o foco esteja na economia. Trata-se de uma ilusão superficial, a pauta é sim primordial, mas para que se produza o seu retrocesso. A extinção das pastas ligadas aos direitos humanos, igualdade racial e políticas de gênero representa bem o tipo de importância que o governo Temer reserva aos assuntos. Na surdina, com certeza, será mais fácil dissolver os avanços sociais a duras penas conquistados.

Cabe lembrar, ainda, como Temer chegou à cadeira que ora conspurca, abraçado umbilicalmente em Eduardo Cunha, autor dos projetos de lei do dia do orgulho heterossexual e da criminalização da “heterofobia”, apenas para ficar em dois exemplos de seu obscurantismo. O show de horrores que foi a votação na Câmara, em que a defesa da família patriarcal e tradicional atingiu níveis folclóricos, dá um indicativo de que tipo de interesse e projeto de poder vai cobrar a conta de Temer quando chegar a hora. Afinal de contas, se Temer alcançou o que jamais conseguiria pelo voto popular, o fez em função da ferrenha atuação dos maiores opositores dos direitos LGBT no congresso nacional, que saberão cobrar bem pelo papel central desempenhado. Isso para não falar da atuação patética da FIESP e das elites do “o aeroporto ‘tá virando rodoviária”, que prometem retrocessos trabalhistas e sociais.

Avizinham-se, portanto, tempos difíceis para todos aqueles que acreditam num Brasil mais tolerante e mais igualitário. Não se trata mais apenas de denunciar a falta de avanços, mas do risco concreto de retrocessos. Parece que as grandes novidades do novo governo, sobre as quais a mídia já faz questão de tecer loas sebastianistas, vêm estranhamente requentadas e com cheiro de mofo, e seremos nós a comer este pão bolorento que o diabo amassou

Handsome Man (Matt Alber)

Marcador Em Destaques