25/10/2014

10 curtas nacionais com temática LGBT que você deveria ver

 
Por Camilla Galvão para o Bagaceira Talhada

Feliz da vida, posso dizer que o cinema nacional LGBT vem crescendo no país e aos poucos tomando o gosto do povo brasileiro. Desde o ano passado, 20 longas foram lançados aqui no Brasil, além de inúmeros curtas. 3 dos mais premiados filmes nacionais da atualidade abrangem positivamente a diversidade sexual. Não são mais títulos produzidos direcionadamente para uma comunidade – tocam e agradam a novos públicos, sendo sucessos comerciais. O que é de grande utilidade, já que através da arte, pode-se informar o brasileiro acerca da vida e causas da comunidade LGBT, sem marginalizá-la. Por isso, tiramos do armário uma lista de 10 curtas tupiniquins com essa pauta maravilhosa.

1. A vida ao lado (2006)

Terceiro curta-metragem de uma trilogia sobre sexualidade, idealizado e dirigido por Gustavo Galvão. Nas palavras do próprio diretor: “Sexo e carência afetiva; alienação e descoberta. A Vida ao Lado trata disso.”

2. Café com leite (2007)

Premiado curta que projetou o diretor Daniel Ribeiro, famoso por suas consagradas realizações com temática LGBT – como o curta Eu não quero voltar sozinho (2010) e o longa Hoje eu quero voltar sozinho (2014).
Café com leite é um filme delicado e de abordagem franca, que se desenvolve na relação de Danilo (Daniel Tavares) e seu irmão caçula Lucas (Eduardo Melo), que precisa aprender a conviver sob o mesmo teto que seu irmão mais velho e seu namorado Marcos (Diego Torraca).
 
3. Tá (2007)

Sob a direção de Felipe Sholl, com muita simplicidade na locação, atuação, diálogo e cortes de cena, trata de dois caras num banheiro, descobrindo sexualidade e afetividade.
 
4. Homo Erectus (2008)

Baseado no conto homônimo do livro BaléRalé, de Marcelino Freire, em 2 minutos esse curta, que utiliza apenas de uma narração conjunta a uma animação, explica com humor aquilo que tanta gente ainda precisa entender.
 
5. Depois de tudo (2009)

Protagonizado por Ney Matogrosso e Nildo Parente, o curta mostra esse casal de homens maduros, que levam uma vida mansa e apaixonada em oposição a repressoras convenções sociais.
 
6. O segredo dos lírios (2012)

Esse é um documentário de curta-metragem lindo, premiado e que rodou o país em festivais de cinema, com depoimentos de três mães orgulhosas de suas filhas lésbicas. Falar sobre suas meninas foi tarefa fácil pra essas mães corujas, que transbordam amor durante 16 minutos de curta.

7. Vestido de Laerte (2012)

Em 13 minutos, Laerte Coutinho – cartunista e ativista LGBT – atua no papel de si mesmx, nos mostrando uma pequena porção das dificuldades dxs transgêneros para obter aceitação dos órgãos oficiais em relação a identidade de gênero. Ambientado em meio a arte de Laerte e a capital paulista.

Link para assistir o curta-metragem no Porta Curtas

8. Eu não quero voltar sozinho (2010)

Realização do diretor prodígio Daniel Ribeiro. O curta fez check-in em mais de 60 festivais de cinema nacionais e internacionais, levando diversos prêmios e projetando nosso cinema mundo afora.
Narra a história de Leo (Ghilherme Lobo), um adolescente com deficiência visual que lida com seu desejo de dissipar suas limitações físicas e ilimitar o despertar dos seus desejos, aflorados com a chegada de um novato na sua escola, o Gabriel (Fabio Audi).
 
9. Transophia (2013)

Dois atores em cena interpretando travestis que se prostituem na noite de São Paulo. O curta-metragem é tocante; oscila em monólogos das duas mulheres que revelam seus pensamentos mais íntimos, e lidam com suas próprias convicções do que é ser prostituta, alheio ao que é ser uma mulher transgênero.

10. O mesmo amor (2013)

Como cristãos da comunidade LGBT, que amam e desejam a doutrina religiosa, podem exercer sua sexualidade ao mesmo tempo que sua religião conflitante? Esse documentário de 18 minutos apresenta a Igreja Para Todos, baseada na aceitação de qualquer fiel, sem discriminação, sob a premissa de que o amor de Deus é para todos e a doutrina religiosa também pode ser.
 
Se gostou e quiser ver outros curtas acesse a lista Curtas Nacionais com temática LGBT no Filmow

"Deus é gay?" Por Frei Betto

 
 
Por Frei Betto para O Globo
 
Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos ‘pecadores’ e dos ‘virtuosos’. Agora, o papa Francisco ousa se erguer contra o cinismo
 
Nunca antes na história da Igreja um papa ousou, como Francisco, colocar a questão da sexualidade no centro do debate eclesial: homossexualidade, casais recasados, uso de preservativo etc. O Sínodo da Família, realizado no Vaticano, só dará sua palavra final sobre esses temas em outubro de 2015, quando voltará a se reunir.
 
Quem, como eu, transita há décadas na esfera eclesiástica sabe que é significativo o número de gays entre seminaristas, padres e bispos. Por que não gozarem, no seio da Igreja, do mesmo direito dos heterossexuais de se assumir como tal? Devem permanecer “no armário”, vitimizados pela Igreja e, supostamente, por Deus, por culpa que não têm?
 
É preciso reler o Evangelho pela ótica gay, como pela feminista, já que a presença de Jesus entre nós foi lida pelas óticas aramaica (Marcos); judaica (Mateus); pagã (Lucas); gnóstica (João); platônica (Agostinho) e aristotélica (Tomás de Aquino).
 
A unidade na diversidade é característica da Igreja. Basta lembrar que são quatro os evangelhos, não um só: quatro enfoques distintos sobre Jesus. Até a década de 1960, predominava no Ocidente uma única ótica teológica: a europeia, tida como “a teologia”. O surgimento da Teologia da Libertação, com a leitura da Palavra de Deus pela ótica dos pobres, causa ainda incômodo aos que consideram a ótica eurocentrada como universalmente ortodoxa.
 
Diante dos escândalos de pedofilia, dos 100 mil padres que abandonaram o sacerdócio por amor a mulheres, e da violência física e simbólica aos gays, Francisco ousa se erguer contra o cinismo dos que se arvoram em “atirar a primeira pedra.”
 
Como Jesus, a Igreja não pode discriminar ninguém em razão de tendência sexual, cor da pele ou condição social. O que está em jogo é a dignidade da pessoa humana, o direito de casais gays serem protegidos pela lei civil e educarem seus filhos na fé cristã, o combate e a criminalização da homofobia, um grave pecado. A Igreja não pode continuar cúmplice e, por isso, acaba de superar oficialmente a postura de considerar a homossexualidade um “desvio” e “intrinsecamente desordenada”.
 
A dificuldade de a Igreja Católica aceitar a plena cidadania LGTB se deve à sua tradição bimilenar judaico-cristã, que é heteronormativa. Por isso, os conservadores reagem como se o papa traísse a Igreja, a exemplo do que fizeram no passado, quando se recusaram a aceitar a separação entre Igreja e Estado; a autonomia das ciências; a liberdade de consciência; as relações sexuais, sem fins procriativos, dentro do matrimônio; a liturgia em língua vernácula.
 
Deus é gay? “Deus é amor”, diz a Primeira Carta do apóstolo João, e acrescenta “o amor é de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus.” E, se somos capazes de nos amar uns aos outros, “Deus permanece em nós.”
 
Por ser a presença de Deus entre nós, Jesus transitou, sem discriminação, entre o mundo dos “pecadores” e dos “virtuosos”. Não apedrejou a adúltera; não fugiu da prostituta que lhe enxugou os pés com os cabelos; não negou a Madalena, que tinha “sete demônios”, a graça de ser a primeira testemunha de sua ressurreição. Jesus também não se recusou a dialogar com os “virtuosos” — aceitou jantar na casa do fariseu; acolheu Nicodemos na calada da noite; dialogou sobre o amor samaritano com o doutor da lei; propôs ao rico que, “desde jovem” abraçava todos os mandamentos, a fazer opção pelos pobres.
 
Sobretudo, ensinou que não é escalando a montanha das virtudes morais que alcançamos o amor de Deus. É nos entregando a esse amor, gratuito e misericordioso, que logramos fidelidade à Palavra.
Fé, confiança e fidelidade são palavras irmãs. Têm a mesma raiz. E a vida ensina que João é fiel a Maria, e vice-versa, não porque temem o pecado do adultério, e sim porque vivem em relação amorosa tão intensa que nem cogitam a menor infidelidade. 

24/10/2014

"Afaste sua criança do meu gay!" Por Fabricio Longo

 
Por Fabricio Longo
Visto no Brasil Post
 
As crianças, coitadas, não podem ver nada. Beijo gay, nudez, debate político... Nada é pra criança. O engraçado é que religião e novela são permitidas, mas tal julgamento de valor não me compete, sei lá. Sempre escutei que se educa uma criança pro mundo, mas nunca entendi que mundo era esse onde não tinha nada.
 
O meu gay nasceu com cerca de 3 quilos e uns 50 cm de tamanho. Era muito fofo, o meu gay. Naquela época, ninguém sabia que ele existia porque não fazíamos muita coisa, então levou uns três anos até ele começar a aparecer. Era muito grudado na mãe, o meu gay, e desenhava tão bem! Será que ia virar artista, esse gay?
 
Ele queria uma boneca. Não pode, amor. Ele não entendia isso de jeito nenhum! Pedia a boneca das coleguinhas emprestado e chorava quando, além de negar, elas ainda o xingavam. A mamãe teve que ir conversar na escola por causa do meu gay. Olha a vergonha! Tem que mandar esse gay para uma psicótica! Não, não, chama "psicóloga", gay. Essa tia tem umas bonecas diferentes, de pano, que tiram bebês da barriga. É assim que nascem os gays também? Sim, das meninas. Você é homem.
Que história foi essa de pedir uma Barbie pro Papai Noel?! Senhorito, fique sabendo que o Papai Noel é a mamãe e que se ela não comprou uma boneca durante o ano, não será agora no natal que vai comprar! Você não quer a faca do Rambo?
 
 
Com seis anos, meu gay foi pra Disney. Como sempre, ele fez vergonha. Tirava todas as fotos imitando a pequena sereia! No começo as pessoas até achavam engraçadinho, mas depois percebiam que "havia algo de errado" com o meu gay e falavam isso para a mamãe, só pra deixá-la preocupada. Era muito insistente esse gay! Foram vários psicólogos, castigos, palmadas e até macumba, mas ele continuava lá. Ganhou uma boneca - e depois 400 - pra ver se sossegava, mas aí ele já estava crescido e queria me dominar. A religião não aceitava meu gay, então ele prontamente me fez abandonar Deus - ao que sou grato, confesso. Estava impossível esse gay! É claro que eu já sabia que ele existia e tal, mas não tinha coragem de admitir. Só que nesse início de adolescência ele já estava forte demais e conseguiu me convencer. Tornamo-nos cúmplices.
 
Precisei proteger o meu gay dos outros jovens porque se eu desse tal liberdade, eles o atacariam. Meu gay não tinha culpa de nada daquilo, eu sabia perfeitamente que ele tinha sido sempre assim. Acontece que as outras crianças não tinham nenhuma informação sobre o meu ou qualquer outro gay. Era algo feio, escondido, diferente... Claro, era mais fácil hostilizar. Nós ficamos quietinhos, com medo, até que ele me aprontou a última: se apaixonou! Como é que eu ia segurar isso? Foi mais forte que eu, é óbvio, e os amigos perceberam.
 
Tive que libertar o meu gay e jogá-lo no mundo, e foi aí que aconteceu a coisa mais maravilhosa e inesperada de toda essa história: apaixonamo-nos um pelo outro! No começo estávamos meio tímidos, mas aos poucos fomos ficando mais à vontade e percebendo nossas qualidades. Durante anos elas ficaram soterradas pelo desprezo que o meu gay inspirava, mas agora podia finalmente perceber que por causa dele, eu era mais forte. Que por causa do meu gay tinha amadurecido mais rápido, pensado mais, lido mais, e que ao contrário do que as pessoas sempre me disseram ele não me fazia pior e sim melhor. Eu passei a ter ORGULHO do meu gay e ele ficou tão surpreso com esse sentimento novo que multiplicou meus amigos, amores e experiências, se tornando FABULOSO! Enfim, nós viramos um.
 
Então, por favor, não diga que não posso beijar um namorado no cinema porque sua criança está lá, ou que se ela me vir de mãos dadas com outro homem ficará confusa e traumatizada. Não diga que não tenho os mesmos direitos que ela, até porque você não sabe se sua criança não está escondendo o gay dela também. Evite dizer que eu vou para o inferno, pois se ele existir, suspeito que os que julgam as pessoas tenham lugar cativo. Que tal explicar o porquê do beijo gay da novela ter sido tratado como a queda do muro de Berlim? E se alguém está nu, não é mais coerente dar um crédito para sua criança e agir com naturalidade, já que todo mundo nasce pelado?
 
Se as crianças são criadas para o mundo, por que as impedimos de conhecê-lo e pensar sobre ele? Por que tudo vira tabu ou precisa trocar de horário? O que merece censura é o preconceito, a maldade e o desrespeito. Foram essas coisas, muitas vezes praticadas por crianças, que fizeram o meu gay sofrer e, em contrapartida, tornaram-no mais forte. Não seria mais lógico censurar as crianças?
 
 
 
(Texto publicado originalmente no blog Os Entendidos)

Calendário traz modelos seminus em ambientes religiosos para combater a homofobia


Visto no MSN

O "Calendário Ortodoxo 2015" (Orthodox Calendar - OC) traz em seu novo ensaio modelos homens fazendo poses sensuais em cenários repletos de lembranças religiosas. A ideia do projeto, criado na Romênia por organizadores que preferem não se identificar, segundo o portal "The Huffington Post", é combater a homofobia em regiões do Leste Europeu (área que compreende Romênia, Croácia, Bulgária, entre outros países) e Rússia. O calendário é lançado anualmente desde 2012 e este ano, pela primeira vez, será vendido em duas versões: uma, digamos, mais light, ou seja, com imagens mais discretas (custa por volta de R$ 57); e outra com fotos mais ousadas (mais de R$ 100).





Em 2013, o tema foi "Pela liberdade do discurso, união e tolerância". Em 2014, o tema abordado foi "Amor é amor – Ortodoxo ou não". O calendário 2015 tem a sigla S.A.L.I.G.I.A., que é um anagrama usado na Idade Média e que descreve, os sete pecados capitais. São eles: a soberba [orgulho], avareza [apego ao dinheiro], luxúria [desejo sexual incontrolável], inveja, gula, ira e preguiça (acedia em latim).





O enredo desta edição conta uma história que se passa ao sul de Moscou, onde alguns padres supostamente não acreditam que relações entre pessoas do mesmo sexo não são um sinal de apocalipse, como pensa o líder Kirill, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa. Apesar do calendário ser publicado desde 2012, vale lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa afirmou, em fevereiro de 2014, que "leis que apoiam casamentos entre homossexuais representam uma ameaça à civilização humana".




Ainda segundo Kirill, a legalização do casamento gay seria um "presságio [previsão] do apocalipse". Um dos organizadores do projeto (ao todo são seis jovens com fé, principalmente ortodoxa, que criaram o calendário), contou, em entrevista ao "Huffington Post", entre outras coisas, que o calendário de 2015 foi criado para "lembrar a humanidade que a homossexualidade não é um dos sete pecados capitais e que é fato que Jesus nunca se referiu à homossexualidade como pecado". Quer ver as fotos do ensaio?

Veja direto no MSN

Trilha Especial LGBT: "Giant In My Heart", com Kiesza

23/10/2014

Em livro, fotógrafa reúne retratos de casais gays nos anos 80

 
 
Durante a década de 1980, a fotógrafa norte-americana Sage Sohier produziu uma série tocante com retratos de casais gays dentro de suas residências. Intitulado “At Home With Themselves: Same-Sex Couples In 1980s America”, o ensaio reúne belas imagens em preto e branco, revelando o amor e as angústias daqueles que viveram nessa época.
 
O cenário nos anos 80 era bastante angustiante e incerto em relação à transmissão da AIDS. Na época, muitos homens e mulheres morreram por causa da doença, e Sage quis mostrar principalmente o cotidiano de quem convivia lado a lado com esse medo.
 
A fotógrafa iniciou o projeto com uma coleção de retratos tirados em 1986, mas acabou se estendendo por diversas regiões dos Estados Unidos. Em 2002, mesmo após tantos anos, Sage entrou em contato e capturou um dos casais, que ainda estava junto.
 
Em entrevista ao jornal The New York Times, a artista relatou que sua série foi feita como uma maneira de se conectar com seu pai, um veterano da Segunda Guerra Mundial, que deixou a família ainda quando ela era criança. Quando faleceu em 2008, Sohier descobriu que ele era homossexual, mas não teve coragem de falar sobre o assunto com os parentes.
 
Todas as imagens foram compiladas em um livro e, atualmente, estão expostas no Blue Sky Gallery, em Portland, Oregon (EUA).
 










 


 

Argentina dá refúgio a jovem gay que fugiu da Rússia por discriminação

 
Visto no G1
 
Rapaz de 28 anos foi reconhecido oficialmente como refugiado por governo. Perseguido, jovem fugiu há 2 anos de seu país; identidade não foi revelada.
 
O governo da Argentina outorgou pela primeira vez a condição de refugiado a um jovem homossexual russo que escapou de seu país por ser vítima de discriminação e violência por sua identidade sexual, informou nesta segunda-feira (20) à Agência Efe a Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais (Falgbt).

A Comissão Nacional para os Refugiados (Conare) argentina admitiu seu pedido após reconhecer em um ditame a fustigação sofrida pelo jovem de 28 anos e a falta de proteção estatal que têm as minorias sexuais na Rússia.

O jovem, a quem chamam de "Gene" no relatório para preservar sua privacidade, tinha deixado seu país natal pelo constante assédio que recebia e há dois anos pediu ajuda à Falgbt através de um contato que conheceu nas redes sociais.

"Esperamos que a partir deste primeiro caso a Argentina se posicione como destino de refúgio", disse à Efe o presidente da Falgbt, Esteban Paulón.

Filme gay alemão resgatado - “Diferente dos outros”, de 1919, é o primeiro da história

 Visto na Revista Lado A
 
Um drama com um drama maior ainda em sua história. Há quase um século, na Alemanha pré nazista, o filme “Anders als die Andern” (Different from the others), de Richard Oswald e Magnus Hirschfeld, 1919, ousou ao abordar o romance de dois homens. O filme que era parte de um trabalho militante do artista e do médico judeu, que incluía filmes de saúde para homossexuais, e foi o primeiro no cinema a abordar a homossexualidade em um tempo que ser homossexual era considerado um desvio de caráter e doença, além de crime. Em 1897, o médico fundou o Wissenschaftlich-humanitäres Komitee ("Comitê Científico-Humanitário"), com objetivo de derrubar o parágrafo 175.

O sexólogo gay que desafiou grandes psiquiatras com suas teorias sobre a homossexualidade e questionar as leis, teve quase todo o seu trabalho perdido quando os nazistas chegaram ao poder em 1933 e promoveram diversos incêndios em suas bibliotecas e institutos. O próprio filme “Diferente dos outros” teve todas as suas cópias queimadas e apenas uma sequencia não finalizada da película sobreviveu, graças a ter sido misturada com outros filmes de saúde. Hirschfeld foi morto na França, em 1935, por um soldado da Gestapo. Entre suas teorias está a do terceiro sexo, de que as proporções homem e mulher variam nos dois sexos em todos os indivíduos.

No filme, Paul Körner, violinista, vê muitos se matando e pensa que não vale a pena viver para eles por causa da lei que criminaliza os homossexuais. Tchaikovsky, Leonardo da Vinci, Oscar Wilde, Friedrich II da Prussia e Ludwig II da Bavária, entre outras personalidades, aparecem na tela. Körner se apaixona por seu aluno, o jovem Kurt Sivers, levado pelos pais para estudar violino. Seus pais tentam convencer ele a se casar com uma jovem rica.  Seus pais então vão a um médico que explica que ser homossexual não tem nada de errado. Um homem vê o professor e o aluno de mãos dadas em um parque e começa chantageá-lo. A família do jovem o proíbe de vez o rapaz de ver o violinista, o aluno decide viver sozinho. A irmã de Kurt se apaixona por Paul e é rejeitada. O homem continua a chantagear Paul e os dois acabam em um julgamento. Pressionado e sem Kurt, Paul se mata. Kurt vai ao enterro de Paul e a família do morto o rejeita, até que o convencem a fazer Justiça, lutando contra a lei que o matou.

No filme, o amor dos dois é mostrado com sutileza, mas muitas cenas foram perdidas. Eles tentam mudar quem são mas não conseguem e se aceitam. “Você não pode condenar seu filho por ser homossexual, ele não tem culpa por sua orientação. Ele não está errado e isso não deveria ser crime. Na verdade, nem mesmo é uma doença, somente uma variação, e uma que é bem comum na natureza”, diz o médico no filme em que faz participação especial.

O filme está sendo restaurado por um projeto da Universidade da Califórnia, mantido com verba da comunidade gay. Como não se tinha noção da montagem original, o projeto tem recriado o filme com um roteiro alternativo. Os pesquisadores se surpreenderam pelas idéias de Hirschfeld que apenas ressurgiram no final do século XX, com novos autores, já que parte das pesquisas do estudioso nunca foi recuperada.



Trilha Especial: Ricky Martin - "Adiós"