29/07/16

Curta: Trans(verso).



O curta Trans(verso) mostra o dia a dia de quatro homens TRANS em seus processos de adaptação com seus medos e desejos. De forma leve, tranquila e bela tendo com cenário a cidade de Vitória. Foi produzido para disciplina de Pesquisa Extensão e Prática Pedagogia do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Espírito Santo sob a orientação do professor Vitor Gomes.

Lea T, a transexual que vai fazer história na abertura da Olimpíada


Por JEFFERSON PUFF (BBC BRASIL)
Fonte: FOLHA


Levantar a bandeira da inclusão e ser porta-voz da diversidade de gênero, orientação sexual e raça "num momento em que o Brasil será apresentado ao mundo". Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, a top model internacional Lea T afirma que é com estes objetivos que aceitou um convite para participar da cerimônia de abertura da Olimpíada, no Rio de Janeiro, como a primeira transexual a ter um papel de destaque numa abertura olímpica na história dos Jogos.

Lea T disse não poder entrar em detalhes sobre sua participação, sigilosa como a de todas as outras celebridades, mas adiantou que representará a necessidade de combater o preconceito.

"Não posso falar nada ainda, precisamos manter a surpresa. Mas a mensagem será muito clara: inclusão. Todos, independente de gênero, orientação sexual, cor, raça ou credo, somos seres humanos e fazemos parte da sociedade. Meu papel na cerimônia, num universo micro e representativo, ajudará a transmitir esta mensagem", diz.

Ao lado de Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Anitta, Lea T integra o time de celebridades cuja participação já foi confirmada na noite de 5 de agosto, diante de cerca de 70 mil espectadores no Maracanã e de estimados mais de 3 bilhões de pessoas assistindo pela TV em diversos países.

"Eu, como qualquer outra transexual, levanto uma bandeira. Falo da transexualidade porque faz parte da minha história, mas sou apenas mais uma integrante desta comunidade, sou mais uma. Sei que sou privilegiada por ter a mídia que me ouve, mas cada transexual em sua luta cotidiana tem igual importância para os LGBTs", diz.

TONINHO CEREZO E TRANSFORMAÇÃO NA MODA

Filha do ex-jogador da seleção brasileira Toninho Cerezo, que foi jogador da seleção brasileira entre 1977 e 1985, onde jogou ao lado de Zico e Sócrates, Leandra Medeiros Cerezo nasceu em Belo Horizonte em 1981, mas cresceu na Itália.

Aos 29 anos, estreou no mundo da moda em uma campanha da grife de alta costura francesa Givenchy, quando passou a adotar o nome Lea T, e pouco depois passou a estrelar campanhas de marcas de destaque, como a Benetton, aparecendo em editoriais de revistas como Vanity Fair e Vogue. Já foi capa da revista americana Newsweek, com o título "a moda transformada", e em 2011 apareceu na capa da revista britânica Love beijando a top model britânica Kate Moss.

A modelo foi uma das poucas personalidades brasileiras a serem entrevistadas pela apresentadora Oprah Winfrey, dos Estados Unidos, e em 2015 foi eleita pela revista americana Forbes como uma das 12 mulheres que mudaram a moda italiana.

Diante do papel de pioneirismo como top model transexual e da notoriedade internacional que alcançou desde 2010, aos 35 anos a mineira diz que se sente feliz em ajudar a mostrar a diversidade brasileira ao mundo.

"Neste momento em que o Rio de Janeiro e o Brasil serão apresentados ao mundo, é imprescindível que a diversidade esteja presente. O Brasil é muito vasto, e toda essa diversidade precisa, de alguma forma, ser representada em um evento como esse. Foi justamente isso que me motivou a aceitar o convite para participar da cerimônia de abertura", explica.

Atualmente a brasileira vive em Gênova, na Itália, mas também tem bases nos Estados Unidos e no Brasil, e desde 2014 é "o rosto" da marca internacional de cosméticos Redken, do Grupo L'Oréal. A mineira foi a primeira modelo transexual a assinar um contrato deste porte com uma empresa de produtos de beleza em todo mundo.

PRECONCEITO E APROXIMAÇÃO

Na comunidade LGBT, entre gays, lésbicas e bissexuais, os transexuais são vistos por especialistas como os que mais sofrem preconceito na sociedade (inclusive dentro da própria comunidade LGBT).

Dados da ONG Transgender Europe (TGEU) compilados entre janeiro de 2008 e março de 2014 indicam que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, com 604 mortes registradas no período.

De acordo com o Grupo Gay da Bahia, que há anos compila os índices de assassinatos de LGBTs, somente em 2015 foram 318 mortos, sendo 52% gays, 37% travestis, 16% lésbicas e 10% bissexuais. Em 2014 foram 326 assassinatos. O levantamento é feito em 187 cidades brasileiras.

"A falta de conhecimento provoca o medo, e o medo leva ao ódio. O primeiro passo é compreender e se aproximar dessa realidade, se aproximar do outro. As pessoas precisam começar a perder o medo de aproximação desses grupos e entender que eles podem ter uma vida próxima às suas, seja no banco da escola, em cargos de liderança, ou em qualquer profissão", diz Lea T.

Questionada sobre a prostituição entre os transexuais e os riscos de maior exposição à violência e abusos, a modelo diz não ser contra a atividade. "Não sou contra a prostituição. Cada um pode fazer o que bem entende com seu corpo. A questão é que essa é a única forma de sobrevivência que se apresenta, em muitos casos, para as transexuais não apenas no Brasil, mas em todo o mundo", explica.

TRANSEXUAIS NAS OLIMPÍADAS

Desde 2003, a Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) passou a se pronunciar a favor de que atletas que tivessem passado por cirurgias de mudança de sexo pudessem competir sob o novo gênero nos Jogos.

Apesar de não estabelecer uma regra obrigatória, o COI emitiu recomendações a todas as federações esportivas internacionais para que deixassem de impedir transexuais operados de competir sob seus novos gêneros.

Em nota enviada à BBC Brasil, o COI esclareceu que em 2015 foi reunida uma nova comissão médica e científica para revisar tais orientações. Como resultado, o Comitê Olímpico Internacional passou a recomendar que atletas transexuais possam participar dos Jogos sob seu novo gênero mesmo que não tenham passado pela cirurgia de mudança de sexo.

Os Jogos de 2016 são a primeira edição das Olimpíadas em que a nova recomendação está em vigor.

"É necessário garantir que, ao máximo possível, os atletas transexuais não sejam excluídos da oportunidade de participar de competições esportivas. Requerer mudanças anatômicas cirúrgicas como uma pré-condição para a participação não é necessário para preservar a competição justa e pode ser inconsistente com as noções e legislações de direitos humanos em desenvolvimento", diz o documento enviado à BBC Brasil assinado pela comissão médica do COI em novembro de 2015.

Embora não tenha valor de regra obrigatória, o documento serve como recomendação e referência para todas as federações esportivas internacionais.

Há um detalhe, no entanto, nas recomendações quanto às duas mudanças de sexo. Apesar de descartar a necessidade de cirurgia anatômica em qualquer hipótese, o COI chama a atenção para os níveis de testosterona no sangue das atletas transexuais femininas, ou seja, aquelas que mudaram do sexo masculino para o feminino.


Duas condições precisam ser observadas para que a atleta possa competir nas categorias femininas. A primeira, que ela se identifique como do gênero feminino, ciente de que a preferência indicada ao COI não poderá ser alterada por no mínimo quatro anos, e a segunda, que seu nível de testosterona no sangue seja inferior a 10 nmol/l por no mínimo 12 meses antes da competição, a fim de evitar quaisquer vantagens sobre as outras atletas.

Aqueles que mudam do sexo feminino para o masculino podem competir nas categorias masculinas sem restrição alguma.

Para Lea T, a nova recomendação do COI é uma boa notícia. "É sem dúvida nenhuma um avanço, mas infelizmente parece que não há atletas transgêneros que tenham se classificado para os Jogos deste ano. Apesar disso, já é uma esperança para a comunidade e uma forma de inclusão", avalia.

A BBC Brasil entrou em contato com a sede do COI em Lausanne, na Suíça, para confirmar se haverá atletas transexuais na Olimpíada, mas em nota o comitê respondeu que em respeito à privacidade dos atletas não divulga este tipo de informação.

27/07/16

"Como é ser gay e idoso?" Por Ítalo Damasceno

Por Ítalo Damasceno
Fonte: Metrópoles

A primeira vez que eu pensei a respeito de envelhecer sendo gay foi num festival de cinema em Recife em que foi apresentado o curta “Bailão”, de Marcelo Caetano. Nele, vários senhores acima dos 60 anos, contavam sobre a sua trajetória e de como viviam sua sexualidade na terceira idade por meio de sua convivência na pista de dança do ABC Bailão, em São Paulo.

Saí da sala me sentindo um completo idiota: como eu nunca tinha pensado como seria minha vida, sendo gay, quando eu envelhecesse?


Envelhecer, em si, já causa um certo temor na maioria das pessoas; mas, entre os gays, que tradicionalmente são identificados por um culto ao corpo, à beleza e também à juventude, este temor se mostra ainda mais assustador.

Quantas vezes ouvi gente dizendo que queria morrer aos 40 anos, no seu auge, pois assim evitaria a degradação do seu corpo. Ou quem se mostrava mais precavido, dizia que junto com uma aposentadoria privada, estava investindo na “bolsa bofe”, para ter a garantia de uma vida sexual ativa num momento que ninguém mais iria querer seu corpo. Era assustador ouvir isso de quem eu considerava mais experiente do que eu.

Depois de passar dos 30, já comecei a ouvir coisas no sentido de que eu começaria a decair. No entanto, os anos tem passado e eu não me vejo decaindo em nada. Se meu senso crítico para a balada ficou muito mais apurado e exigente, parece que a cada ano eu me torno uma pessoa muito melhor e mais interessante.

Ou como bem resumiu Odete Roitman ao se descobrir trocada por uma mulher mais jovem, “eu não sou esse corpo que você está vendo aqui não, eu sou muito mais do que isso. Eu não sou a minha juventude e a minha pele não, meu filho, eu sou Odete Roitman e isso nem você nem ninguém vai poder tirar de mim”."

O vídeo que o Põe na Roda fez (encontre o vídeo duas postagens abaixo dessa) sobre homossexualidade na terceira idade é interessante. Para começar a escolha das pessoas selecionadas para falar sobre o assunto que inclui João Silvério Trevisan, uma das maiores autoridades sobre a vivência e história LGBT no Brasil.

Contudo, no vídeo eu esperava muito mais depoimento a respeito da experiência pessoal de cada um em viver sua sexualidade naquela idade, mas o vídeo ficou muito concentrado em expor como era ser gay na juventude deles e pelo que eles passaram até chegar nos direitos dos tempos atuais. Não que essa parte não seja importante, mas pela propaganda do vídeo, não era o que eu esperava.

Eu queria mesmo era ouvir se eles ainda se sentiam desejados por alguém, se eram felizes com suas famílias, ou se a sociedade, que vem encaretando a olhos vistos, fica ainda mais careta em relação a eles, cobrando uma postura que, se não atendida, os premiam com o título de “velhos salientes”.

Uma vez li uma reportagem sobre homossexuais que voltavam para o armário quando atingiam certa idade e iam viver nos asilos. Pessoas que passaram a vida inteira lutando para serem aceitas, ao atingir o terço final de suas vidas, achavam melhor se esconder novamente e soou muito triste esta realidade.

As conquistas sociais como o casamento e o direito a doar sangue são pequenos elementos que fazem a diferença na estrada da vida, inclusive no momento final dela. Envelhecer é para quem tem sorte, pois a única opção para isso é morrer e ninguém merece desejar a morte para não enfrentar o efeito mais natural da vida. Afinal, envelhecemos a partir do momento em que nascemos.

"Tolerância" Por Tony Ramos


Fonte: Folha

Liberdade é produzir em dramaturgia o que você imagina que seja o diferente. Mas você também não pode produzir dramaturgia às 22h e colocar alguém nu, fazendo sexo explícito. A cena [de sexo entre dois homens] de "Liberdade, Liberdade" [no ar na Globo] foi maravilhosa, de uma sensibilidade absoluta.

Tem que discutir esse assunto, ué. Vai botar para debaixo do tapete, o que é isso?

Quem tem medo de homossexualidade tem problema. Quem é cristão e se diz temente a Deus não pode ser preconceituoso. Quem acredita Nele é libertário, compreensível com todo tipo de manifestação.

22/07/16

COMO É SER GAY E IDOSO?

Curta: Somebody Loves Somebody



Somebody Loves Somebody
Céline Dion

I don’t want another piece of your mind
So take it somewhere else for the night
'Cause I can’t take another goodbye

If you wanna fight, bite your tongue
Before you explode, don’t let this get out of control
You don’t want me to leave you alone

When somebody loves somebody
That’s the way it’s supposed to be
Because you know
Nobody else would put up with your games
I don’t believe in love, if you don’t wanna go
That’s not the way it is
When somebody loves somebody
Eh, eh, eh, eh, eh, eh
When somebody loves somebody

Wait, I am hearing every word that you say
You wonder if you made a mistake
It’s written all over your face

You know it’s too late
We’ve already fallen in love
Tell me is it asking too much
For you to sticking it out when it’s tough
Is it ever enough?

When somebody loves somebody
That’s the way it’s supposed to be
Because you know
Nobody else would put up with your games
I don’t believe in love, if you don’t wanna go
That’s not the way it is
When somebody loves somebody
Eh, eh, eh, eh, eh, eh
When somebody loves somebody

Some people live their lives
Never believe in love
I don’t want that for us

When somebody loves somebody
That’s the way it’s supposed to be
Because you know
Nobody else would put up with your games
I don’t believe in love, if you don’t wanna go
That’s not the way it is
When somebody loves somebody

When somebody loves somebody
That’s the way it’s supposed to be
Because you know
Nobody else would put up with your games
I don’t believe in love, if you don’t wanna go
That’s not the way it is
When somebody loves somebody

When somebody loves somebody

20/07/16

"De onde vem a homofobia?" Por Francisco Daudt

Por: Francisco Daudt
Fonte: FOLHA


É uma palavra engraçada, sua tradução do grego é "medo de iguais". Ora, toda a natureza humana está voltada para ter medo dos diferentes: quem não é da tribo deve ser inimigo, pensavam nossos ancestrais africanos (só eles?), de modo que a melhor palavra grega para nós seria "heterofobia" (medo de diferentes).

Mas a acepção que ficou é de "ódio aos gays". Se você reparar, é um sentimento quase que exclusivo de homens em relação a outros homens. O que leva a isso? Que encrenca têm os homens com o homoerotismo?

É coisa complexa, começa com a formação da identidade masculina e o horror aos diferentes. Quando um menino é pequeno, ele começa a perceber que as meninas são de fato diferentes dele: só 10% delas são "Tom boys", sobem em árvores, jogam futebol, correm, lutam e são companheiras dele como um amigo. As outras 90% fazem coisas incompreensíveis para ele, como brincar de boneca e de casinha. São diferentes.

Ai, meu deus, já ouço os culturalistas a dizer que isso é "porque eles são ensinados assim". Não é! Crie um menino dos 90% (os outros 10% equivalem ao "Tom boy" das meninas) entre tias, babados e bonecas, dentro de um quarto cor-de-rosa, e ele vai querer correr e transformar as bonecas em super-heróis.

Os meninos fazem uma liga entre si, e, como dizia o clube do Bolinha, "menina não entra". É aí que começa a misoginia (aversão às mulheres), que vai ganhar adereços novos ao longo da vida dos meninos. Essa liga é fonte de identidade e de patrulha: quem se comportar "diferente" vai ser chamado de "mulerzinha", "mariquinha". Veja bem: não é de "viadinho". Não, o errado é parecer menina.

Aí também começa uma característica masculina diferenciada: a amizade entre homens. Na caça e na guerra nossos ancestrais depositaram sua sobrevivência nas mãos dos amigos, e isso nos selecionou para amar o amigo e confiar nele. Em termos de fidelidade, ou mesmo de intensidade, amor de amigo é único, forte e silencioso. Exceto quando de pileque: aí seus afetos tornam-se explícitos e sentimentais. Não há correspondente entre mulheres, é coisa de homem mesmo.

Mas só no pileque essa explicitude é perdoada; no resto do tempo, os amigos vivem se patrulhando, e/ou brincando, das possíveis veadagens de seus comportamentos.

Para piorar, ágape, filia e eros (camaradagem, amizade e amor sensual) não têm fronteiras rígidas. E pior ainda: entre um gay absoluto e um hétero absoluto existem cinquenta tons de cinza (ou os seis graus da escala Kinsey). De modo que não é incomum um hétero entrar em crise com sua identidade masculina por ter vislumbrado em si um desejo, um olhar, uma atração "incorreta".

Essa é a hora da ameaça, véspera do ódio. Como um islâmico inseguro de sua fé, que precisa matar os infiéis por isso, o "abalado" sai à caça do seu novo inimigo: está inaugurado o homofóbico perigoso. Ele quer matar fora algo que mora dentro de si: a suspeita de amor "errado", capaz de destruí-lo como o "homem" que ele se concebeu ser.

É quando homofobia retorna ao seu sentido original: medo de iguais. Pois não existem homofóbicos entre héteros absolutos. Eles não estão nem aí... 

19/07/16

Autora explica por que sexo entre homens heterossexuais não os torna gays

POR DAIANA GEREMIAS
FONTE: MEGACURIOSO


As pessoas são realmente controversas quando o que está em questão é a sexualidade alheia. Em um mundo ideal, onde cada um entendesse que ninguém tem nada a ver com o que as pessoas fazem entre quatro paredes, isso não seria problema, mas a verdade é que a lesbofobia, a transfobia e a homofobia impedem que os intolerantes tenham o mais simples dos raciocínios: cada pessoa tem o direito de fazer o que quiser com relação à própria vida sexual.

O fato é que a sexualidade humana é muito mais diversificada do que supomos. Não é apenas uma questão de hetero, homo e bi. Só a escala Kinsey, que é utilizada como referência nesse sentido, divide a sexualidade em SETE níveis.

Além desses níveis, já falamos também sobre o highsexual, que são pessoas heterossexuais que têm desejos homossexuais quando fumam maconha; e também a respeito dos g0ys, que são homens heterossexuais que têm relações sexuais com outros homens, mas sem penetração. E o que dizer de homens heterossexuais que fazem sexo com outros homens heterossexuais?
Sim, isso acontece

O Science of Us abordou a questão recentemente e, de fato, estamos diante de mais um tabu sexual: como é possível que homens heterossexuais tenham experiências sexuais com outros heteros e não sejam gays? Simples: da mesma forma que algumas mulheres têm relações com outras mulheres e nem por isso se identificam como lésbicas ou se consideram bissexuais.


E aí é comum que algumas pessoas pensem que esses homens são gays que não se assumiram ainda. Isso acontece porque a sexualidade masculina ainda é tratada de forma muito rigorosa: ou o cara é heterossexual tradicional ou é gay.

A professora e pesquisadora Jane Ward, da Universidade da Califórnia, abordou essa questão em seu livro chamado “Not Gay: Sex Between Straight White Men”. Na obra, ela nos lembra de que os conceitos de heterossexualidade e homossexualidade foram definidos há muito mais tempo, e por isso estamos acostumados com eles – mesmo quem não respeita os homossexuais entende que o comportamento homossexual existe.

Para a autora, a concepção da heterossexualidade masculina não é realista. Ela exemplifica isso ao abordar as relações sexuais que ocorrem entre homens em presídios, ainda que muitos detentos sejam heterossexuais. E isso não acontece apenas na prisão. Segundo Ward, esse comportamento é bastante comum em casas de fraternidade e alojamentos militares. Os homens só não admitem porque é realmente um tabu, talvez até para eles mesmos.

Se não causa tanto estranhamento que uma mulher faça sexo com outra mulher e nem por isso se considere lésbica ou bissexual, por que não conseguimos ter a mesma visão com relação ao homem que faz sexo com outro homem e não apenas não se considera gay como ainda se encaixa no perfil do heterossexual?

A autora nos lembra de que nosso estranhamento quando estamos diante de algo que foge da heteronormatividade social não é apenas um ponto de vista conservador, mas também resultado de uma série de pesquisas científicas e psicológicas que, ao longo da História, sempre reforçaram a ideia de que mulheres são seres inerentemente sexuais, disponíveis. Aqui podemos levar em conta também que por muito tempo esses estudos foram feitos sob a ótica masculina, o que explica muita coisa.

Essas mesmas pesquisas sempre consideraram muito mais o homem heterossexual e, quando muito, o homossexual, então não é de se estranhar que o sexo entre homens hetero cause tanto espanto. Por isso, para a autora, é importante falar a respeito de assuntos polêmicos e que, justamente por causarem polêmica, são mantidos abafados e viram tabus.

Ward acredita que é tão difícil enxergar outras possibilidades com relação à sexualidade masculina também porque o homem é sempre descrito como um ser que age racionalmente e que tem impulsos “impensados” por uma questão biológica. Quer um exemplo recente? A separação de Ben Affleck e Jennifer Garner e o suposto rompimento entre Gisele Bündchen e Tom Brady têm alguns pontos interessantes.

A babá Christine Ouzonian é apontada como “pivô” do fim dos dois relacionamentos. Ainda que tenha acontecido realmente alguma traição, as condutas do ator e do jogador de futebol americano raramente são alvos das críticas; e a babá, por outro lado, é vista como a única responsável. Por trás desse julgamento, está a ideia enraizada de que homens são seres que, quando em “tentação”, não controlam seus impulsos biológicos.

Esse mesmo raciocínio faz com que as pessoas busquem motivos para justificar um comportamento sexual masculino que, por ventura, saia dos limites da heteronormatividade. Nas palavras da autora, “os homens continuam inventando razões para encostar-se aos ânus dos outros homens”.

Ward avaliou também uma pesquisa realizada na década de 1960, quando o comportamento de indivíduos que se diziam heterossexuais e que, inclusive, eram casados, foi estudado. À época, era comum que esses homens se encontrassem com outros homens com a mesma identidade sexual, em banheiros públicos, onde realizavam sexo oral uns nos outros.

Naquele tempo, a conclusão da pesquisa foi a de que esses homens eram católicos, casados e que não usavam camisinha e também não queriam filhos. Dessa forma, eles eram forçados a buscar outra forma de “aliviarem suas necessidades”.


A autora também cita as brincadeiras muito comumente feitas entre homens heterossexuais, geralmente usando termos pejorativos como “bicha”, “viado”, “afeminado” em diálogos que, na verdade, atuam reforçando a heterossexualidade desses homens que são tão “machos” que até fazem piada com homossexualidade sem o menor problema.

“E esse é precisamente o argumento que eu faço com relação a como e por que é possível que essas práticas homossexuais na verdade reforcem a heterossexualidade, porque elas dão a oportunidade de o homem hetero mostrar ‘eu sou tão hetero que eu posso fazer isso sem, de fato, ter qualquer consequência que seja na minha orientação sexual diária, que é hetero’”, explica a autora.

Outra análise feita no livro é em relação a anúncios publicados em sites de encontro. Há diversos homens que fazem questão de dizer que são heterossexuais, mas que estão à procura de outros caras para algumas experiências sexuais. Nesses anúncios, Ward reparou que a linguagem é sempre “hiperheterossexualizada”, e, em alguns casos, o homem já deixa claro que os dois não vão assistir pornô gay.

Para Ward, não é possível dizer se esses homens são gays ou não, mas muitos deles deram entrevistas sobre o assunto e, apesar de participarem de práticas sexuais com outros homens, se consideram heterossexuais. “O que eu descobri comparando esses anúncios com os anúncios de homens gays foi que os anúncios publicados por esses caras heteros incluem não apenas muita homofobia. Há muito ‘eu odeio bichas’ e há também muito foco sobre como eles vão falar sobre mulheres. Eles vão assistir pornô hetero”, avaliou.

A diferença entre homossexuais e homens heteros que praticam apenas sexo homossexual, para Ward, é principalmente a questão de identidade. Segundo a autora, os gays se identificam com a cultura queer, enquanto os heteros não apenas não se identificam como sentem necessidade de fazer sexo e ter relacionamentos com mulheres.

“Se falamos a respeito de quem pratica sexo homossexual, nós geralmente pensamos ‘bem, apenas gays, lésbicas e pessoas que se identificam como bissexuais fazem sexo homossexual’, mas a verdade é que mulheres heterossexuais têm muito contato homossexual com outras mulheres, assim como homens heterossexuais, e isso significa que quase todo mundo pratica sexo homossexual, então eu acredito que ajudaria se começássemos a ter consciência de que o desejo homossexual é apenas uma parte da condição humana”, finaliza a autora.

E você, o que pensa a respeito de toda essa discussão?

18/07/16

Eleições e empoderamento LGBT: Todd Tomorrow

Por Danilo Motta


Nos últimos anos, Todd Tomorrow vem se destacando como um dos LGBTs mais influentes de São Paulo, segundo o ranking do Guia Gay de São Paulo. Ele se candidatou a deputado estadual em 2014 pelo PSOL e, agora, é pré-candidato a vereador na capital pelo mesmo partido. Confira a entrevista:

Porque você quer ser vereador?

São Paulo é um território importantíssimo na disputa do imaginário político nacional. É daqui que foram disparados, nos últimos anos, todo tipo de ação que culminou em manifestações Brasil adentro. E a Câmara Municipal da cidade é um espaço completamente dominado pelo ultraconservadorismo e a má-fé. Nós, LGBTs, frequentemente somos difamados no Plenário por figuras tenebrosas e corruptas que só querem nos usar de trampolim para suas carreiras políticas, que são baseadas em enganação e na promoção do ódio. Alguns vereadores se dizem nossos aliados mas, frequentemente, precisam deixar de apoiar nossas urgências por conta de interesses que eles creem serem “maiores”. Por isso, é importante ter ao menos uma LGBT na Câmara para rebater imediatamente o discurso de ódio contra nós e de igual pra igual. A Casa acabou de aprovar, de forma unânime, o Dia de Combate à Cristofobia, sem nenhuma contestação, um projeto de lei que é um verdadeiro deboche contra a comunidade LGBT, além de ser uma flagrante violação do Estado laico. Quero ser vereador pra isso, para não permitir que nós sejamos usados como desculpa para a aprovação de projetos de caráter demagógico e discriminatório. Além disso, tem o valor simbólico, já que seria a primeira cadeira ocupada no legislativo municipal por uma pessoa que se declara LGBT e na maior cidade do país.

Como avalia a importância de candidaturas LGBT?

Importantíssimo que nós nos coloquemos cada vez mais à frente das pautas que nos são caras. Não dá pra contar com candidaturas e mandatos “aliados”. Os partidos nos veem como pauta acessória, enquanto estamos sendo mortos. E candidaturas LGBTs que sejam competitivas podem mudar isso e nos colocar no centro do debate político e como protagonistas. Veja o exemplo do Reino Unido, em 2013 eles elegeram uma série de LGBTs para suas câmaras de vereadores e, logo em 2015, conseguiram com que 27 parlamentares abertamente homossexuais fossem eleitos para a Câmara dos Comuns, o equivalente a nossa Câmara dos Deputados. Foi um processo de muito sucesso. E é em algo assim que estou interessado.

Você teve mais de 11 mil votos na cidade de SP em 2014. Como vem se preparado para as eleições 2016?

Tenho conversado com muita gente e atuando no meio do caos. Preparar uma campanha é algo desafiador e muito desgastante. Estar nela é ainda mais difícil. Nós certamente iremos fazer uma campanha completamente fora dos padrões tradicionais, como em 2014. Temo que esta possa ser a campanha mais acirrada e suja dos últimos tempos. Estou voltado à minha saúde nesse momento, pois ela não pode falhar na hora “h”. Uma semana antes da votação de 2014 eu tive uma apendicite nervosa e fui operado às pressas. Foi assustador! Mas eu aproveitei e fiz campanha dentro do hospital. [risos]

Como avalia a gestão municipal do prefeito Fernando Haddad no que diz respeito às políticas voltadas para LGBTs?

O Haddad é um prefeito qualificado e moderno. Ele tem um bom entendimento sobre os anseios da população LGBT, mesmo que isso não se traduza automaticamente em políticas públicas para nós. E vejo com muita alegria o programa TransCidadania. Certamente é inovador e precisa ser mantido. Ele é dirigido para o nosso segmento mais vulnerável e por isso sou grato. Outras boas iniciativas foram adiante por conta da sua administração, que não pode ser considerada insensível, mas eu ainda acho pouco e o prefeito já deu algumas “mancadas”, como na questão do Plano Municipal de Educação onde fomos excluídos. Seriam muito mais programas e políticas para as LGBTs se a gente conseguisse se organizar para além das disputas partidárias. Eu acho que ele faria mais se soubéssemos como e onde pressionar. Ter uma cadeira no legislativo municipal ajudaria na interlocução com qualquer prefeito.

Quais projetos devem ser priorizados em um eventual mandato?

Tenho conversado com muita gente e atuando no meio do caos. Preparar uma campanha é algo desafiador e muito desgastante. Estar nela é ainda mais difícil. Nós certamente iremos fazer uma campanha completamente fora dos padrões tradicionais, como em 2014. Temo que esta possa ser a campanha mais acirrada e suja dos últimos tempos. Estou voltado à minha saúde nesse momento, pois ela não pode falhar na hora “h”. Uma semana antes da votação de 2014 eu tive uma apendicite nervosa e fui operado às pressas. Foi assustador! Mas eu aproveitei e fiz campanha dentro do hospital. [risos]

Como avalia a gestão municipal do prefeito Fernando Haddad no que diz respeito às políticas voltadas para LGBTs?

O Haddad é um prefeito qualificado e moderno. Ele tem um bom entendimento sobre os anseios da população LGBT, mesmo que isso não se traduza automaticamente em políticas públicas para nós. E vejo com muita alegria o programa TransCidadania. Certamente é inovador e precisa ser mantido. Ele é dirigido para o nosso segmento mais vulnerável e por isso sou grato. Outras boas iniciativas foram adiante por conta da sua administração, que não pode ser considerada insensível, mas eu ainda acho pouco e o prefeito já deu algumas “mancadas”, como na questão do Plano Municipal de Educação onde fomos excluídos. Seriam muito mais programas e políticas para as LGBTs se a gente conseguisse se organizar para além das disputas partidárias. Eu acho que ele faria mais se soubéssemos como e onde pressionar. Ter uma cadeira no legislativo municipal ajudaria na interlocução com qualquer prefeito.

Quais projetos devem ser priorizados em um eventual mandato?

Nós iremos atuar fortemente nas pautas de direitos humanos, na cultura e no meio-ambiente. A juventude da cidade precisa ter algum espaço no legislativo. Hoje ela é completamente ignorada pelos senhores do proibicionismo que ocupam as cadeiras da Câmara. Você até tem vereadores jovens, mas eles têm uma mentalidade do século 18! Um da minha idade até é entusiasta daquela campanha “Eu escolhi esperar”, que exalta a abstinência sexual. Completamente fora da realidade e ignorando os desejos de quem está descobrindo sua sexualidade em nome de dogmas religiosos. Nosso mandato dialogará especialmente com o setor progressista da cidade. Se fosse pra fazer mais do mesmo a gente nem entraria na disputa.

Por que a escolha pelo PSOL?

O PSOL é hoje o único partido onde encontram espaços de debate, as pautas progressistas, de direitos humanos e anti-proibicionistas. Minha afinidade com a legenda vem daí. Existe uma vontade coletiva sincera de enfrentar o estado atual das coisas e isso me atraiu. Não vejo o mesmo acontecer nas outras legendas. Foi o partido que nos ajudou em bloco na crise da Comissão de Direitos Humanos e Minorias de 2013, na qual atuamos fortemente como resistência. De 2014 pra cá, nós conseguimos impedir que outro fundamentalista conseguisse sua presidência. E o PSOL está lá pra nos apoiar integralmente. Ainda assim, gosto de deixar frisado que o partido é um instrumento; escolher o PSOL é dar legitimidade para ele nas pautas que consideramos emergências. E se não houvesse reciprocidade, não haveria razão pra estar filiado. Um exemplo disso foi a turbulenta passagem de um deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro e que se revelou um fundamentalista religioso. Não havia como se manter na legenda se ele não fosse expulso, depois de ter dado declarações homofóbicas. Coloquei minha desfiliação na mesa e isso foi um fator para a expulsão dele. Isso jamais aconteceria em outro partido. Enquanto o PSOL acreditar nas pautas que tocamos, estaremos juntos.

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