30 de jan de 2015

"Poligamia em debate: três é demais?" Por Luciano Bottini Filho

 
Por Luciano Bottini Filho
Visto no JOTA

Nem mesmo acabou a luta por direitos de casais gays em todo mundo, noruegueses já querem dar um passo à frente liberando uniões com três ou mais parceiros. O casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se legal em 2009 no país escandinavo, quando a legislação se tornou “neutra” para questões de gênero entre nubentes. Agora, a ala jovem do Partido Progressista norueguês, que faz parte da coalizão do governo, quer também leis indiferentes ao número de cônjuges em um casamento. Atualmente, a poligamia é ilegal na Noruega.
 
“O Partido Progressista da Juventude não apoia explicitamente a poligamia, nós simplesmente não acreditamos que é algo que deva em princípio ser banido pelo governo”, disse ao  JOTA o presidente do partido, Atle Simonsen. “Nós desejamos abolir todas e quaisquer  leis relacionadas ao casamento.”
 
Os progressistas noruegueses são devotos das ideias clássicas liberais, onde o livre-arbítrio é a ordem. Cidadãos devem viver como bem entendem, desde que não prejudiquem os outros, com o mínimo de intervenção do governo. Os correligionários pensam que o casamento é estritamente uma questão que envolve as partes entre si e não depende do Estado para sua regulamentação ou status especial.
 
“Se duas pessoas pretendem ir à Igreja e fazer um pacto com Deus e assinar contratos relativos à herança e outras coisas, então não deveríamos impedi-los. Se você quer ter um relacionamento com várias pessoas, e fazer contratos semelhantes e chamá-los de casamento, vá em frente!”, exorta Simonsen. “Se quiser também usar um abajur na cabeça e chamar de casamento, nós não iriamos prendê-lo, certo?”
 
O jovem político norueguês, de 26 anos, prevê ainda um longo caminho até a flexibilização do casamento em seu país pois ainda não há consenso na população sobre a poligamia. A proposta foi levantada pelo partido desde 2013 e tem sido alvo de criticismo até mesmo dentro do partido.
 
Por trás dessas ideias, a poligamia se tornou um problema social para as autoridades de imigração na Noruega e outros países da Europa que recebem árabes, cuja religião permite a convivência simultânea de até quatro mulheres com um mesmo marido. O pedido de reunificação com mais de uma esposa para um marido que mora na Noruega ainda não está previsto em lei. Nos Estados Unidos, onde também há um choque de leis e tradições, pesquisas dão conta da existência de cerca de meio milhão de famílias em poligamia.
 
Judiciário brasileiro
 
Enquanto na Noruega o debate se dá pela via política, no Brasil é na Justiça que o ativismo e a renovação jurídica ocorre. Consolidado o termo união homoafetiva desde 2011 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a bola da vez são as “famílias poliamorosas”, um novo jargão que está abrindo espaço para a jurisprudência sobre uniões a três ou mais pessoas ou simplesmente paralelas. “Esta é a grande questão do direito de família atual: a quebra do princípio da monogamia”, considera o presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam), Rodrigo da Cunha.
 
A situação mais comum no Brasil são homens que casam com mais de uma mulher ou mesmo casamentos paralelos em que uma mulher não sabe da outra. “É normal que uma esposa chegue na Previdência e descubra que o marido tinha outra depois que ele morreu”, diz Cunha.
 
Do ponto de vista das pensões, as decisões têm sido mais avançadas já que a análise é feita de forma mais neutra. Prova-se a dependência econômica e deixa-se de lado a moralidade. O jeitinho brasileiro dado nas varas previdenciárias desagradou o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), que tem um recurso extraordinário no STF com repercussão geral, o provável leading case que poderá dar para as famílias poliamorosas o mesmo caminho dos homossexuais.
 
“É a mesma hipocrisia histórica quando se dizia que os filhos havidos fora do casamento era ilegítimos. Faziam de conta que eles não existiam, tudo em nome da moral e dos bons costumes”, reclama o especialista em direito de família.
 
Segundo o advogado Rafael da Silva Santiago, autor do livro “Poliamor e Direito das Familias”, publicado neste ano, o tema aparece em decisões esparsas pelo Judiciário. “O que se tem notícia no Direito brasileiro é a decisão de um ou outro juiz de primeiro grau admitindo a formação de núcleos familiares decorrentes de relacionamentos múltiplos”, explica.  “Se muitos juristas ainda não se conformam com o casamento e a união estável homoafetiva, o que dizer do casamento e da união estável poliamorosa?”

Sam Smith conta que seu primeiro amor era hétero; “ele cuidava de mim contra o resto da escola”

 
 
Por Felipe Dantas para o PAPEL POP
 
Sam Smith sempre consegue deixar nosso coração na mão quando fala de amor, em entrevistas ou na música. Lembra quando ele foi extremamente fofo ao falar que terminou um namoro? Agora ele conta como foi ter um amor não correspondido pela primeira vez.
 
Para a Rolling Stone, Sam contou que sua primeira paixão aconteceu na adolescência e que escreveu uma intensa carta de amor ao pretendente. Acontece que o garoto era hetero, mas ele não foi babaca e escreveu uma resposta, dizendo que via o cantor como um amigo.
 
Isso me emociona. Ele cuidava de mim contra o resto da escola. Ele queria ter certeza de que se alguém me irritasse, ele iria me defender. Ele poderia ter me infernizado, sabe?

Segundo a revista, ele contou isso com lágrimas nos olhos. AI GENTE :(
 
Ele também conta que sofreu preconceito depois de se assumir, como na vez em que estava na rua com o pai e alguém o chamou de “viado”.
 
Foi constrangedor pelo meu pai ver isso, porque eu imagino como você se sente sendo um pai. Você quer matar esse tipo de gente. Eu sempre me senti constrangido pelas pessoas que estavam ao meu redor. Mas isso nunca me afetou profundamente.

Sam Smith é capa da próxima edição da Rolling Stone. Não tem como não se apaixonar por ele nessa foto:
 
Ainda na entrevista, o cantor diz ser inseguro sobre seu corpo. “Eu gostaria de perder peso para o Grammy [...] Às vezes eu tenho muito orgulho de não parecer como outros astros do pop. Mas há momentos em que penso ‘Ahh, queria ter um abdômen igual o do Bieber”.
 
Sam Smith é indicado ao Grammy de Álbum do Ano, categoria que a diva dele, Beyoncé, também está. “Ela merece bem mais que eu. [...] Se eu ganhar, vou dá-lo a ela”.
 
Já está podendo pedir ele em casamento com tanta meiguice???

Roger diz ter quebrado barreira no Brasil ao posar nu:"tirei o preconceito"


Por Patrick Mesquita para o UOL Esporte
 
Alguns jogadores ficam marcados mais pela relação que construíram com um clube e torcida do que efetivamente por lances memoráveis. O ex-goleiro Roger é um bom exemplo disso. Aposentado desde 2008 devido a uma lesão no ombro, ele diz ainda ser parado nas ruas por muitos dos torcedores do São Paulo. Roger ficou muito tempo, mas não jogou tanto. Os apenas 51 jogos em oito anos evidenciam a dificuldade de desbancar Rogério Ceni, a maior bandeira do clube. Mas, sobre o antigo concorrente, só elogios. "Ele estava anos luz à frente do que estava acontecendo na época."
 
O arqueiro participou do início de uma era vencedora na metade dos anos 2000 e venceu títulos como o Campeonato Paulista e a Libertadores. Mas sua passagem pelo time tricolor também ficou marcada por uma grande polêmica devido a um ensaio nu no começo dos anos 2000, que rendeu o incomodo apelido de "peladão" ao ser o pioneiro entre os boleiros a posar na revista G Magazine.
 
Hoje morador da cidade de Cantagalo-RJ e totalmente voltado para a vida política no local, onde chegou a concorrer ao cargo de prefeito, Roger falou ao UOL Esporte sobre a carreira, a amizade com Rogério Ceni, o ensaio para a revista e a crise  que isso gerou com o então técnico Paulo César Carpegiani.
 
Ensaio nu
 
"Na realidade foi um mal-entendido essa história da revista. Em 98, o São Paulo já sabia dessa negociação. Só que no contrato, como não tinha nada que ofenderia a instituição, o clube não ligou. Aconteceu com Vampeta e Dinei antes. O Carpegiani chegou para mim falou: 'Roger, posso te pedir um favor? Eu assinei um pré-contrato e em janeiro vou para o Flamengo. Tem como adiar para janeiro?' Eu achava que tinha. Fui negociar com a revista e deixaram adiar.

 
Aí fomos para o jogo no Morumbi. O Carpegiani foi para a coletiva e perguntaram da negociação com a revista. Ele disse que se fosse para a banca, eu não jogava mais no São Paulo. Quando cheguei na minha casa tinha cinco repórteres. No dia seguinte a revista queria soltar pela polêmica e não teve como segurar. Falei com o Carpegiani. O São Paulo se absteve e disse que era decisão do treinador. Aí eu fui para longe, emprestado para o Vitória.
 
Muita gente achou que era preconceito dele. Tanto que em 2001 eu voltei ficou ruim para ele que ficou taxado. Ele tentou me acusar de ter sacanagem. Como eu ia fazer isso se a empresa me trouxe de volta?".
 
Preconceito e o apelido de "peladão"
 
"Eu achei que ia ficar mais o apelido de peladão. Faz tempo que não ouço. Já ouvi muito, mas o Corinthians teve dois. Eles passaram normal em uma torcida que cobra muito mais. Viu essa história do Emerson Sheik dar selinho? E não deu nada. E a minha deu.
 

Acho que ajudei a quebrar o preconceito. As coisas se modernizaram e ficou bem natural. As amigas da minha mãe viram. Ficou sem preconceito de quem faz ou deixa de fazer. Deixou de ser estranho."
 
Admiração por Rogério Ceni
 
"Teve uma época que uma turma de qualidade estava subindo da base: Diego Tardelli, Kleber Gladiador.  Tinha aquele amadorismo no futebol brasileiro. Na hora do treino de finalização, tínhamos uma brincadeira de quem fizesse menos gols pagava o jantar. O pessoal tentava fazer gol de cavadinha. O Rogério não gostava e falava: 'quero ver fazer isso com o Morumbi lotado'.
 
Eles não entendiam, falavam que parecia diretor, treinador, chato. Eu entendia. O futebol estava caminhando para o profissionalismo. Hoje você faz gol e tira camisa do patrocinador que gasta 40 milhões por ano com você. Não pode acontecer. O Rogério já pensava isso lá atrás".
 
Carinho pelo São Paulo
 
"Ficou o carinho e sou torcedor do São Paulo. Eu tinha espaço conquistado. Não me considerava reserva, me considerava um líder. Em São Paulo, quando eu vou todo aniversário do meu sogro, o pessoal diz é o Roger do São Paulo e dizem que eu não deveria ter saído.
 
Vida política
 
"Fui vereador de 2008 a 2012. Me candidatei a prefeito e fiquei em segundo. Tudo indica que vou concorrer novamente sim. Goleiro e político é para mostrar que sou louco mesmo.
 
Na realidade respiramos política na minha família. Minha esposa é paulista e ficou espantada. Meu avô foi um dos primeiros vereadores da história de Cantagalo. Meu tio foi prefeito duas vezes. A família é política. Nasci e cresci na política. Em 99 eu falei que seria prefeito". 
 
 

"De mãos dadas na rua ainda é muito pouco" Por Célio Golin

 
Por Célio Golin
Visto no Sul 21
 
Classe social e acesso ao poder

Se hoje em dia é quase rotina vermos gueis e lésbicas andando de mãos dadas com seus pares nas ruas, em parques e em espaços fechados, podemos afirmar sem medo que essa realidade denota uma mudança de paradigma no “mundo guei” e é claro, na sociedade brasileira. Neste artigo pretendo problematizar alguns pontos que entendo são chaves no debate. Um deles é como a classe social interfere nas posições políticas das pessoas, nos rumos do movimento e suas contradições. Como o capital condiciona a mobilidade dos sujeitos, considerando estética, local de moradia, gênero e cor. Como o gueto vem mudando, “perdendo” espaço neste novo cenário.

Em 1991, ano de nascimento do nuances – grupo pela livre expressão sexual, a rua era local de pegação, de flerte, de olhares suspeitos para o “povo” LGBTT (sigla que não existia na época). Mas dois homens ou duas mulheres de mãos dadas ou abraçadas como vemos hoje, passados vinte anos, era algo impensável, e que efetivamente não acontecia. Se pensarmos em tempo histórico, entendo que essa mudança de comportamento foi uma conquista e tanto: basta dirigirmos nosso olhar para cidades pequenas e interioranas, onde o tema da homossexualidade era proibido, e onde hoje as bichas e sapatas não pedem licença para se assumir.
 
Sei que muitos dirão que ainda existe muito preconceito e violência. Eu concordo. Porém os tempos são outros, e devemos estar atentos para essa nova conjuntura política e social. O próprio “mundo guei” se transformou, inclusive com o surgimento de outras personagens que reivindicam novas identidades. É o caso das mulheres e homens trans, que não se reconheciam entre os conceitos daquela época. Para ilustrar as diferenças entre aquele cenário e o contemporâneo, tome-se o exemplo dos bares/ boates e outros locais que antes eram frequentados exclusivamente por gueis e sapatas, os guetos. O gueto era local importante para encontros, namoros, confidências, lugar de anonimato. Atualmente os guetos vêm perdendo espaço, pois essa mudança de comportamento de romper com o armário e ocupar a via pública dá outro sentido ao antes necessário anonimato.

Nos guetos se construía um pacto de solidariedade, de pertencimento, pois a ruas, os espaços institucionais, bem mais que hoje, eram lugar de desaprovação e rejeição. Muitos que chegavam pela primeira vez em um gueto sentiam naquele espaço um local de iguais, uma situação de conforto, por perceber que muitos e muitas que estavam ali eram pessoas comuns como eles.

Nesta nova conjuntura, os guetos mudaram de certa forma o seu sentido, se antes eram locais de ferveção e sociabilidade, hoje são exclusivos para ferveção, onde o anonimato é quase regra. Esta não é uma particularidade do “mundo guei”, é claro, todas as tribos sempre vão ter seus espaços de transgressão, mas é evidente que no “mundo guei” isto sempre foi e continua sendo um local de muita significação.Também temos que ressaltar que cada cidade encontra suas formas de sobrevivência/resistência e o que acontece em Porto Alegre tem suas peculariedades. O nuances publicou sete edições do Guia Gay de Porto Alegre, e isto faz sentido, pois não vemos outras tribos lançando seus guias de pegação.

Quero refletir, considerando esse contexto, sobre o debate em torno das questões que envolvem a vida desses sujeitos, debate que está, a meu ver, pouco aprofundado na sociedade brasileira, senão pelo próprio movimento LGBTT.

A mudança no comportamento de gueis, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais nos mostrou que precisamos pensar em outras questões envolvidas, já que a cidadania ainda é privilégio de poucos e poucas. Por exemplo, a questão da divisão da sociedade em classes sociais, permeada é claro, pela questão de gênero e raça, são fatores importantes na movimentação social.

É evidente que numa sociedade capitalista, se o dinheiro não é definidor de tudo, norteia muitas coisas, principalmente o acesso aos bens de consumo e suas consequências, interferindo diretamente nos locais sociais nos quais os sujeitos estão inseridos. É a partir da classe social que os sujeitos de forma hegemônica tomam suas posições frente ao mundo.

A mobilidade social, por exemplo, depende do dinheiro, e do conhecimento acumulado que está ligado diretamente à formação e ao acesso à informação. O capital proporciona e interfere de forma direta nas condições de poder frente ao mundo. Em se tratando dos LGBTT, somam-se a isso as questões que envolvem gênero e cor, que estão sempre associadas a uma maior legitimidade ou não.
É claro que isso não se dá somente com os homossexuais. Pessoas da periferia também estão submetidas a essas regras de mercado social. Nesses espaços se constroem outras lógicas de referência e de poder, e são com elas que os sujeitos dialogam socialmente.

Nos últimos anos a mídia e parte do próprio movimento LGBTT têm atuado de forma protagonista nesse cenário, muito ligado à ideia de consumo. É visível que os gueis e as lésbicas que mais acessaram os direitos civis pertencem às classes media e alta, branca, com poder, inseridos no mercado de consumo. São esses LGBTTs, brancos e ricos, com capital simbólico que estão se posicionando, acessando e questionando o poder e obtendo direitos que até então eram somente exclusivos dos heterossexuais.

Questões como estética e local de moradia interferem nesse processo. A cobertura dada pela mídia nas Paradas LGBTT sempre evoca o poder de consumo e o “bom gosto” das bichas. Os que não estão presentes nesse contexto higienizado, ou seja, pobres e negros, ainda estão à margem. O mesmo ocorre com as travestis, homens e mulheres trans. A estética, muito valorizada pelas bichas, também tem seu lugar de importância. Agora, por exemplo, o estilo da moda é estar barbuda.

Como referência simbólica e concreta, podemos citar a presença dos gueis em aeroportos, que antes eram lugares de muito glamour, e as finas adoravam dar seu close, lugar onde se afirmavam socialmente a aumentavam seu capital simbólico. Agora, os aeroportas, bem parecidos com rodoviárias, não têm mais charme. Não têm mais a Varig com suas louças de porcelana, onde se podia escolher o prato no cardápio. As comissárias, aquelas bichas fazidas desfilando por entre as poltronas com aquela impáfia que só nós temos. Isto pode parecer simplista e até vulgar, mas o poder também está contido nestes gestos/espaços. A elite hetero também esta incomodada com esta nova situação, dividindo espaço com os pobres na fila de embarque.

É evidente que a exclusão desses sujeitos também está ligada a questões morais que na sociedade brasileira são muito fortes. Se você é bicha, mas branca, e está inserida no mundo do consumo e do shopping center, tudo bem! Mas se você é uma bicha fechativa e pobre, ai é um problema. É claro que a mudança de gênero, a “fechação”, em determinado momento, coisa muito comum no mundo das bichas, pode alterar esse local de legitimidade.

De onde venho, com quem ando, quais locais frequento, são nessas situações que o dinheiro determina por onde poderei acessar e do que vou usufruir. A cidade/cidadania é proporcional ao local social no qual você existe. Enxergamos a cidade, os bens materiais, culturais, os serviços do Estado, o acesso à cultura, à educação num contexto construído pelas relações de poder, a partir de nossa existência de classe. A violência também aí se faz presente.

A mobilidade dentro da sociedade pode ser fruto de outros fatores, como beleza, talento individual. Exemplo disso é caso das travestis que se prostituem nas ruas. Mesmo tratando-se de um cenário de margem, a beleza e o poder interferem no local geográfico e social: as travestis que batalham ao longo da Avenida Farrapos posicionam-se em locais diferentes de acordo com sua beleza e idade. Nos melhores pontos ficam as belas e novas, e as mais velhas e feias são escanteadas para os pontos distantes e de menor potencial comercial, local conhecido por fundão. São pessoas que acabam desenvolvendo uma forma de resistência, pois também na margem enfrentam uma situação totalmente adversa.

É claro que o capitalismo se sabota, pois os mais empoderados, os de cima, muitas vezes encontram-se intimamente em situação de desespero somente na marginalidade, e somente nela, encontram a possibilidade de realização de desejos. No seu mundo “glamuroso”, não há o tesão que alimenta seus prazeres. É como se diz: de noite todo o gato é pardo! Nesse universo do submundo os sujeitos criam personagens ou assumem o que realmente são, eventualmente até mudando de gênero. Ou não assumem nada, apenas sentem-se diferentes do dia-a-dia, quando têm outra postura.

Durante o dia passam despercebidos ou invisibilizados, na noite acabam sendo os, ou as protagonistas do palco. Mas também há aqueles que, pelo contrário, personagens que durante o dia são sujeitos de status social, na noite acabam assumindo um papel de coadjuvantes: são eles os clientes.

Mas não é somente à noite que a performance muda. Aqueles velhotes gueis, simpáticos que saem de casa e se dirigem a praças, bares ou saunas, no meio da tarde, enquanto os trabalhadores comuns labutam, nestes locais, mudam de comportamento, incorporam sua sexualidade, e a partir daí tornam-se ousados, atrevidos em suas atitudes frente ao mundo, dando outro significado as suas vidas.

Por outro lado, os garotos que saem de suas casas de forma anônima sem deixar rastro de desconfiança, em praças, ruas e saunas, incorporam atitudes que seus corpos expressam através de uma linguagem repleta de códigos que somente poucos entendem. Dentro de um espaço urbano diverso, movidos pelo desejo, esses fulanos criam um universo único de transgressão rompendo as amarras sociais impostas pela moral.

Os significados existenciais vão estar pautados por essa condição de visível e invisível, conforme a sociedade ainda obrigar a usar máscaras. Tudo é relativo e o rompimento desse regramento vai ser influenciado pela condição econômica, pois os mundos individuais se constituem a partir de vários fatores, objetivos e subjetivos.

Estas questões são fundamentais para pensarmos em avançar politicamente, pois a classe social é determinante no momento de pensarmos em conquistar direitos (que já existem para a população heterossexual). Afinal, direitos para quem? Para quem já está inserido no mercado, ou para todas as pessoas, inclusive os e as moralmente indesejáveis?

O movimento LGBTT, organicamente formado pelos muitos/as militantes que batalham para a igualdade de direitos, ainda não percebeu essa discussão, pois, acha que pelo fato de sermos todos “discriminados” mesmo de forma desigual, estaríamos todos no mesmo campo político. Sem contar que, para uma grande parte desse/as militantes, a preocupação central é interesse pessoal, calcado em um narcisismo quase doentio.

Já sabemos que são múltiplos fatores que levam as pessoas a tomarem suas posições políticas e no caso da classe social, isto fica ainda mais evidente. Por isto é tão difícil construir uma identidade política e como consequência, por exemplo, elegermos representantes LGBTT no parlamento. Na hora que muitos LGBTTs optam por posições políticas/econômicas, a classe social fala mais alto e isso se revela em períodos eleitorais.

Estratégias sempre em disputa.

O parágrafo anterior talvez seja o pano de fundo pelo qual se percebe diferentes estratégias dentro e fora da militância, duas formas de intervenção política. Acredito que, dentro deste contexto de visibilidade que a pauta LGBTT tomou nos últimos anos, vieram à tona sentidos distintos de como se posicionar frente a status quo. Uns, com mais poder econômico e simbólico forçam para que as conquistas sejam a partir da norma da heterossexualidade, do capital, ou seja, temos que conquistar o que eles, os “normais” têm, e ficar num mesmo patamar. Esta estratégia é conhecida como assimilacionista.

Outra linha política é a que questiona o poder e mesmo a normalidade da heterossexualidade, é neste campo o Nuances se filia, pois entende que o debate em torno da conquista de direitos vai além dos próprios, mas na contestação da dita normalidade da heterossexualidade que, para o Nuances, é mais uma construção ideológica de poder. Neste sentido esta posição é mais contestadora e aprofunda o debate em torno das reivindicações frente ao estado e sociedade de forma geral, pois também considera a classe social como um fator importante.

Esta posição vê na contestação da norma a possibilidade de abertura do debate em outro nível, trazendo inclusive os heteros para a discussão e e tendo a moral imposta à sexualidade como pano de fundo. Para o nuances, romper com as hierarquias de gênero está diretamente ligado ao cobate a homolesbotransfobia. Talvez seja por isto que os assimilacionistas não gostam de trazer para o debate estas questões, pois isto muda o sentido de estar no mundo, e neste caso o consumo e a classe social dita às regras em favor dos mesmos.

O submundo das bichas também incomoda as “de cima” pela própria nomenclatura utilizada, como as palavras, bicha, viado, sapata etc..a flexão do verbo para o gênero feminino. Para o Nuances, usar estas palavras vai ao sentido de contestação, da ressignificação dos termos e assim disputar poder simbólico contido nas palavras. Além disto, reconhecer que neste universo, e principalmente na periferia a norma não faz sentido, pois não faz parte da vida destas pessoas.

No meio disto tudo estão ainda os militantes profissionais, para quem a preocupação central é hegemonizar o debate e, como consequência, o filão eleitoral deste novo nicho. Isto está presente entre militantes ligados a partidos políticos. Para estes, questionar o padrão moral, heterossexualidade não é importante, mas sim se vitimizar ao máximo, colocar a culpa da homofobia no capital e tirar daí seus frutos eleitorais.

Célio Golin é secretário geral do Nuances – grupo pela livre expressão sexual

29 de jan de 2015

29 de janeiro, Visibilidade Trans para quem?

 
Por Travesti Reflexiva
Visto no Ecos do Porão
 
Estar visível não significa necessariamente algo que converta-se em um feedback saudável. Eu tenho uma relação agridoce com a visibilidade, costumo andar pelas bordas quando estou na rua, quase esbarrando nos muros, como se eu quisesse entrar neles e ser invisível. Finjo não estar atenta a qualquer sinal de que a minha identidade foi percebida, ela é berrante! Acho, aliás, chego a ter certeza que a palavra "aberração" está escrita em minha testa. O preço que pago quando observam e apontam a minha travestilidade é muito alto, torno-me alvo de agressões, chacotas e deboches. Descobri que é mais fácil camuflar-me entre os considerados normais e tentar viver em paz.
 
"Olha lá a sua namorada passando!" Gritam para alguém enquanto ferem-me junto. Os dedos que me denunciam e são apontados para mim anunciam uma realidade: é um crime ser travesti. Quer dizer, quem sabe criminosos conseguem ter um reconhecimento social maior!
 
Ou até mesmo um caso clássico onde uma conhecida afirmava que havia mostrado fotos minhas para um primo, no desejo de ridicularizá-lo. "Bonita, né?" Ela perguntou antes de contar - "É travesti!"

Não são todos que podem dizer que já viram travestis durante o dia, a sociedade chega a acreditar que as travestis são criaturas noturnas. Saem do chão quando anoitece, vão prostituir-se e voltam para o chão quando o sol começa a surgir. Afinal, o chão é o lugar determinado previamente para "gente" como eu.
 
Estudo em uma faculdade na qual sou considerada pelos discentes um corpo estranho que deve ser repelido. As pessoas reduzem a instituição de ensino superior a sala de aula e esquecem dos corredores, praças, banheiros e outros recintos. Em todos eles posso ouvir os cochichos, as mãos que são usadas para minimizá-los, os cotovelos que são empurrados, os olhos esbugalhados...

Expressões corporais que sussurram-me: esse lugar não é pra você.
 
Quando Jared Leto ganhou o Oscar por interpretar Rayon, imediatamente lembrei-me dos teatros de outrora onde homens interpretavam mulheres pois a apresentação delas era proibida e, dos negros que eram zombados pelos brancos na caricatura abominável conhecida pelo termo "blackface".
 
Será que não existia nenhuma pessoa trans qualificada para interpretar aquele papel? E a respeito de todos os outros filmes sobre o tema? Quantos foram interpretados por travestis, transexuais ou transgêneros? Dois? Um? Zero?
 
Se formos pegar a mídia brasileira iremos ter um longo histórico de pessoas cis parodiando pessoas trans em novelas. Em um caso recente uma travesti foi chamada para interpretar - pasmem - uma prostituta. Até porque esse é o destino dogmático de toda travesti, não é mesmo? Não existe travesti gerente, professora, faxineira, vendedora ou empresária. Imagina se colocam uma travesti médica na novela? O revertério que isso não iria dar na cabeça do telespectador!
 
"Quem esse povo da margem pensa que é? Até ontem estavam na esquina! Agora querem dizer na tv que conseguem um emprego formal?"
 
Eu tinha 18 anos quando assisti a Lea T em uma das suas primeiras entrevistas, até aquele momento eu havia internalizado que o meu ponto de chegada seria - em caso de sorte - o salão de beleza. Ter visto na televisão essa pessoa que compartilhava uma trilha similar deixou-me esperançosa, se ela conseguiu ocupar aquele espaço eu também conseguiria ocupar outros.
 
Só eu sei como a representatividade importa. Contudo, não quero supor que o papel das pessoas cis deva ser restrito ou que o papel das pessoas trans deva ser exclusivamente esse, eu estaria criando uma barreira indesejada. Quero propor apenas que a nossa inserção ocorra de forma que desconstrua a rede de estereótipos que orbitam ao redor das esferas midiáticas. Que a falta - acarretada pela transfobia - de travestis, transexuais e transgêneros em espaços públicos seja preenchida a partir da notabilidade dessas pessoas em locais de disputa. Que essa visibilidade naturalize a nossa presença, não mais causando a tradicional repulsa.
 
Ótimo filme, mas na minha luta nada acrescentou. Jared Leto imitando uma travesti somente consegue me dizer - novamente - uma coisa, que nem para interpretarmos a nossa própria existência nós prestamos.  

Dia da Visibilidade Trans - 29 de Janeiro

 
 
Para celebrar o Dia Nacional de Visibilidade Trans (29 de janeiro), o Programa Rio sem Homofobia, executado pela Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, lançou materiais informativos sobre os direitos civis de travestis e transexuais. 

Homo Receita: "Sorbet de Limão com calda de Morango"


“O B de LGBT poderia significar ‘banana’ que ninguém se importaria” Por Jarid Arraes


Chamadas de indecisas e promíscuas, muitas vezes ignoradas pelo movimento LGBT, as pessoas bissexuais lutam por direitos básicos, como o da livre expressão e o de se relacionar livremente com quem dividem afeto ou sentem atração
 
Por Jarid Arraes para a Revista Fórum
 
Indecisas, promíscuas, que vivem em cima do muro, confusas e infiéis. Muitas pessoas bissexuais já foram catalogadas com termos como esses ao compartilharem algo a respeito de sua orientação sexual. Além de extremamente cansativa, a questão é ainda pior quando gera sofrimento e exclusão.
O problema se deve também à ignorância, fortalecida pela omissão de muitos grupos, ONGs e instituições, que mesmo quando se posicionam favoravelmente, falham em promover informação de qualidade e apresentar as demandas das pessoas bissexuais. Entre protestos e relatos, as pessoas bissexuais lutam por direitos básicos, como o da livre expressão e o de se relacionar livremente com quem dividem afeto ou sentem atração.
 
Compreendendo a si
 
“Não lembro ao certo quando ‘descobri’ a identidade bissexual, porque lembro que passei por um grande período de confusão. Acreditei que eu era lésbica boa parte da minha adolescência, por não conhecer nenhuma referência de que bissexualidade sequer existia. Eu achava que ou alguém era hétero ou homossexual”, relata Jamille Nunes, feminista e integrante do coletivo Salto. Nunes achava que era uma lésbica que ocasionalmente se interessava por homens, mas ainda um interesse menos intenso do que sentia por outras garotas. “Passei muito tempo tentando suprimir esses desejos por homens, acho que numa tentativa de me encaixar na comunidade lésbica, e não sei ao certo quando compreendi que existia uma identidade que me contemplava, mas lembro que foi perto dos meus 18 anos. Foi um alívio”.
 
Embora marcada por sua subjetividade, a experiência de Nunes é similar a de outras pessoas que não tiveram a sexualidade perfeitamente definida em uma experiência, com toda clareza; pelo contrário, o processo pode ser muito mais complexo e profundo do que um determinante divisor de águas. Daniela Furtado, ativista do grupo Bi-Sides, cresceu em uma família repleta de mulheres heterossexuais e, embora soubesse da existência de mulheres lésbicas, conta que se enxergava como “depravada demais”, como se sua sexualidade fosse uma suposta “perversão”, algo que pensava acontecer por ser muito precoce. “No fim da adolescência, comecei a ver [a bissexualidade] como uma possibilidade. A tal ‘moda’ (que nunca foi moda, simplesmente repetem isso o tempo todo) me ajudou, até o bi-curious do Orkut me ajudou e no final tive que aceitar. Sair do armário, ficar com a primeira guria e [sentir a necessidade de] militar começou mais ou menos ao mesmo tempo”. Furtado explica que o movimento bissexual a ajudou muito a se assumir e que as falas a empoderavam de um modo que ninguém mais conseguia – “e continua não conseguindo”, adiciona.
 
Jussara Oliveira, analista de sistemas, também é integrante do coletivo Bi-Sides e uma das administradoras do portal Blogueiras Feministas. Para ela, parte da dificuldade de se compreender como bissexual se deve aos estereótipos disseminados pela sociedade. “De início, houve muita negação. Tiveram que dizer para mim que eu estava me comportando como alguém apaixonada (por outra adolescente na época) para eu me dar conta. E foi um choque, porque não queria fazer parte daquilo que eu conhecia sobre a bissexualidade. Eram um monte de estereótipos sobre indecisão e promiscuidade que eu temia me associar. E como me questionavam muito, ficava me perguntando se em algum momento eu teria que escolher do que ou de quem eu ‘gostava de verdade’”, conta.
 
Só sabe quem é bi
 
Os estereótipos a respeito da bissexualidade são bombardeados de todos os lados.  Viver sob constante pressão para atender a uma lógica de enquadramento sexual e lidar com a frequente hostilização derivada do preconceito não é nada fácil. Em um período como o da adolescência, que por si só já carrega mudanças importantes e questionamentos profundos, o preconceito pode resultar em transtornos psicológicos severos.
 
“É horrível que não acreditem em algo que, ao mesmo tempo, julgam mal – algo que Miguel Obradors chamou de Imperialismo Cultural. É sair do armário e não saber se é pior que não te aceitem ou que não acreditem. E aí podem aceitar, se acham que na verdade você é hetero, e não aceitar, se acham que na verdade você é homo”, explica Furtado.
 
Entre os equívocos e estigmas mais reproduzidos contra bissexuais, está a ideia de que não servem para relacionamentos estáveis ou monogâmicos e de que são infiéis. Em uma cultura que estimula relacionamentos baseados em possessividade e ciúmes, essa combinação pode ser perigosa, sobretudo para as mulheres, que já enfrentam altas taxas de violência doméstica, estupro e feminicídios – em muitos casos, a violência acontece porque os parceiros são controladores, ciumentos e machistas.
 
O machismo, aliás, é marca de destaque quando o assunto é bissexualidade, sendo esse um tema relevante para se discutir gênero e direitos da mulher. Para Carina Rocha, articuladora cultural, que além de ser integrante do Bi-Sides é ativista no coletivo Juntas na Luta, a simples existência de mulheres bissexuais torna o tema fundamental para o feminismo. “Mulheres estão sendo violentadas psicologicamente e fisicamente por serem bissexuais e é por essa pauta que militantes feministas de coletivos como o Bi-Sides lutam para que esteja legitimada no movimento feminista”, aponta.
 
Na ótica de Rocha, a heteronormatividade e o machismo fazem parte do problema: “A tendência é que nossa orientação seja apagada e a gente fique no armário hétero a vida inteira, infelizmente. A gente se bloqueia para ter relações homoafetivas por conta da homofobia e também porque as pessoas não vão entender que a gente não virou lésbica/gay, que a gente é bi”.
 
Além das pessoas heterossexuais, Rocha lembra que grande parte das lésbicas também não confia nas mulheres bissexuais, já que também sentem atração por homens. “A sociedade nos enxerga como promíscuas, indecisas, safadas ou que só ficamos com mulher pra fazer charme para os homens, que por sua vez fetichizam nossa sexualidade”, coloca. De fato, a bissexualidade feminina é um dos fetiches mais comuns entre os homens – o machismo em nossa cultura incentiva as pessoas a acreditar que a sexualidade e o corpo das mulheres existem para o prazer masculino.
 
O protesto contra a objetificação sexual é evidenciado nas falas dessas mulheres. “Como mulher, a sociedade constantemente põe dificuldades em nossas sexualidades. Mas especificamente com bissexuais, somos ainda mais objetificadas e vistas como isca para aventuras sexuais por homens héteros”, afirma Jamille Nunes. “Além disso, existem mais desculpas para invalidar minha sexualidade, como o fato de que supostamente me declaro bissexual só para ‘chamar a atenção’ de outros caras, ou porque está ‘na moda’ ou é ‘moderno’”.
 
Ela completa: “Todas as sexualidades que fogem da heteronormatividade e englobam a mulher e a relação entre mulheres são importantes para o Feminismo. É combatendo a misoginia que a gente desconstrói a exotificação, estigmatização e hipersexualização da nossa sexualidade. Ninguém questiona a validade dos nossos relacionamentos heteroafetivos, mas se não combatemos esses estereótipos, nossos relacionamentos homoafetivos são vistos como ‘incompletos’, como se não quiséssemos ou pudéssemos estabelecer relacionamentos sérios e duradouros com outras mulheres, ou como entretenimento para homens, entre outros discursos bifóbicos”. Nunes finaliza sua fala lembrando que a situação é ainda mais violenta para as mulheres bissexuais negras, vítimas diárias da hipersexualização, e que é necessário interseccionar os debates.
 
E os homens?
 
Há algumas semanas, Paulo César Góis, também do Bi-Sides, publicou em suas redes sociais uma interessante reflexão sobre o ponto de vista masculino da bissexulidade, e como a relação de muitos homens heterossexuais diante dela pode envolver o medo de se descobrir não tão hétero assim. “Considerando-se a bissexualidade, o argumento do ‘eu, hétero, machão’ e ‘eles, os viados’ fica muito mais fraco. Essa binária machista, homofóbica e bifóbica vai pelos ares, porque se um cara que sente atração por outros caras (um ‘viado’) também pode sentir por mulheres, o que os livra dessa possibilidade?”, indaga. “Os limites rígidos da sexualidade tornam-se subitamente menos significativos. Não existe mais um ‘eu’ e ‘eles’ bem delimitado e isso é ameaçador”.
 
Mas se sentir atração por mulheres não exclui a possibilidade de um homem se atrair por outros homens, o que fazer? Nas palavras de Góis, a vida é uma miríade de experiências e isso definitivamente não é um problema, caso aconteça. E acontece bastante. No entanto, a experiência de homens e mulheres bissexuais difere em alguns pontos, ainda que a marca do machismo se faça presente: “Existe uma diferença na forma como a sociedade encara a bissexualidade quando se trata de um homem e uma mulher. O homem bissexual é uma entidade fantástica ainda esperando ser documentada; é sempre o gay covarde que não se aceita, tendo de lidar com a ridicularização, além da homofobia”, explica.
 
É nesse ponto que entra a hostilização contra aqueles que não são considerados “homens o suficiente”, em defesa de um padrão masculino que não consegue se sustentar. “Existe um esforço impressionante para que a bissexualidade não seja aceita como uma sexualidade legítima e real, porque ela rompe com uma rígida categorização das experiências sexuais e afetivas”, argumenta Góis. “Isso fica ainda mais evidente quando falamos sobre homens cis heterossexuais, cujos privilégios só são páreos para a insegurança latente.”
 
O que o movimento LGBT fala disso?
 
Essa pergunta é repetida exaustivamente em forma de protesto pelos grupos ativistas bissexuais. Carina Rocha é a primeira a falar: “O movimento LGBT num modo geral é bifóbico pra caramba, o público LG [lésbicas e gays] geralmente acredita que nós somos homossexuais e lésbicas que não querem se assumir realmente, quando não é nada disso! Existe também uma disputa de interesses, porque se a bissexualidade ganhar voz na sociedade, a comunidade LG tem medo de sofrer com ideologias como: ‘seu amigo namorava um cara, agora namora uma menina, porque você também não faz isso?’. Eles têm medo de que a sexualidade deles seja mais oprimida ainda em detrimento da nossa. Só que não é justo que eles lutem pra ter sua sexualidade legitimada enquanto a nossa seja apagada e inferiorizada e continue sendo oprimida”, salienta. “Se for assim, não faz sentido ter o ‘B’ na sigla LGBT. Aliás, o B é pura fachada. O movimento LGBT mal fala da bissexualidade e da bifobia. Cartilhas das secretarias dos órgãos públicos que mal falam do B e quando falam não explicam nada, só citam a palavra ‘bifobia’; isso não é combater bifobia, isso é fingir que estão contemplando um grupo, quando não estão”.
 
Segundo Jamille Nunes, gays e lésbicas muitas vezes acabam sendo tão opressivos quanto os heterossexuais de fora do movimento LGBT. “Acho que muito disso acontece por não compreenderem a bissexualidade. A nossa existência tira muitas pessoas LGs da zona de conforto do pensamento ‘eles’ (heterossexuais) e ‘nós’ (homossexuais). Então, essas pessoas repetem discursos violentos para nos deslegitimar, como o de que somos ‘farsantes’. Às vezes fica um pouco desgastante discutir com quem supostamente deveria nos ajudar a termos espaço também”, observa.
É notável que muitas correntes feministas e militantes do movimento LGBT não consideram que a bifobia seja de fato um tipo de discriminação. Jussara Oliveira pontua: “O mínimo de aproximação que tive do movimento LGBT como um todo só me fez internalizar mais preconceito. Com exceção de alguns poucos grupos de lésbicas ou transexuais, não se vê nem mesmo o assunto ser abordado. Nossas demandas são ignoradas com a desculpa que o que sofremos já está englobado na luta contra homofobia e lesbofobia e isso não é verdade. Isso faz com que tenhamos muita dificuldade em encontrar materiais e pesquisas sérias sobre o assunto e tenhamos muito pouco espaço para falar sobre nossas demandas”, explica. Para Oliveira, o preconceito contra as pessoas bissexuais é visto como menor e menos importante e muitos sequer se dão conta que a discriminação que elas sofrem é diferente.
 
As duras críticas fazem parte da necessidade crescente de pluralizar os movimentos sociais e atender as especificidades de muitos outros grupos e pautas negligenciadas. “Eu sou bissexual e sou negra. O buraco é mais embaixo. Eu sou fetichizada por ser mulher negra e bissexual, eu sou objetificada pela opressão bifóbica e racista, eu sou fetichizada por homens e rejeitada na comunidade les/bi por não corresponder ao padrão de beleza branco, eu não vejo representatividade bi na mídia e muito menos bi negra. Eu passei a época da faculdade inteira me bloqueando pra relações homo porque as meninas me rejeitaram quando adolescente porque eu era a ‘feia que não arrumava o cabelo’, os caras sempre quiserem uma ‘mulata’ (termo racista né, mas é assim que eles falam) pra ‘comer’, mas as garotas não… Elas não me queriam nem pra sexo e essa minha vivência foi mega violenta pra mim, só compreendi que sofri uma opressão racial e bifóbica quando me entendi como mulher negra. São dois empoderamentos diferentes que estão interligados e na minha vida não podem ser tratados separadamente”, enfatiza Carina Rocha.
 
Paulo César Góis completa falando que as pautas lembradas são geralmente as que contemplam homens gays, cis e brancos, criando-se uma minoria dentro da própria minoria. “Não há acolhimento de pessoas bissexuais; o que fazem é nos deixar ainda mais expostos a um mundo homofóbico e bifóbico através da trivialização, silenciamento e exclusão”, destaca. Góis nota que, além da falta de representação, quando as pessoas bissexuais se unem com um objetivo, quase ninguém se move para apoiá-las. “O B de LGBT poderia muito bem significar ‘banana’ que ninguém se importaria”, finaliza.
 
Sem muros, uma batalha em campo aberto
 
Se gays e lésbicas já sofrem com a invisibilidade e falta de representação de qualidade na mídia, a temática da bissexualidade não consegue fugir das polarizações. Com péssima representatividade, não é nenhuma surpresa que pessoas marginalizadas acumulem problemas de autoestima e outros resultados que interferem de forma nociva em suas vidas.
 
A mídia carrega grande responsabilidade pelo apagamento bissexual. “Recentemente, o desenho Avatar: A Lenda de Korra retratou um casal de mulheres bissexuais (envolvendo a protagonista, que inclusive não é branca!) e, se de um lado o público hétero via ‘apenas amigas’ e nos chamava de exagerados, do outro a pressão para dizer que elas eram lésbicas durou até que os próprios autores da série disseram que são bissexuais de fato e que, sim, a gente existe”, conta Góis. “Mas imaginemos que isso não aconteça, afinal, pouquíssimos autores se posicionam sobre isso: continuaríamos achando que as personagens são héteros ou lésbicas quando na verdade são bissexuais. E isso acontece em grande escala, não só em ficção como no mundo real, nos deixando sem exemplos positivos”.
 
Enxergar-se de forma positiva é fator fundamental para a boa saúde mental e o contrário pode ser devastador. “Algumas pesquisas já apontaram que pessoas bissexuais têm altos índices de pobreza, depressão, suicídio, automutilação e alcoolismo. Se você adicionar outros fatores, como gênero e raça, as coisas ficam bem difíceis”, Góis pontifica.
 
Para promover uma imagem real, garantindo o fim dos estigmas e clichês preconceituosos, os ativistas reivindicam mais espaço e mais oportunidades para que possam falar sobre a bissexualidade sem tabus e mentiras. O objetivo é conquistar espaço e ajudar outras pessoas bissexuais no processo de se compreenderem melhor e construírem melhores relações, tanto consigo quanto com potenciais parceiros e parceiras.
 
Para aqueles que precisam de algum apoio, Paulo César Góis lembra: “Não existe maneira correta de ser bissexual. Bissexual não é somente a pessoa que sente atração 50% por mulher e 50% por homem; estas sequer são as únicas possibilidades de gênero e certamente a sexualidade é muito complexa para ser definida dessa forma rasa e rígida”. Sua mensagem é, afinal, de encorajamento – algo que brota da luta genuína: “Se você é uma pessoa que reconhece em si mesma o potencial para se atrair por mais de um gênero, não se sinta com medo de usar a palavra com B. Não tenha medo de ser quem é. A vida é muito curta pra isso. Sim, é difícil — às vezes vêm golpes de onde a gente menos espera —, mas a liberdade também é gloriosa.”

"Morar junto é uma ilusão" Por Gustavo Gitti

 
Quanto maior a sensação de proximidade, mais nos esquecemos de que precisamos bater na porta do outro.

Por Gustavo Gitti para o Vida Simples
 
Na primeira cena, ela está colada à tela, enredada em ideias para um novo projeto. Ele enxerga um corpo e supõe que ela está à disposição. Chama, pergunta, mas não é a esposa ali. Ela fala qualquer coisa para se desvencilhar das interrupções e voltar ao trabalho. Depois a reclamação: "Você me ignora, não me ouve, é grossa". Ela poderia responder: "É você que inicia diálogos de uma posição ruim, sem antes ver onde estou".
 
Na segunda cena, ele está lavando louça ou se vestindo, ela está em outro cômodo. Por comodidade (notem o radical em comum), em vez de andar até ela para uma conversa com 100% de atenção, ele quase grita: "Meu pai está mal. Vamos lá amanhã?". Ela responde como dá, ele não cessa a conversa, eem minutos entram em um tema espinhoso, que exigiria um contato olho no olho. Sem querer, ele solta uma ofensa e a situação deságua em sofrimento. Brigam por distração - somada à, digamos, falta de infraestrutura para um diálogo. Ele poderia se desculpar assim: "Falei aquilo porque estava fazendo outra coisa, foi um gesto emocional, por favor desconsidere o conteúdo".
 
Na terceira e última cena, ela está lendo A Soma de Tudo (Sum, do neurocientista David Eagleman), com corpo e mente imaginando experiências possíveis após a morte. Ela não está avoada ou longe; ela está presente em um lugar sutil. Tanto é que se ele chegasse com uma boa pergunta ("O que está visualizando aí em seu mundo?"), ela falaria por horas. Mas ele vem com tudo e mostra o celular: "Pira nesse vídeo!". O modo como nos aproximamos de alguém escancara onde está nossa mente. Se estamos autocentrados, chegamos afobados, igual faz uma criança, querendo sempre a preferencial no trânsito das urgências, como se todos fossem personagens de um mesmo filme: o nosso. Se não estamos autocentrados, vemos um outro mundo (não metros, mas quilômetros à frente), nos aproximamos com interesse e com a liberdade de interromper ou de deixar para depois. Um dos atos mais cruéis é roubar o tempo, a atenção, a energia das pessoas elevá-las a desperdiçar parte da vida com frivolidades. É um roubo como qualquer outro.
 
Triste: quanto maior a intimidade, mais tomamos a proximidade como estabelecida, menos nos aproximamos de verdade. Casar ou morar junto não significa habitar o mesmo mundo do outro - e que bom que seja assim. Ainda que estejamos sob o mesmo teto, ou justamente por isso, precisamos sempre bater na porta. E esperar que ela se abra.
 
Gustavo Gitti é publicitário e gosta de trabalhar em espaços de transformação coletiva. Seu site é olugar.org

28 de jan de 2015

Papa Francisco recebeu transexual no Vaticano, diz jornal da Espanha

 
 

 
Visto em O GLOBO
 
Um espanhol transexual teria se encontrado com o Papa Francisco, em uma audiência privada no Vaticano, no último sábado, segundo o jornal local “Hoy”, da região de Extremadura, na Espanha. O Vaticano ainda não confirmou o encontro, mas também não negou.
 
Diego Neria Lejárraga, que nasceu com o sexo feminino, antes de passar pela transformação, e sua noiva, teriam conversado com o pontífice em sua residência oficial.
 
Na entrevista ao “Hoy”, Neria disse que enviou a Francisco uma carta explicando que alguns de seus colegas da igreja que frequenta, na cidade espanhola de Plasencia, passaram a rejeitá-lo depois que ele passou pela cirurgia de mudança de sexo. Ele contou que um dos padres da paróquia o chamou de “filha do diabo”. Comovido com o relato do fiel, Francisco teria chamado Neria para o encontro, na véspera de Natal, e a audiência teria ocorrido, então, um mês depois.
 
“Depois de ouvi-lo em muitas ocasiões, eu senti que ele poderia me ouvir”, disse Neria em uma reportagem publicada no último domingo.
 
A notícia do encontro foi recebida por ativistas LGBT com comemoração. José María Núñez Blanco, presidente da Fundación Triángulo, um grupo espanhol de advogados, criticou, em um comunicado, no domingo, as posições do Vaticano sobre questões LGBT, mas descreveu o encontro de Francisco com Neria como “uma boa notícia”.
 
“É absolutamente absurdo que um fiel seja impedido de viver suas crenças religiosas. Alguns proclamam a religião do amor e se dedicam a espalhar o ódio. Esperemos que a Igreja Católica deixe de ser uma máquina de ódio e sofrimento e se volte para o bem dos crentes e não-crentes”, disse Núñez.
 
Já Marianne Duddy-Burke, diretora-executiva da Dignidade EUA, uma ONG de apoio aos direitos dos LGBT católicos, classificou o encontro de Francisco com Neria como “um evento muito significativo”.